A banalidade do mal: diálogos entre Filosofia e Psicanálise

Por Lindemberg Macena

1. Introdução: o enigma do fascínio destrutivo

A história humana é marcada, de forma recorrente e traumática, por explosões de violência sistemática e de extermínio em massa. Guerras, genocídios, massacres e formas persistentes de violência, como o feminicídio, impõem uma questão filosófica e psicológica incômoda: por que a destruição do outro exerce um fascínio tão poderoso sobre indivíduos e coletividades? Essa atração pelo mal, longe de ser um atributo exclusivo de monstros ou psicopatas, muitas vezes emerge em contextos de normalidade aparente, envolvendo pessoas comuns em maquinários de horror. É neste terreno paradoxal que o conceito seminal de Hannah Arendt, a “banalidade do mal”, se torna fundamental. Desenvolvido a partir de sua cobertura do julgamento de Adolf Eichmann, o burocrata nazista, o termo propõe uma reviravolta na compreensão da maldade: seu perigo maior não estaria na radicalidade satânica, mas na trivialidade, na irreflexão e na incapacidade de pensar a partir da perspectiva do outro.

Este breve artigo propõe um diálogo interdisciplinar entre a filosofia política arendtiana e as lentes interpretativas da psicanálise, sem a pretensão de apresentar uma verdade absoluta. Partindo da análise arendtiana, que enfatiza a dimensão política, ética e fenomenológica do mal, conectamos suas reflexões com os insights sobre a destrutividade oriundos da obra de Sigmund Freud, particularmente sua teoria das pulsões, e de Carl Gustav Jung, com seus conceitos de sombra, inconsciente coletivo e complexos culturais. A hipótese central é que o fascínio pelo mal pode ser compreendido de maneira mais plena na intersecção entre a falta de pensamento e de reflexão (Arendt), a força da pulsão de morte (Freud) e a atuação de complexos culturais traumáticos (Jung). Enquanto Arendt descreve o “como” do mal burocrático e irrefletido, a psicanálise investiga os “porquês” profundos, as motivações inconscientes que alimentam a violência individual e coletiva.

2. A contribuição de Hannah Arendt

A experiência de Hannah Arendt no julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém (1961) foi um divisor de águas em seu pensamento. Expectando encontrar um monstro ideológico ou alguém psicologicamente adoecido, deparou-se com um homem “terrivelmente e assustadoramente normal”. Eichmann não era um ideólogo fanático, mas um funcionário diligente, cuja principal característica era uma profunda incapacidade de pensar – isto é, de refletir criticamente sobre a natureza e as consequências de seus atos. Ele operava por clichês linguísticos e uma lógica burocrática autônoma, onde a questão moral se reduzia ao cumprimento de ordens e à eficiência administrativa.

Arendt identifica neste fenômeno a essência da “banalidade do mal”. O mal não é radical, mas raso; não nasce da profundidade diabólica ou de uma natureza humana profundamente má, mas da superficialidade do não-pensamento. Ele floresce em sistemas totalitários ou autoritários que destroem o espaço público da pluralidade – a condição humana fundamental de viver entre diferentes – e substituem a ação política pela mera execução de um processo. O indivíduo se torna uma engrenagem, e sua responsabilidade se dissolve na cadeia de comando. Nesse contexto, o fascínio pela violência pode ser menos um desejo ativo e mais uma aceitação passiva, um abandono da faculdade de julgar em favor da conformidade e do pertencimento a uma máquina maior.

