Kardec e o batom na estátua

Estava no auge, em todos os veículos de comunicação, o caso da cabeleireira paulista Débora Rodrigues dos Santos, condenada pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) a 14 anos de prisão. Motivo: nos atos terroristas de 8 de janeiro de 2023 ocorridos na Praça dos Três Poderes, em Brasília (DF), ela escreveu com batom a frase “Perdeu, mané” na estátua “A Justiça”, que fica em frente à sede do STF.

Débora, antes da sentença definitiva, proferida em maio de 2025, estava em prisão domiciliar. Antes, havia ficado dois anos numa penitenciária. O caso ganhou repercussão porque tentaram transformá-la numa espécie de musa (ou mártir) da extrema direita. Seus pares alegavam que ela nada depredou ou destruiu, tampouco invadiu prédios. Para eles, a condenação seria desproporcional.

À mesma época, num conhecido ponto de Petrópolis (RJ), onde moro, encontrei um deputado federal e um deputado estadual de um partido de esquerda. Como os conheço de eventos anteriores – dos quais participei representando o espiritismo progressista –, fui cumprimentá-los e também ao pessoal da comitiva. Ambos estavam na cidade justamente para um evento contra o projeto de lei de anistia para os presos do 8 de janeiro.

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Então, é Natal…

Spiritual young man praying to God having FAITH and HOPE

Sempre gostei do Natal e nunca deixo de escrever um poema ou um texto para celebrar a data. Não que me aprazam o comércio, Papai Noel e saber que muitos não terão qualquer presente ou mesmo o que comer. Gosto pela tentativa – muitas vezes frustrada – de união de família, de aconchego dos afetos; gosto do impulso solidário e caritativo que as pessoas tendem a demonstrar nesta data e que bem poderia se estender pelo ano todo e, sobretudo, me conforta a busca minha e de alguns de maior conexão com Jesus.

Não que acredite na historinha da manjedoura, dos reis magos, da estrela de Belém, dos pastores… é um símbolo lindo, cheio de significados, reinventado por Francisquinho de Assis no presépio que montamos por aí. Jesus nasceu em Nazaré, filho carnal de Maria e José, no meio de muitos irmãos, numa família pobre, operária, num lugar pequeno e inexpressivo, mas que ficou marcado na história pela irradiação de sua luz.

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Em defesa do ziriguidum

Recebi de um amigo espírita progressista, por uma rede social, um link de acesso a um vídeo de uma instituição espírita. Nessa postagem, um menino de aproximadamente 10 anos recitava não um poema, mas um texto (talvez decorado) com as costumeiras críticas que os espíritas fazem ao carnaval. Tratava-se de uma narrativa dentro dos padrões conservadores, que atribuem ao carnaval toda sorte de desequilíbrios espirituais. Detalhe: o menino era negro.

Incomodado com o que acabara de assistir, compartilhei o vídeo com diversos amigos espíritas igualmente progressistas e constatei que não fui o único a não gostar da publicação. Voltei, então, ao perfil da instituição e postei, nos comentários, uma crítica construtiva. Disse que deveríamos ter cuidado com os argumentos então apresentados porque, hoje em dia, devido ao progresso que temos vivido no tocante às questões raciais, as reprovações apresentadas tinham nome: racismo religioso. Acrescentei que a questão se tornava mais grave pelo fato de o texto estar sendo dito por um garotinho negro, ou seja, alguém que desconhece a história da África, bem como a própria ancestralidade. Afinal, o carnaval, principalmente no tocante aos desfiles das escolas de samba, é uma forte manifestação da cultura africana e sua resistência ante os vários embates que travou (e ainda trava) para vencer preconceitos. Foi um comentário fora da curva, já que a maioria deles dizia que o menino era uma gracinha, que demonstrava maturidade apesar da pouca idade, que era lindo ver uma criança dizendo um texto tão complexo etc.

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Quando a gente vira dogma

Corria o ano de 2020, época em que o mundo se via às voltas com a epidemia de Covid-19. No Brasil, além dos cuidados necessários ao tipo de situação, tivemos de lidar com um governo tosco, que espalhou fake news sobre a eficácia das vacinas, divulgou um medicamento inócuo no combate ao vírus e retardou o início da imunização vacinal da população, o que resultou em milhares de mortes além do tolerável. Manaus, que viu centenas de seus habitantes perecerem, que o diga. A capital do Amazonas, como todos devem se recordar, foi a que mais teve vítimas fatais da Covid-19.

