Walter Pérez Vila (no centro da foto, de camisa branca), liderança espírita em Cuba, realizou um feito importante para a história do espiritismo naquele país. Mesmo em meio às dificuldades imensas que o povo cubano enfrenta no momento, de sobrevivência e crise energética, Walter conseguiu sobrepor-se a tudo isso e fazer um trabalho acadêmico importante. Abaixo, transcrevemos a notícia que recebemos:
Neste dia, 3 de junho, fomos espectadores de um evento histórico para aqueles que estudam e trabalham pela Filosofia Espírita sistematizada por Allan Kardec.
Em um dos terrenos do Museu do Berço de Calixto García, herói da independência; Walter Pérez Vila, presidente da Sociedade Espírita Faro de Luz em Holguín, Cuba, celebrou a defesa do título de Bacharel em História Pura com o tema Filosofia Espírita em Cuba. Sua chegada e desenvolvimento de 1860 a 1920.
Quando resolvi que iria escrever sobre a tão incensada reforma íntima, um dos assuntos que figuram nos “trend topics” do movimento espírita conservador (só deve perder para o bônus-hora), fiquei pensando por qual caminho iria. Afinal, tudo que se fala acerca do assunto está nos moldes convencionais. Com o passar dos dias, no entanto, percebi que seria viável começar justamente pelo que dizem os autores e palestrantes tradicionais. Encontrei, então, num artigo publicado no site “Amigo espírita” e assinado por “o redator espírita”, os subsídios que procurava para o pontapé inicial.
O artigo se chama “Autoconhecimento e reforma íntima no contexto espírita: um caminho de transformação espiritual”. Ele argumenta que a dita reforma passa antes pelo autoconhecimento, ou seja, precisamos conhecer nossas fraquezas, virtudes, tendências e desejos e, gradualmente, substituindo vícios por virtudes. Nas palavras do autor, “um processo contínuo e dinâmico, que exige esforço, perseverança e, sobretudo, humildade para reconhecer nossas falhas”. Em seguida, o incógnito articulista relaciona as práticas capazes de auxiliar o homem a se conhecer melhor e mudar a si próprio, a saber: a prece e a meditação, o estudo do Evangelho, a prática da caridade e a vigilância dos próprios pensamentos e atitudes.
Uma das partes mais interessantes da língua portuguesa é aquela destinada às figuras de linguagem. Entre elas, a metáfora, que consiste numa comparação implícita, muitas vezes apelando ao sentido figurado. Como exemplo, cito a expressão ‘coração de pedra’. Quando digo que alguém tem essa característica, refiro-me ao fato de a falta de compaixão ser tão forte a ponto de parecer que essa pessoa tem uma pedra no lugar do coração. A metáfora pode ser também utilizada em poesia, música ou literatura para tornar o texto mais elegante ou expressivo. É o caso do livro “Iracema”, em que o autor, José de Alencar, se refere à personagem-título como “a virgem dos lábios de mel”.
Fiz essa introdução para comentar um fato polêmico, bem-humorado e revelador que tomou conta das redes sociais no carnaval de 2026. Refiro-me ao desfile da escola de samba fluminense Acadêmicos de Niterói, que levou para a Av. Marquês de Sapucaí a vida do presidente da República Luís Inácio Lula da Silva. Uma ala em particular chamou atenção e causou celeuma: pessoas fantasiadas de latas de ervilha. No rótulo, uma família branca, heteronormativa e acompanhada da frase ‘família em conserva’.
Meu amigo Allan Filho, palestrante, cantor e compositor de mão cheia, é autor de várias – e profundas – canções espíritas. Entre elas, “Mar da vida”, cuja letra transcrevo a seguir.
Ondas da vida carregam o barco, atracado no tempo, não quer navegar
Naufraga em si mesmo temendo os monstros que existem no mar
O monstro da morte consegue sozinho fazer com que barcos prefiram parar
Mas monstros não existem sequer nas mentiras contadas no mar.
Vai… Enfrenta as tormentas do além-mar
Iça as velas da coragem pra lutar e ir além, estrelas do bem vão te guiar.
Vai… Que o Cristo seja a luz em teu vogar
Que o risco não te impeça de tentar ganhar o mar
Com o instrumento que se chama amor.