A filosofia de Arendt, profundamente influenciada por seu mestre e amigo Karl Jaspers, se constrói sobre o valor do “mundo comum” (amor mundi) e da pluralidade. Para Jaspers, a existência autêntica se dá na comunicação e no reconhecimento do outro na sua liberdade e diferença. A violência totalitária, ao tentar eliminar essa diferença (seja racial, étnica, política, religiosa ou de gênero), é um ataque direto à condição humana. A obediência cega de um Eichmann representa, portanto, uma falha em assumir a própria liberdade e em realizar o “pensamento vicário” – a capacidade de visitar mentalmente o ponto de vista alheio, que Arendt associa à “mentalidade alargada” kantiana e vê exemplificada em Jaspers. O fascínio pelo extermínio, então, pode ser lido como a expressão final de uma fuga da responsabilidade que o pensamento e o juízo exigem. O fascínio pelo mal é também uma forma de preguiça em desejar e fazer o bem, sobretudo o bem coletivo; é a indiferença ética que impede o espírito de se importar.

3. A psicanálise de Freud e a pulsão de morte

Se Arendt descreve o cenário político e existencial onde o mal banal prospera, a psicanálise de Sigmund Freud oferece uma etiologia da destrutividade que mergulha nas profundezas da vida psíquica. A concepção freudiana clássica do conflito entre Eros (pulsões de vida) e Thanatos (pulsão de morte) fornece uma ferramenta crucial para entender o fascínio pela violência.

Freud postulou que além das pulsões libidinais, existe uma pulsão de morte, uma tendência inerente ao organismo para retornar a um estado inorgânico, de tensão zero. Essa pulsão pode ser dirigida para dentro, manifestando-se como masoquismo ou autodestruição (conforme discutido em contextos de suicídio), ou pode ser voltada para o exterior, transformando-se em agressão, crueldade e desejo de destruição do outro. A violência, nessa perspectiva, não é um mero produto da frustração social ou da falta de educação, mas uma força estruturante da psique, sempre presente e demandando elaboração por parte do indivíduo, que se vê identificado com uma forma violenta de ser, ao ponto de justificá-la ideologicamente.

O fascínio por guerras e extermínios pode ser interpretado como uma catarse coletiva da pulsão de morte. Em situações sociais que legitimam a violência, o indivíduo tem a oportunidade de descarregar, de forma socialmente sancionada e até heróica, impulsos destrutivos que, em condições normais, seriam reprimidos ou sublimados. A adesão a ideologias que desumanizam o outro que consideramos como inimigo, facilita esse processo, pois remove as barreiras morais e a empatia que freariam a agressão.

Freud, em “O Mal-Estar na Civilização”, já alertava que o controle social da destrutividade humana é sempre precário. A violência reativa muitas vezes repete um gesto originário de destruição, dissolvendo os laços sociais e criando “escombros” psíquicos e históricos difíceis de integrar. O homo violens é, portanto, uma potencialidade constante do homo sapiens. A banalidade arendtiana encontra, na teoria freudiana, seu substrato psicológico: a pessoa comum, desprovida de um pensamento crítico robusto (o superego internalizado pode ser frágil ou substituído pela autoridade externa, devido a uma moral fragilizada no indivíduo), torna-se um canal fácil para a expressão coletiva da pulsão de morte.

4. A sombra coletiva: a psicologia analítica de Carl Gustav Jung

Carl Gustav Jung amplia consideravelmente o escopo da investigação ao introduzir a noção de inconsciente coletivo, um estrato psíquico comum à humanidade, povoado por arquétipos (padrões universais de comportamento e imagens). Para compreender fenômenos de violência em massa como genocídios, o conceito junguiano da Sombra é particularmente relevante. A Sombra é o arquétipo que reúne tudo o que o indivíduo ou a coletividade renega, nega ou considera inaceitável em si mesmo: impulsos selvagens, raiva, cobiça, crueldade, egoísmo, orgulho, ressentimento, etc.

Quando não é conscientemente reconhecida e integrada, a Sombra é projetada no outro. Grupos étnicos, religiosos, políticos ou de gênero diferentes tornam-se receptáculos convenientes para todas as qualidades negativas que o próprio grupo não quer enxergar em si. Essa projeção massiva desumaniza o outro, transformando-o num inimigo absoluto que deve ser combatido e, se necessário, exterminado. O fascínio pela violência, aqui, está ligado a um falso sentimento de pureza e autodefesa: ao destruir o “portador” da sombra, acredita-se estar destruindo o próprio mal. É assim que vemos a estruturação atual de totalitarismos como o neonazismo, capaz de cooptar consciências desavisadas para implementar seus projetos violentos. 

