Comida e egoísmo

Em um artigo escrito anteriormente (“Nem pera, nem uva, nem maçã”), prometi que voltaria a tratar do assunto comida/fome. Eis-me aqui novamente.

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Nem pera, nem uva, nem maçã

Salviano, amigo de uma tia minha, é motorista de ônibus aposentado. Mesmo assim, ainda trabalha. Adélia, esposa dele, é cozinheira de mão cheia. Para reforçar o orçamento doméstico e ajudar a pagar a faculdade do filho caçula, ela já fez sorvete, empadão e afins. Atualmente, cozinha e entrega refeições prontas. Todos os dias, quatro opções de pratos, além de guarnições e bebidas.

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Escravagismo visceral

A 21ª edição do programa “Big Brother Brasil” (BBB – TV Globo, 2021) levou ao ar, em uma das competições, uma cena que bem evidencia o título deste artigo. Os participantes selecionados para uma das diversas provas tinham de abrir portas de armários de cozinha. Quem abrisse a porta correta, ganhava um prêmio e escapava do temido paredão. Por mais de uma vez, o apresentador do programa teve de chamar a atenção de um dos competidores. Motivo: ele não fechava as portas que escolhera abrir. Ao ser advertido pela terceira vez, o rapaz – um galalau de corpo sarado, 26 anos –, disse, de forma sorridente e despretensiosa, que tinha esse hábito em casa. Trocando em miúdos: no dia a dia, ele abre o armário para pegar, por exemplo, uma lata de leite em pó e não o fecha. Isso quer dizer que o armário fica com uma porta aberta e quem quiser que a feche. Em geral, a empregada ou, na ausência dela, aquela serviçal popularmente conhecida como mãe. Ele é o barão; a genitora, avó ou similar é a escrava, que sai arrumando a desordem por ele deixada.

Já falei sobre a escravidão arraigada na alma do brasileiro em outros artigos. Mas sempre me vejo no dever de voltar ao assunto, pois, em minha modesta opinião, ele é algo que nos infelicita como nação e impede saltos qualitativos em áreas como educação, mercado de trabalho, direitos sociais, vivência cotidiana etc.

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Convocação aos espíritas pelo diálogo!

Mãos unidas

Um dos propósitos que norteiam a Associação Brasileira de Pedagogia Espírita é o diálogo inter-religioso, o diálogo com outras filosofias, sejam espiritualistas ou materialistas, sem perda da identidade de um espiritismo kardecista livre – conforme já expusemos num manifesto publicado aqui em fevereiro de 2019.

Esse diálogo requer uma arte de empatia, respeito e reconhecimento de valor no outro e ao mesmo tempo, a preservação de um espírito crítico (não demolidor) em relação a qualquer corrente de pensamento, incluindo a nossa. Perder a mão nesse caminho é algo muito fácil, quando nos afastamos da fraternidade e nos deixamos incendiar por paixões avassaladoras.

Mas tenho observado que o mais difícil é manter o diálogo entre nós mesmos – entre aqueles mesmos que se dizem espíritas kardecistas. E quero tecer algumas reflexões em torno desse delicado tema.

Desde o manifesto de 2019, entre os próprios que assinaram aquele manifesto, já houve brigas, cancelamentos, mágoas, raivas e toda espécie de negação de diálogo construtivo. Um dia desses, entrevistando o querido frade franciscano Volney Berkenbrock, em nosso programa Semeando Espiritualidades: Diálogo e Crítica, ele nos apresentava uma ideia interessante: é mais fácil dialogar com o outro mais distante, mais diferente de nós, do que com o que é nosso, está próximo, faz adesão à mesma corrente e pensa diferente. Dizia ele isso para explicar por que católicos progressistas, por exemplo, dialogam com tanta empatia com adeptos das religiões afro-brasileiras ou com budistas e taoístas, mas se esquivam de um encontro com espíritas kardecistas. Para o Frei, e concordei com ele, sendo o espiritismo uma releitura do cristianismo, ele é visto muito mais como uma heresia, do que como outra tradição, que deve ser respeitada.