Lembrei-me de “Mar da vida” quando ouvi de uma conhecida um comentário sobre pessoas que se recusam a mudar. Disse ela: “Tem gente que jogou a âncora da própria vida em alguma década do século passado e lá ficou, encalhada”. São os barcos atracados no tempo e que se recusam a navegar, conforme Allan muito bem ressalta.
Um dos livros espíritas de que mais gosto se chama “Memórias do Padre Germano”. Nele, a médium Amália Domingo Soler conta as peripécias de um padre progressista na Espanha da Idade Média. Germano incomodava tanto os maiorais da Igreja Católica que acharam por bem enviá-lo para um vilarejo num fim de mundo qualquer daquele país. Mesmo assim, ele não se abatia. Peitava os poderosos, ludibriava clérigos e madres superioras extremamente conservadores etc. E como cada capítulo conta uma estória diferente, o leitor nunca sabe o que espera pelo simpático e aguerrido pároco e seu fiel companheiro, o cachorro Sultão.
O episódio da vida de Padre Germano que mais mexe comigo é o de Clotilde, jovem de alma nobre que, infelizmente, não foi bem-sucedida em matéria de laços familiares. O pai, Duque de São Lázaro, a mãe e o irmão não valiam muita coisa. Tanto era assim que os três haviam tramado o assassinato do rei de Espanha. Mas eles não estavam sozinhos na ardilosa empreitada. Os Penitentes Negros faziam parte da tramoia. E quem eram eles? Aparentemente, um grupo de religiosos que gostavam de ajudar os mais necessitados em várias frentes de trabalho. Só que, nos bastidores, maquinavam golpes de estado, assassinatos de reis e rainhas, entre outras barbaridades. Poder, dinheiro e influência, eles tinham de sobra para tanto.
Resposta ao artigo “Quando a revolução ignora o Espírito, a liberdade é sepultada”, de Jorge Hessen.
Por Lindemberg Macena*
Ao ler o artigo do Jorge Hessen, reconheço sua preocupação legítima em preservar os princípios fundamentais da Filosofia Espírita, embora com uma tentativa de fazê-lo de forma moralista e sem o devido arcabouço da pesquisa nas ciências humanas e sociais. A sua abordagem cria uma falsa dicotomia entre transformação espiritual e engajamento social que merece ser reexaminada à luz de uma compreensão mais ampla do Espiritismo, incorporando perspectivas decoloniais e progressistas que enriquecem, e não empobrecem, a nossa compreensão das pesquisas de Kardec.
O autor demonstra franco desconhecimento das pesquisas mais atuais acerca da imperiosa necessidade de transformação social, e tal qual se fazia desde o início do século XX, elenca uma suposta ameaça de revolução marxista violenta daqueles que buscam por justiça social, encarcerando o debate em moralismo piegas, não levando em consideração as próprias dinâmicas sociais e históricas. Sempre que o conservadorismo religioso se vê ameaçado e sabe que perde espaço diante do pensamento livre e autônomo, evoca os riscos do marxismo e seu terrível materialismo como ameaças à civilização, é assim desde o século XIX.
A história humana é marcada, de forma recorrente e traumática, por explosões de violência sistemática e de extermínio em massa. Guerras, genocídios, massacres e formas persistentes de violência, como o feminicídio, impõem uma questão filosófica e psicológica incômoda: por que a destruição do outro exerce um fascínio tão poderoso sobre indivíduos e coletividades? Essa atração pelo mal, longe de ser um atributo exclusivo de monstros ou psicopatas, muitas vezes emerge em contextos de normalidade aparente, envolvendo pessoas comuns em maquinários de horror. É neste terreno paradoxal que o conceito seminal de Hannah Arendt, a “banalidade do mal”, se torna fundamental. Desenvolvido a partir de sua cobertura do julgamento de Adolf Eichmann, o burocrata nazista, o termo propõe uma reviravolta na compreensão da maldade: seu perigo maior não estaria na radicalidade satânica, mas na trivialidade, na irreflexão e na incapacidade de pensar a partir da perspectiva do outro.