A pesquisa de Bruno Correia da Mota (2019) sobre o trauma coletivo do racismo no Brasil oferece uma aplicação concreta dessa teoria através do conceito de complexo cultural. Complexos são constelações de ideias, imagens e emoções carregadas, que atuam de forma autônoma na psique humana. Um complexo cultural é um complexo compartilhado por um grupo, formado a partir de experiências históricas traumáticas. O racismo estrutural, a violência da escravidão e do genocídio contra populações negras geram um complexo cultural que atua no inconsciente da nação, perpetuando padrões de opressão e reação. A violência do feminicídio também pode ser analisada por essa lente, como a expressão de um complexo cultural patriarcal que projeta na mulher a sombra do desejo incontrolável, da “ameaça” à ordem familiar, da “ameaça” às normas de masculinidade ultrapassadas, legitimando sua destruição.

Para Jung, a psique individual e a coletiva estão em constante interação. O indivíduo desprovido de uma consciência reflexiva (o “Eichmann” arendtiano) é particularmente vulnerável a ser possuído por complexos culturais ativados. O fascínio por atos de extermínio pode ser, então, a expressão de uma possessão por um complexo coletivo da sombra, onde o indivíduo deixa de agir por sua consciência pessoal e moralizadora para tornar-se um agente de um script psíquico arcaico e destrutivo. A banalidade do mal se conecta aqui com a força arquetípica do mal que, quando não reconhecida, pode dominar uma cultura inteira.

5. Diálogo e síntese: pensamento, inconsciente e a responsabilidade

A confrontação entre Arendt, Freud e Jung revela um mapa multifacetado do fascínio pelo mal. A tabela abaixo sintetiza os principais aportes de cada perspectiva:

PerspectivaConceito CentralExplicação para o Fascínio pela ViolênciaNível de Análise
Hannah ArendtBanalidade do Mal, Não-PensamentoAceitação irrefletida de ideologias, obediência burocrática, perda do juízo e da pluralidade.Político, Ético, Fenomenológico.
Sigmund FreudPulsão de Morte (Thanatos)Descarga de uma força destrutiva inata, catarse socialmente permitida, desumanização do objeto.Intrapsíquico, Biológico-Psíquico.
Carl Gustav JungSombra e Complexos CulturaisProjeção coletiva de conteúdos psíquicos negados, possessão por padrões arquetípicos destrutivos, repetição de traumas históricos.Psíquico-Coletivo, Arquetípico, Histórico-Cultural.

Arendt nos alerta para os mecanismos políticos e sociais que tornam o mal possível: a burocracia, a linguagem clichê, a destruição do espaço público e o pensamento falho em identificar e combater as ameaças do mal. Sua análise é imprescindível para evitar a psicologização excessiva que poderia isentar os perpetradores de sua responsabilidade. O mal banal é, antes de tudo, uma falha ética e política.

Freud e Jung, por outro lado, explicam por que esses mecanismos encontram solo tão fértil na psique humana. A pulsão de morte freudiana sugere que a destrutividade é um componente ineliminável da condição humana, que a civilização tenta domar a um custo elevado. A teoria junguiana dos complexos e da sombra mostra como essa destrutividade pode se organizar em padrões coletivos transgeracionais, criando uma predisposição cultural para a violência, como evidenciado no trauma do racismo ou na retórica desumanizante de conflitos contemporâneos que envolvem guerras. No caso do feminicídio, ao desumanizar a mulher, o machismo estrutural abre campo para a manifestação dos seus complexos culturais na tentativa desesperada de manter um padrão arcaico “do que é ser homem”, e, ao encontrar resistência, reage com ressentimento e violência.