À mesma época, o médium e expositor baiano Divaldo Pereira Franco, então com 93 anos, precisou passar por uma intervenção cirúrgica. Uma semana depois, já estava recuperado. Foi quando um conhecido repórter fotográfico do movimento espírita do RJ postou, em uma rede social, a foto do referido médium sentado à mesa de trabalho e com a seguinte legenda: “A foto do ano. INACREDITÁVEL, Divaldo trabalhando uma semana após a cirurgia. Agradecendo a Deus por ele estar se recuperando bem. Di, nós te AMAMOS!”

Incomodado com o que havia lido, enviei para o fotógrafo uma mensagem particular. Nela, argumentei que inacreditáveis, a meu ver, eram os então mais de 100 mil mortos pela pandemia, a injustiça social, o racismo, a homofobia e o fato de Divaldo e o movimento espírita dito oficial fazerem vista grossa para essas questões. Disse, ainda, que achava repugnante esse tipo de bajulação.

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A prática de Eurípedes Barsanulfo: entre a educação colonial e a indígena

Escrevo este texto a pedido Dora Incontri após eu ter observado alguma semelhança entre as “ideias e práticas pedagógicas” de Eurípedes Barsanulfo (1880-1918) e a construção de conhecimento dos povos indígenas do Brasil. Tentarei demonstrar algumas destas semelhanças a seguir:

Barsanulfo, professor, jornalista e político mineiro, fundou o colégio Allan Kardec e ministrou aulas utilizando práticas pedagógicas centradas nos alunos, estimulando nestes, a liberdade e a vontade de conhecer. Desta prática, as aulas passeio marcaram a memória dos estudantes do colégio, pois segundo os próprios alunos, as crianças adoravam sair da escola para passear e aprender. Entre os indivíduos que estudaram no colégio, Novelino e Germano, contam que Eurípedes considerava as aulas passeio fundamentais ao processo de ensino-aprendizagem, pois eram oportunidades de conhecimento, curiosidade, socialização, observação, conversas e debates.

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A perseguição aos bons e o caso Glauber Braga

A recente e injusta perseguição ao deputado Glauber Braga, com a ameaça de sua cassação política me leva a propor uma questão crucial, filosófica, política, social… Por que um certo deputado, numa cena dantesca no Congresso Nacional, num golpe contra uma mulher honesta, citou e elogiou o torturador desta mulher, e não foi cassado – como deveria por lei por fazer apologia à tortura – e recebeu uma cusparada indignada de um Jean Wyllys, que teve depois que se exilar? Esse dito deputado, de quem nunca cito nome, tornou-se depois presidente do Brasil, responsável por milhares de mortes durante a pandemia, por sua negação da vacina, envolvido com roubo de joias e tentativa de golpe de Estado e continua livre e solto por aí… enquanto Glauber, um deputado que luta por boas causas populares, de peito aberto, ao lado de sua companheira, a também deputada Sâmia Bomfim, está para ser expulso desse mesmo Congresso?

Por que um Sócrates foi condenado a beber cicuta, Jesus foi crucificado, Gandhi, Martin Luther King e Malcolm X foram baleados e tantos trastes continuaram semeando suas injustiças mundo afora?

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Abuso espiritual – um livro necessário

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Te­nho sempre defendido nessa coluna o exercício de uma espiritualidade crítica, que possa preservar a nossa conexão com o transcendente, mas nos livre das opressões e repressões que se praticam aos quatro ventos das religiões. Pois acaba de ser lançado um livro indispensável para este debate: Abuso espiritual – a manipulação invisível de Gabriel Perissé, pela Editora Paulus.

O autor, amigo de longa data, tem doutorado em Filosofia da Educação pela USP e em Teologia pela PUC-RS, entre outras titulações, e é escritor de muitas obras sobre educação, espiritualidade e literatura. Com um estilo refinado e saboroso e um raro alcance erudito, consegue dar nesta obra uma contribuição muito oportuna.

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Trabalho e valor econômico

Publiquei, certa vez, um artigo intitulado “Trabalho e exploração de mão de obra”. Nele, como o próprio título evidencia, falo sobre trabalho escravo, horas extras nunca pagas, horários de almoço limitados, entre outras diatribes costumeiras a um país que ainda carrega no DNA a cultura escravagista. Resolvi voltar ao assunto devido a casos que venho colecionando na mente há algum tempo e que eclodiram devido a um fato recente.

