Quando a gente vira dogma

Corria o ano de 2020, época em que o mundo se via às voltas com a epidemia de Covid-19. No Brasil, além dos cuidados necessários ao tipo de situação, tivemos de lidar com um governo tosco, que espalhou fake news sobre a eficácia das vacinas, divulgou um medicamento inócuo no combate ao vírus e retardou o início da imunização vacinal da população, o que resultou em milhares de mortes além do tolerável. Manaus, que viu centenas de seus habitantes perecerem, que o diga. A capital do Amazonas, como todos devem se recordar, foi a que mais teve vítimas fatais da Covid-19.

À mesma época, o médium e expositor baiano Divaldo Pereira Franco, então com 93 anos, precisou passar por uma intervenção cirúrgica. Uma semana depois, já estava recuperado. Foi quando um conhecido repórter fotográfico do movimento espírita do RJ postou, em uma rede social, a foto do referido médium sentado à mesa de trabalho e com a seguinte legenda: “A foto do ano. INACREDITÁVEL, Divaldo trabalhando uma semana após a cirurgia. Agradecendo a Deus por ele estar se recuperando bem. Di, nós te AMAMOS!”

Incomodado com o que havia lido, enviei para o fotógrafo uma mensagem particular. Nela, argumentei que inacreditáveis, a meu ver, eram os então mais de 100 mil mortos pela pandemia, a injustiça social, o racismo, a homofobia e o fato de Divaldo e o movimento espírita dito oficial fazerem vista grossa para essas questões. Disse, ainda, que achava repugnante esse tipo de bajulação.

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A prática de Eurípedes Barsanulfo: entre a educação colonial e a indígena

Escrevo este texto a pedido Dora Incontri após eu ter observado alguma semelhança entre as “ideias e práticas pedagógicas” de Eurípedes Barsanulfo (1880-1918) e a construção de conhecimento dos povos indígenas do Brasil. Tentarei demonstrar algumas destas semelhanças a seguir:

Barsanulfo, professor, jornalista e político mineiro, fundou o colégio Allan Kardec e ministrou aulas utilizando práticas pedagógicas centradas nos alunos, estimulando nestes, a liberdade e a vontade de conhecer. Desta prática, as aulas passeio marcaram a memória dos estudantes do colégio, pois segundo os próprios alunos, as crianças adoravam sair da escola para passear e aprender. Entre os indivíduos que estudaram no colégio, Novelino e Germano, contam que Eurípedes considerava as aulas passeio fundamentais ao processo de ensino-aprendizagem, pois eram oportunidades de conhecimento, curiosidade, socialização, observação, conversas e debates.

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A perseguição aos bons e o caso Glauber Braga

A recente e injusta perseguição ao deputado Glauber Braga, com a ameaça de sua cassação política me leva a propor uma questão crucial, filosófica, política, social… Por que um certo deputado, numa cena dantesca no Congresso Nacional, num golpe contra uma mulher honesta, citou e elogiou o torturador desta mulher, e não foi cassado – como deveria por lei por fazer apologia à tortura – e recebeu uma cusparada indignada de um Jean Wyllys, que teve depois que se exilar? Esse dito deputado, de quem nunca cito nome, tornou-se depois presidente do Brasil, responsável por milhares de mortes durante a pandemia, por sua negação da vacina, envolvido com roubo de joias e tentativa de golpe de Estado e continua livre e solto por aí… enquanto Glauber, um deputado que luta por boas causas populares, de peito aberto, ao lado de sua companheira, a também deputada Sâmia Bomfim, está para ser expulso desse mesmo Congresso?

Por que um Sócrates foi condenado a beber cicuta, Jesus foi crucificado, Gandhi, Martin Luther King e Malcolm X foram baleados e tantos trastes continuaram semeando suas injustiças mundo afora?

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Abuso espiritual – um livro necessário

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Te­nho sempre defendido nessa coluna o exercício de uma espiritualidade crítica, que possa preservar a nossa conexão com o transcendente, mas nos livre das opressões e repressões que se praticam aos quatro ventos das religiões. Pois acaba de ser lançado um livro indispensável para este debate: Abuso espiritual – a manipulação invisível de Gabriel Perissé, pela Editora Paulus.

O autor, amigo de longa data, tem doutorado em Filosofia da Educação pela USP e em Teologia pela PUC-RS, entre outras titulações, e é escritor de muitas obras sobre educação, espiritualidade e literatura. Com um estilo refinado e saboroso e um raro alcance erudito, consegue dar nesta obra uma contribuição muito oportuna.

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Trabalho e valor econômico

Publiquei, certa vez, um artigo intitulado “Trabalho e exploração de mão de obra”. Nele, como o próprio título evidencia, falo sobre trabalho escravo, horas extras nunca pagas, horários de almoço limitados, entre outras diatribes costumeiras a um país que ainda carrega no DNA a cultura escravagista. Resolvi voltar ao assunto devido a casos que venho colecionando na mente há algum tempo e que eclodiram devido a um fato recente.