Este breve artigo propõe um diálogo interdisciplinar entre a filosofia política arendtiana e as lentes interpretativas da psicanálise, sem a pretensão de apresentar uma verdade absoluta. Partindo da análise arendtiana, que enfatiza a dimensão política, ética e fenomenológica do mal, conectamos suas reflexões com os insights sobre a destrutividade oriundos da obra de Sigmund Freud, particularmente sua teoria das pulsões, e de Carl Gustav Jung, com seus conceitos de sombra, inconsciente coletivo e complexos culturais. A hipótese central é que o fascínio pelo mal pode ser compreendido de maneira mais plena na intersecção entre a falta de pensamento e de reflexão (Arendt), a força da pulsão de morte (Freud) e a atuação de complexos culturais traumáticos (Jung). Enquanto Arendt descreve o “como” do mal burocrático e irrefletido, a psicanálise investiga os “porquês” profundos, as motivações inconscientes que alimentam a violência individual e coletiva.
No dia 7 de setembro de 2025, no Encontro promovido pela ABPE e pela Universidade Livre Pampédia, com a presença de cerca de 100 pessoas, no Centro de Estudos Espíritas Nosso Lar, em Campinas, fizemos uma experiência mediúnica coletiva. Depois de uma mesa inter-religiosa com o Bispo Primaz da Igreja Anglicana do Brasil, Dom Orvandil Moreira Barbosa, o Pastor metodista Luiz Carlos Ramos, o Pai João Tokunbó e Dora Incontri e de exposições de Maurício Zanolini, Litza Amorim, Célia Arribas, Lindemberg Castro e Dora Incontri sobre mediunidade, fez-se um convite para todos os presentes se colocarem à disposição para alguma manifestação mediúnica de psicografia.
Celebrar a justiça é dever de quem defende a democracia, sobretudo em um país cuja história é marcada por golpes e impunidade. Desta vez, fez-se justiça sem qualquer tipo de anistia ou de pactuação oligárquica. Ainda assim, confesso minha simpatia pelo abolicionismo penal: não me dá prazer o encarceramento de ninguém. Na prática, a prisão massiva no Brasil revela-se ineficaz: nossas cadeias estão superlotadas (ocupação oficial acima de 130% em dezembro de 2024) e o sistema não cumpre funções educativas, ressocializadoras ou restaurativas satisfatórias, ou seja, ele não faz justiça.
E sejamos realistas: muitos desses líderes neofascistas nem sequer pisarão nos cárceres. É mais provável que cumpram prisão domiciliar ou sejam mantidos em repartições mais confortáveis, como a sede da Polícia Federal, em condições bem distintas daquelas reservadas ao povo pobre e negro que compõe a maioria da população carcerária. Justamente por isso, penso que poderíamos levantar este debate olhando para o futuro, pois não basta apenas assistir à impunidade seletiva das “prisões de ricos” e “prisões do povo”, tampouco se pode aceitar que o encarceramento seja a única resposta para todos os crimes. É preciso pensar em medidas alternativas que sejam reparadoras, educativas e verdadeiramente democráticas.
Kardec já advertia: “Não podemos nos esquecer de que estamos nos primórdios da ciência e que ela está longe de haver dito sua última palavra sobre esse ponto, como sobre muitos outros” (KARDEC, 2004). Essa citação, extraída de “O livro dos médiuns”, evidencia a humildade epistêmica do fundador do espiritismo, que reconhecia as limitações e a transitoriedade do conhecimento científico em sua época. No entanto, setores mais ortodoxos do movimento espírita, especialmente no Brasil, tendem a cristalizar os escritos kardequianos como se fossem escrituras sagradas e infalíveis, ignorando o avanço técnico-científico dos séculos XX e XXI.
A mediunidade, conforme apresentada por Kardec, é um fenômeno psíquico — ainda que ele especulasse sobre bases orgânicas — em que as fronteiras entre o mundo interno do médium e o campo extrafísico (ou espiritual) se tornam difusas. Nesse sentido, é mais adequado utilizar a expressão “fenômenos medianímicos”, como o próprio Kardec adota em diversos momentos, para abranger a complexidade do processo comunicativo entre as dimensões espiritual e material (KARDEC, 2004).
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