No início de setembro de 2024, Márcio Negócio, artista da cidade de Petrópolis (RJ), onde nasci e vivo, morreu devido a um infarto. Ele estava se apresentado em Salvador (BA) quando passou mal. Foi levado imediatamente ao hospital, mas não teve jeito. O fato enlutou a classe artística petropolitana e causou ainda mais tristeza quando Sylvio Costa Filho, ator e amigo de longa data, postou, nas redes sociais, um vídeo denunciando um episódio lamentável: Márcio, assim como vários artistas locais, trabalhou na Bauernfest, festa do colono alemão que, todos os anos, do meio de junho ao início de julho, acontece na cidade, atraindo inúmeros turistas, que lotam os hotéis, restaurantes, lojas e impulsionam a economia. Só que, passados dois meses do término do evento, Márcio ainda não havia sido pago pela prefeitura. Pior: ele estava precisando do dinheiro para manter as contas em dia e infelizmente morreu sem ter o trabalho remunerado e valorizado.

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Os estupros, os abortos e os homens

Não dá para escapar deste tema indigesto, o tal Projeto de Lei 1904/2024, que prevê crime de homicídio para as meninas e mulheres que abortem com mais de 22 semanas de gestação – o que em tese pode render até 20 anos de detenção para quem pratica o aborto, enquanto estupradores podem pegar no máximo 12 anos de prisão.

O assunto é delicado e tem nuanças, que precisam ser explicadas. Realizar um aborto de um feto a partir de 5 meses tem o significado de morte de um bebê, sim. Não podemos minimizar este fato. Há casos de nascituros com 5 meses de gestação – embora raros, que sobrevivem em incubadora. Daí para frente, 6, 7, 8 meses, já se trata de um bebê quase inteiramente formado. E pela lei que vem desde 1940, o aborto em caso de estupro e em caso de risco de vida da mãe pode ser praticado em qualquer período da gestação. Note-se que nos casos de crianças que engravidam, a lei funciona nos dois sentidos: são vítimas de estupro e ao mesmo tempo correm risco de vida em levar adiante a gravidez, por não terem ainda o corpo formado.

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Rio Grande do Sul: não é resgate, é descaso! 

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Já escrevi algumas vezes sobre os efeitos danosos que a ganância humana tem causado ao meio ambiente. Na primeira vez, no segundo livro de minha autoria – “O espiritismo é pop” – toco no assunto em dois artigos: em ‘Aflições ecológicas de ontem e hoje’, falo sobre as cheias que afetaram o Espírito Santo em 2013 devido às fortes chuvas que caíram e encontraram rios assoreados e ocupação desordenada do solo. Já em “Leis morais e planejamento urbano”, comento sobre a descompostura que o Brasil tomou da Organização das Nações Unidas (ONU) em 2011 por não ter se precavido para evitar a tragédia que se abateu sobre a Região Serrana do RJ em janeiro daquele ano.  

No terceiro artigo – “Brumadinho – resgate de vidas passadas? Devagar com o andor!” – questiono o hábito que o espírita brasileiro tem de achar que toda tragédia que acontece tem a ver com resgate de débitos de vidas pretéritas. Aliás, já havia feito o mesmo nos dois primeiros artigos, mas aprofundei a questão no terceiro. 

Por fim, no quarto – “Rolam as cifras, jorram as águas” – critico uma canção espírita edulcorada que enaltece um Brasil onírico em que não há “terremotos, vulcões, furacões” ao mesmo tempo em que falo sobre a tromba d´água que, em março de 2020, vitimou cidades da Baixada Santista. 

Resolvi voltar ao assunto devido ao grave problema que o Estado do Rio Grande do Sul (RS) enfrentou em maio de 2024. Uma cheia histórica foi alagando várias cidades do Vale do Taquari, o que resultou no transbordamento tanto do Rio Guaíba, que margeia a capital, Porto Alegre, como a Lagoa dos Patos, o que afetou outras cidades. O estrago foi grande. Cerca de 150 pessoas mortas e outras tantas desaparecidas; rodoviária e aeroporto submersos; residências e estabelecimentos comerciais também debaixo d´água; lama e entulho por todos os lados; gente desabrigada; rodovias interditadas; aulas suspensas; doenças como leptospirose e dengue eclodindo… E prejuízos; incontáveis prejuízos. 

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