A síntese possível indica que o fascínio pelo extermínio do outro emerge na confluência trágica de três fatores: (1) uma estrutura política ou social que promove a irreflexão e a obediência (Arendt); (2) impulsos destrutivos intrapsíquicos que buscam expressão (Freud); e (3) narrativas e complexos culturais que fornecem um roteiro e um objeto legítimo para essa expressão (Jung). O indivíduo “banal” é aquele em quem a consciência pessoal (ego) se rende completamente a essas forças externas (pressão do grupo, ideologias, irracionalidade) e internas (pulsão de morte, complexos, egoísmo), abdicando daquilo que Arendt considera mais humano: a capacidade de pensar, julgar e agir com responsabilidade em um mundo comum compartilhado com outros diferentes de si.

6. Conclusão

O diálogo entre a filosofia de Hannah Arendt, a psicanálises de Freud e a psicologia de Jung, revela que o fascínio humano pela violência e pelo extermínio é um fenômeno de uma complexidade irredutível. Não pode ser explicado apenas pela monstruosidade individual, nem apenas pela patologia social, nem apenas por instintos primitivos. Ele reside na interseção perigosa onde a falta de pensamento crítico permite que forças destrutivas da psique individual e coletiva se manifestem de forma organizada e devastadora.

Arendt oferece o contorno político e moral do problema, insistindo na responsabilidade humana mesmo diante de forças avassaladoras. Freud fornece a base dinâmica e conflituosa da psique, lembrando-nos da presença constante da agressividade. Jung expande o horizonte para o campo transindividual e histórico, mostrando como os traumas e as sombras não elaboradas de uma cultura podem voltar para assombrá-la sob a forma de genocídios e violências sistemáticas que lutarão arduamente para se manterem no seio social.

Compreender esse fascínio é o primeiro passo para combatê-lo e construir uma educação que de fato impeça que Auschwitz se repita, como nos alertou Theodor Adorno. Implica cultivar o pensamento reflexivo e o juízo independente e crítico (contra a banalidade), criar canais sociais para a sublimação construtiva da agressão (contra a pulsão de morte desenfreada) e, finalmente, empreender um difícil trabalho cultural de reconhecimento e integração da própria sombra histórica (contra a projeção e a possessão por complexos destrutivos). Somente um esforço consciente nesses três fronts – ético-político, psíquico-individual e psíquico-coletivo – pode criar os antídotos necessários contra a banal e arrepiante atração pelo mal que tanto marca nossa história, permitindo finalmente melhores aspirações para os espíritos encarnados nos seus tempos históricos e sociais.

Referências

ARENDT, H. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

FARIAS, F. R. Rastros e escombros da violência: memórias do assassinato. Cadernos de Psicanálise (Rio de Janeiro), v. 34, n. 26, 2012. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-62952012000100008[citation:6

FREUD, S. Além do Princípio do Prazer (1920). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, S. O Mal-Estar na Civilização (1930). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.

INSTITUTO SEDES SAPIENTIAE. Carta Aberta de Psicanalistas contra o fascismo e o genocídio em Gaza. São Paulo, 2025. Disponível em: https://sedes.org.br/site/carta-aberta-de-psicanalistas-contra-o-fascismo-e-o-genocidio-em-gaza/[citation:3

JASPERS, K. Psychologie der Weltanschauungen (1919). Citado em: Dege, C. L. Karl JaspersAmor Mundi, Hannah Arendt Center, Bard College, 10 set. 2020. Disponível em: https://hac.bard.edu/amor-mundi/karl-jaspers-2020-09-10[citation:4

JUNG, C. G. Aion: Estudos sobre o Simbolismo do Si-mesmo. Petrópolis: Vozes.