No início de setembro de 2024, Márcio Negócio, artista da cidade de Petrópolis (RJ), onde nasci e vivo, morreu devido a um infarto. Ele estava se apresentado em Salvador (BA) quando passou mal. Foi levado imediatamente ao hospital, mas não teve jeito. O fato enlutou a classe artística petropolitana e causou ainda mais tristeza quando Sylvio Costa Filho, ator e amigo de longa data, postou, nas redes sociais, um vídeo denunciando um episódio lamentável: Márcio, assim como vários artistas locais, trabalhou na Bauernfest, festa do colono alemão que, todos os anos, do meio de junho ao início de julho, acontece na cidade, atraindo inúmeros turistas, que lotam os hotéis, restaurantes, lojas e impulsionam a economia. Só que, passados dois meses do término do evento, Márcio ainda não havia sido pago pela prefeitura. Pior: ele estava precisando do dinheiro para manter as contas em dia e infelizmente morreu sem ter o trabalho remunerado e valorizado.

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Os estupros, os abortos e os homens

Não dá para escapar deste tema indigesto, o tal Projeto de Lei 1904/2024, que prevê crime de homicídio para as meninas e mulheres que abortem com mais de 22 semanas de gestação – o que em tese pode render até 20 anos de detenção para quem pratica o aborto, enquanto estupradores podem pegar no máximo 12 anos de prisão.

O assunto é delicado e tem nuanças, que precisam ser explicadas. Realizar um aborto de um feto a partir de 5 meses tem o significado de morte de um bebê, sim. Não podemos minimizar este fato. Há casos de nascituros com 5 meses de gestação – embora raros, que sobrevivem em incubadora. Daí para frente, 6, 7, 8 meses, já se trata de um bebê quase inteiramente formado. E pela lei que vem desde 1940, o aborto em caso de estupro e em caso de risco de vida da mãe pode ser praticado em qualquer período da gestação. Note-se que nos casos de crianças que engravidam, a lei funciona nos dois sentidos: são vítimas de estupro e ao mesmo tempo correm risco de vida em levar adiante a gravidez, por não terem ainda o corpo formado.

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Rio Grande do Sul: não é resgate, é descaso! 

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Já escrevi algumas vezes sobre os efeitos danosos que a ganância humana tem causado ao meio ambiente. Na primeira vez, no segundo livro de minha autoria – “O espiritismo é pop” – toco no assunto em dois artigos: em ‘Aflições ecológicas de ontem e hoje’, falo sobre as cheias que afetaram o Espírito Santo em 2013 devido às fortes chuvas que caíram e encontraram rios assoreados e ocupação desordenada do solo. Já em “Leis morais e planejamento urbano”, comento sobre a descompostura que o Brasil tomou da Organização das Nações Unidas (ONU) em 2011 por não ter se precavido para evitar a tragédia que se abateu sobre a Região Serrana do RJ em janeiro daquele ano.  

No terceiro artigo – “Brumadinho – resgate de vidas passadas? Devagar com o andor!” – questiono o hábito que o espírita brasileiro tem de achar que toda tragédia que acontece tem a ver com resgate de débitos de vidas pretéritas. Aliás, já havia feito o mesmo nos dois primeiros artigos, mas aprofundei a questão no terceiro. 

Por fim, no quarto – “Rolam as cifras, jorram as águas” – critico uma canção espírita edulcorada que enaltece um Brasil onírico em que não há “terremotos, vulcões, furacões” ao mesmo tempo em que falo sobre a tromba d´água que, em março de 2020, vitimou cidades da Baixada Santista. 

Resolvi voltar ao assunto devido ao grave problema que o Estado do Rio Grande do Sul (RS) enfrentou em maio de 2024. Uma cheia histórica foi alagando várias cidades do Vale do Taquari, o que resultou no transbordamento tanto do Rio Guaíba, que margeia a capital, Porto Alegre, como a Lagoa dos Patos, o que afetou outras cidades. O estrago foi grande. Cerca de 150 pessoas mortas e outras tantas desaparecidas; rodoviária e aeroporto submersos; residências e estabelecimentos comerciais também debaixo d´água; lama e entulho por todos os lados; gente desabrigada; rodovias interditadas; aulas suspensas; doenças como leptospirose e dengue eclodindo… E prejuízos; incontáveis prejuízos. 

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Encruzilhada: Luiz Gama e antirracismo em reunião mediúnica

Apagamento e resgate, assuntos que estão em voga frente ao movimento decolonial que movimenta as universidades e a sociedade desde o início do século XXI. Entende-se o pensamento colonial como aquele em que a estrutura de poder ataca as estruturas do local em que o poder colonial se estabelece. Destacam-se além do poder, na colonialidade, as imposições do saber e do ser. 

O processo de poder estabelece-se na subjugação de povos tidos como inferiores; a do saber, com a introdução de um pensamento hegemônico e ceifador de divergências, e a do ser, com a desqualificação de determinados grupos com exacerbação de qualidades dos colonizadores e consequente marginalização dos excluídos.

