
Ouvi de um motoboy, a quem chamarei de Dario, um depoimento que me sensibilizou. Disse ele, entre triste e revoltado, que não vislumbrava perspectivas de uma vida melhor para ele e família, apesar de trabalhar de sol a sol. A rotina massacrante e cansativa o fazia sair de casa todas as manhãs na esperança de tempos ditosos; no entanto, acabava sempre fazendo o mesmo trabalho para pagar as mesmas contas e seguir sempre no mesmo ritmo, sem expectativa de algo diferente que lhe permitisse voltar a estudar, adquirir a casa própria ou realizar outro sonho que dependesse de juntar algum dinheiro. Uma vida que se limita a cruzar a cidade de motocicleta, fazendo entregas, num périplo que dura aproximadamente 12 horas por dia.
Tal depoimento me instigou a pensar de forma mais acurada na questão do livre-arbítrio, tema sobre o qual já vinha querendo escrever há um tempo. Será que o livre-arbítrio desse entregador de comida por aplicativo é tão amplo quanto o de outro homem da mesma faixa etária, porém mais abonado? Dario não teve muitas chances na vida (dinheiro, estudo etc.), caiu na falácia do “ser patrão de si mesmo” e trabalha de domingo a domingo sem qualquer garantia ou amparo social. O aquinhoado, por sua vez, estudou em bons colégios, mora bem, come bem, tem um bom emprego, leva a vida de forma bem mais despreocupada e tem mais autonomia para deliberar sobre a própria vida.
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