MOTA, B. C. Na teia do racismo: trauma coletivo e complexo cultural… marcas do Brasil negro! 2019. 188 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Instituto de Educação, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, 2019. Disponível em: https://rima.ufrrj.br/jspui/handle/20.500.14407/14532?mode=full[citation:2

NUNES, I. V. B. “In-Between” – o mundo comum entre Hannah Arendt e Karl Jaspers: da existência política ao exemplo moral. 2018. Tese (Doutorado em Filosofia) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Campinas, 2018. Disponível em: https://repositorio.unicamp.br/acervo/detalhe/1079815[citation:

PSICANÁLISE (Substack). Suicídio em Freud e… além. Por Fabio Bertolozzi. Disponível em: https://psicanalise.substack.com/p/suicidio-em-freud-e-alem[citation:1

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Uma coletiva mediúnica no evento da ABPE

No dia 7 de setembro de 2025, no Encontro promovido pela ABPE e pela Universidade Livre Pampédia, com a presença de cerca de 100 pessoas, no Centro de Estudos Espíritas Nosso Lar, em Campinas, fizemos uma experiência mediúnica coletiva. Depois de uma mesa inter-religiosa com o Bispo Primaz da Igreja Anglicana do Brasil, Dom Orvandil Moreira Barbosa, o Pastor metodista Luiz Carlos Ramos, o Pai João Tokunbó e Dora Incontri e de exposições de Maurício Zanolini, Litza Amorim, Célia Arribas, Lindemberg Castro e Dora Incontri sobre mediunidade, fez-se um convite para todos os presentes se colocarem à disposição para alguma manifestação mediúnica de psicografia.

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Entre o abolicionismo penal e a prisão dos golpistas

Por Marcio Sales Saraiva

Celebrar a justiça é dever de quem defende a democracia, sobretudo em um país cuja história é marcada por golpes e impunidade. Desta vez, fez-se justiça sem qualquer tipo de anistia ou de pactuação oligárquica. Ainda assim, confesso minha simpatia pelo abolicionismo penal: não me dá prazer o encarceramento de ninguém. Na prática, a prisão massiva no Brasil revela-se ineficaz: nossas cadeias estão superlotadas (ocupação oficial acima de 130% em dezembro de 2024) e o sistema não cumpre funções educativas, ressocializadoras ou restaurativas satisfatórias, ou seja, ele não faz justiça.

E sejamos realistas: muitos desses líderes neofascistas nem sequer pisarão nos cárceres. É mais provável que cumpram prisão domiciliar ou sejam mantidos em repartições mais confortáveis, como a sede da Polícia Federal, em condições bem distintas daquelas reservadas ao povo pobre e negro que compõe a maioria da população carcerária. Justamente por isso, penso que poderíamos levantar este debate olhando para o futuro, pois não basta apenas assistir à impunidade seletiva das “prisões de ricos” e “prisões do povo”, tampouco se pode aceitar que o encarceramento seja a única resposta para todos os crimes. É preciso pensar em medidas alternativas que sejam reparadoras, educativas e verdadeiramente democráticas.

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Entre o Espírito e a Razão: fenômenos medianímicos e a fidelidade a Kardec

(Para Dora)

Kardec já advertia: “Não podemos nos esquecer de que estamos nos primórdios da ciência e que ela está longe de haver dito sua última palavra sobre esse ponto, como sobre muitos outros” (KARDEC, 2004). Essa citação, extraída de “O livro dos médiuns”, evidencia a humildade epistêmica do fundador do espiritismo, que reconhecia as limitações e a transitoriedade do conhecimento científico em sua época. No entanto, setores mais ortodoxos do movimento espírita, especialmente no Brasil, tendem a cristalizar os escritos kardequianos como se fossem escrituras sagradas e infalíveis, ignorando o avanço técnico-científico dos séculos XX e XXI.