A combinação dessas vertentes coloniais estrutura a sociedade de forma a apagar e silenciar ideias, culturas, artes e organizações fora do pensamento hegemônico. No Brasil, atualmente, discute-se o racismo estrutural como uma das consequências desse processo.

Com esse conceito em mente, a última reunião do Grupo da Paulista do mês de maio, leu-se algumas páginas do livro Pedagogia das Encruzilhadas (Luiz Rufino, Mórula Editorial/2019), que discutia a necessidade de trazer o pensamento do Candomblé, Umbanda e de outras matrizes africanas a partir do conceito da encruzilhada, local mágico de Exú, para o dia a dia, a partir dos saberes e existência desses povos que resistem.

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O duelo nosso de cada dia

No capítulo 12 de “O Evangelho segundo o espiritismo” (“Amai os vossos inimigos”), Allan Kardec e os Espíritos que conduzem a obra tecem oportunas considerações acerca do duelo, prática que acompanha a humanidade desde priscas eras.

Já foi comum homens se desafiarem para duelar das mais variadas formas. No Velho Oeste americano, conforme mostram as produções cinematográficas que retratam a época, dois pistoleiros rivais se colocavam frente a frente na rua principal daquelas pequenas e empoeiradas cidades. Ambos com as mãos coçando para sacar da arma, presa ao coldre, e atirar. De repente, um deles dizia: “Essa cidade é pequena demais para nós dois”. Ato contínuo, ambos pegavam os revólveres e “pow!”, quem fosse mais rápido matava o oponente e saía ileso.

Nos filmes de capa e espada não era diferente. Duelistas brandiam os floretes até que um deles sucumbisse perfurado pelo oponente. E também havia os duelos mais nobres, em que dois fidalgos ficavam de costas um para o outro e de garrucha em punho. O mestre de cerimônias do “evento” contava, então, até dez enquanto ambos se afastavam em direções opostas e em passos cadenciados. Ao final da contagem, ambos se viravam e atiravam. O mais ágil levava a melhor enquanto o outro perdia a vida física.

O tempo foi passando e os duelos, mudando de configuração. Apesar de muitos acharem que eles estão superados, eles estão aí, dando as caras das mais variadas e sutis formas.

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Espíritas fora do prumo

A cidade de Petrópolis, na Região Serrana do RJ, sediou, no início de maio de 2024, a primeira edição do Festival Literário Internacional de Petrópolis (Flipetrópolis), que lotou os jardins do Palácio de Cristal, um dos pontos turísticos mais bonitos da Cidade Imperial.

De 1 a 5 de maio, um público ávido por informação, cultura e debates de cunho progressista compareceu em massa, não deixando vazios os auditórios montados para a ocasião, muito menos a livraria, que permaneceu lotada por todo o evento. Isso sem falar nas longas filas que o público enfrentou para conseguir um autógrafo dos escritores convidados, que foram muitos e de significativa importância. Falo de nomes como Jefferson Tenório, vencedor do Prêmio Jabuti 2021 pelo incensado “O avesso da pele”; Conceição Evaristo, primeira mulher negra a fazer parte da Academia Brasileira de Letras (ABL) e uma das mais festejadas intelectuais da atualidade; João Cândido Portinari, engenheiro, filho do famoso pintor homônimo e autor do elogiado “Arquitetura e urbanismo – Comunicação e artes”; Rosiska Darcy de Oliveira, igualmente imortal da ABL e conhecida na luta pelos direitos das mulheres e pela liberdade de expressão, entre outras frentes; Itamar Vieira Júnior, geógrafo e autor do aclamado e muito premiado romance “Torto arado”; Ana Maria Machado, ativista social desde os tempos da ditadura e festejada escritora com obras voltadas tanto para o público adulto como para o infanto-juvenil; Ailton Krenak, que além de poeta e escritor, é uma das maiores lideranças indígenas do país e foi recém-empossado na ABL; André Trigueiro, respeitado jornalista e ativista ambiental e autor de livros como “Viver é a melhor opção”, “Mundo sustentável”, “Cidades e soluções – como construir uma sociedade sustentável”… Também marcaram presença os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso e Carmem Lúcia, que falaram sobre direitos humanos, liberdade de expressão, defesa do Estado Democrático de Direito, entre outros tópicos que precisam ser abordados neste Brasil que ora vivemos. Conduzindo os debates, jornalistas como Sérgio Abranches, Flávia Oliveira, Jamil Chade e Miriam Leitão. Houve também a programação infanto-juvenil em homenagem à escritora Sylvia Orthoff, apresentações musicais, batalhas de rimas e de slam, bem como debates com escritores locais e internacionais, como a ruandesa Scholastique Mukasonga, convidada especial. Scholastique é a única sobrevivente de uma família que foi toda dizimada quando do genocídio em Ruanda, em 1994. Ela pertence à minoria tutsi. Uma mulher que tem muito a dizer, escrever e denunciar. Um exemplo de vida e resistência por meio da literatura

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