A mediunidade, conforme apresentada por Kardec, é um fenômeno psíquico — ainda que ele especulasse sobre bases orgânicas — em que as fronteiras entre o mundo interno do médium e o campo extrafísico (ou espiritual) se tornam difusas. Nesse sentido, é mais adequado utilizar a expressão “fenômenos medianímicos”, como o próprio Kardec adota em diversos momentos, para abranger a complexidade do processo comunicativo entre as dimensões espiritual e material (KARDEC, 2004).

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Nota pública da ABPE – sobre a criminalização do aborto legal

Nota pública da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita (ABPE)

Em pleno século XXI, com os avanços da ciência, dos direitos humanos e de uma ética centrada no cuidado, causa preocupação observar que setores do movimento espírita brasileiro têm se posicionado de forma a contrariar os fundamentos progressistas do pensamento de Allan Kardec.

A recente aproximação entre a Federação Espírita Brasileira (FEB) e a Associação Brasileira de Magistrados Espíritas (Abrame), em torno de temas como a criminalização do aborto legal, revela uma visão de mundo alinhada a perspectivas religiosas reacionárias e moralistas, distantes da proposta kardequiana de respeito ao livre-arbítrio, à razão e à justiça como expressões da caridade.

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Brevíssimas reflexões sobre o desempenho do Espiritismo no Censo 2022

A redução no percentual dos autodeclarados espíritas no Brasil foi vertiginosa, segundo dados do Censo 2022. Malgrado a queda represente, em números absolutos, apenas 0,4%, em termos relativos, a diminuição é de quase 20%. Esse resultado retrata a posição ultraminoritária do Espiritismo no Brasil – e no mundo.

Diante disso, propomos brevíssimas reflexões sobre as causas que nos trouxeram até aqui e algumas ideias dos futuros possíveis – sem, obviamente, ter a pretensão de esgotar tema tão profundo:

            I – Muito se falou que a queda foi apenas aparente. Nessa seara, é sabido que muitos seguidores da Umbanda e do Candomblé, por motivos diversos que não cabem nesse texto, se autodeclaravam como “espíritas”. O Censo 2022 apenas indicaria uma reversão dessa prática, revelando o real quantitativo de cada matriz religiosa. É uma possibilidade coerente, cujo impacto não pode ser descartado. E que bom que cada um possa ser livre para manifestar suas preferências.

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Humor e falta de amor – o caso Léo Lins

Gosto de comentar acontecimentos políticos e sociais à luz dos pressupostos espíritas. Para mim, a doutrina espírita é um organismo vivo e dinâmico que vive em constante atualização. Por isso, requer de nós constante sintonia com o que vai pelo Brasil e o mundo. Assim, podemos contribuir, mesmo que timidamente, para que os leitores – sejam ou não espíritas – percebam que o espiritismo kardecista pode oferecer bem mais do que se supõe.

Foi com este pensamento que mergulhei no caso do humorista brasileiro Léo Lins. Em junho de 2025, ele foi condenado pela justiça a uma pena de pouco mais de oito anos de prisão e pagamento de vultosa multa por proferir piadas ofensivas a vários grupos sociais num show realizado em 2022 que foi filmado e acabou viralizando na internet. A sentença se deu com base nos crimes de racismo e discriminação generalizada, já que, como bem observou o jornalista Ricardo Mello nas redes sociais, Léo Lins praticamente gabaritou o Código Penal. Ofendeu negros, pessoas com deficiência variadas (nanismo, surdez etc.), soropositivos, mulheres, vítimas de pedofilia, imigrantes, crianças, pobres, idosos, indígenas, gente que desencarnou em tragédias… Foi um show de horrores, não um espetáculo de humor. O caso, contudo, ainda não está encerrado. Cabe recurso.

Como o suposto humorista roteirizou p próprio desempenho e não é nenhum inocente em matéria de direitos e deveres, sabia muito bem o que estava fazendo e correu o risco deliberado de disparar sua metralhadora depreciativa. Foi xenófobo, capacitista, homofóbico, racista, etarista, aporofóbico, misógino… Tudo isso de uma vez só.

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Kardec e o batom na estátua

Estava no auge, em todos os veículos de comunicação, o caso da cabeleireira paulista Débora Rodrigues dos Santos, condenada pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) a 14 anos de prisão. Motivo: nos atos terroristas de 8 de janeiro de 2023 ocorridos na Praça dos Três Poderes, em Brasília (DF), ela escreveu com batom a frase “Perdeu, mané” na estátua “A Justiça”, que fica em frente à sede do STF.

Débora, antes da sentença definitiva, proferida em maio de 2025, estava em prisão domiciliar. Antes, havia ficado dois anos numa penitenciária. O caso ganhou repercussão porque tentaram transformá-la numa espécie de musa (ou mártir) da extrema direita. Seus pares alegavam que ela nada depredou ou destruiu, tampouco invadiu prédios. Para eles, a condenação seria desproporcional.

À mesma época, num conhecido ponto de Petrópolis (RJ), onde moro, encontrei um deputado federal e um deputado estadual de um partido de esquerda. Como os conheço de eventos anteriores – dos quais participei representando o espiritismo progressista –, fui cumprimentá-los e também ao pessoal da comitiva. Ambos estavam na cidade justamente para um evento contra o projeto de lei de anistia para os presos do 8 de janeiro.

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Então, é Natal…

Spiritual young man praying to God having FAITH and HOPE

Sempre gostei do Natal e nunca deixo de escrever um poema ou um texto para celebrar a data. Não que me aprazam o comércio, Papai Noel e saber que muitos não terão qualquer presente ou mesmo o que comer. Gosto pela tentativa – muitas vezes frustrada – de união de família, de aconchego dos afetos; gosto do impulso solidário e caritativo que as pessoas tendem a demonstrar nesta data e que bem poderia se estender pelo ano todo e, sobretudo, me conforta a busca minha e de alguns de maior conexão com Jesus.

Não que acredite na historinha da manjedoura, dos reis magos, da estrela de Belém, dos pastores… é um símbolo lindo, cheio de significados, reinventado por Francisquinho de Assis no presépio que montamos por aí. Jesus nasceu em Nazaré, filho carnal de Maria e José, no meio de muitos irmãos, numa família pobre, operária, num lugar pequeno e inexpressivo, mas que ficou marcado na história pela irradiação de sua luz.

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Em defesa do ziriguidum

Recebi de um amigo espírita progressista, por uma rede social, um link de acesso a um vídeo de uma instituição espírita. Nessa postagem, um menino de aproximadamente 10 anos recitava não um poema, mas um texto (talvez decorado) com as costumeiras críticas que os espíritas fazem ao carnaval. Tratava-se de uma narrativa dentro dos padrões conservadores, que atribuem ao carnaval toda sorte de desequilíbrios espirituais. Detalhe: o menino era negro.

Incomodado com o que acabara de assistir, compartilhei o vídeo com diversos amigos espíritas igualmente progressistas e constatei que não fui o único a não gostar da publicação. Voltei, então, ao perfil da instituição e postei, nos comentários, uma crítica construtiva. Disse que deveríamos ter cuidado com os argumentos então apresentados porque, hoje em dia, devido ao progresso que temos vivido no tocante às questões raciais, as reprovações apresentadas tinham nome: racismo religioso. Acrescentei que a questão se tornava mais grave pelo fato de o texto estar sendo dito por um garotinho negro, ou seja, alguém que desconhece a história da África, bem como a própria ancestralidade. Afinal, o carnaval, principalmente no tocante aos desfiles das escolas de samba, é uma forte manifestação da cultura africana e sua resistência ante os vários embates que travou (e ainda trava) para vencer preconceitos. Foi um comentário fora da curva, já que a maioria deles dizia que o menino era uma gracinha, que demonstrava maturidade apesar da pouca idade, que era lindo ver uma criança dizendo um texto tão complexo etc.

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