Para mim, há outros fatores também, que não cabem aqui. Mas sim, na medida em que Kardec destrona Lúcifer, torna os diabos simples seres humanos desencarnados e em estado de sofrimento e endurecimento, considera Jesus não o próprio Deus encarnado, mas um Espírito que nos serve de modelo e guia, que confronta a eternidade das penas e propõe a reencarnação, ele está re-explicando o cristianismo, confrontando dogmas fundamentais, dentro da própria tradição greco-judaico-cristã – porque o espiritismo, sim, está dentro dessa tradição histórica. Compreende-se então o que falou o frei.

Em nosso caso, dos espíritas kardecistas, teríamos que rever posições intolerantes e extremadas, para mantermos um mínimo de fraternidade, colaboração e respeito à diversidade. Senão, tanto criticamos o movimento espírita institucional hegemônico, leia-se FEB e afins – com quem também, na medida do possível, devemos tentar um diálogo (não submisso e acrítico, mas humanamente amistoso), e acabamos por agir como os mais autoritários, impedindo a livre manifestação do pensamento de cada um.

Entendamos que sempre haverá diferenças entre os que mais pensam igual – e ótimo que assim seja, isso é enriquecedor e fecundo e jamais poderemos fugir de nossa subjetividade.

Quero citar aqui algumas diferenças aceitáveis e o que realmente não podemos aceitar como espíritas – seja de que tendência que nos consideremos.

  • Se há espíritas roustainguistas e kardecistas, podemos discutir à vontade as teses de Roustaing e criticá-las (se assim quisermos e acharmos importante, eu particularmente acho relevante, porque o roustainguismo teve um papel histórico importante no sincretismo do espiritismo com o catolicismo no Brasil). Mas nem por isso, não há coisas fundamentais que nos unam, como a reencarnação, a mediunidade e, sobretudo a Ética da fraternidade universal. Por isso, posso discutir até a morte o roustainguismo, mas quem aceita Roustaing não é meu adversário…
  • Há quem aceite que o espiritismo seja uma revisão, uma releitura, uma reafirmação do cristianismo e outros que falam de um espiritismo laico. Estou entre aqueles que afirmam o espiritismo como um resgate de um cristianismo que foi reprimido historicamente. Kardec bateu insistentemente na tecla de que o espiritismo não é religião, mas escreveu O Evangelho segundo o Espiritismo e usa o termo espírita-cristão. Ao mesmo tempo, no próprio Evangelho, anuncia que o espírita poderia pertencer a qualquer culto que quisesse. Então, há espaço para diferentes interpretações do próprio Kardec. Por que nos combatermos mutuamente, ao invés de debatermos civilizadamente? Recentemente, numa live com Jon Aizpurua, um queridíssimo amigo e liderança internacional do espiritismo laico (termo que nunca me convenceu), chegamos a um conceito que nos agradou mutuamente: de que o espiritismo é uma forma de espiritualidade livre. Como se vê, o diálogo encontra pontes. Dentro desse âmbito, quem quiser comemorar Natal e Páscoa ressignificando-os espiritamente, que comemore, quem não quiser, não comemore. Quem quiser orar a Maria (como podemos orar a qualquer Espírito elevado) que ore, quem não quiser nem orar, não ore! E que ninguém se incomode com essas questões de foro íntimo de cada um.
  • Nesses últimos anos, a maior ruptura que tivemos no movimento espírita, como de resto em toda a sociedade brasileira, é em relação aos bolsonaristas espíritas. Veja-se que aí não é mais uma questão doutrinária, de detalhes, de briga por palavras ou conceitos. Mas o bolsonarismo fere os princípios éticos básicos do espiritismo. E não só do espiritismo, mas do cristianismo, do budismo, das religiões afro… de uma ética laica, da própria civilização. É simplesmente a barbárie! E estamos testemunhando aonde nos levou essa barbárie: mais de 300 mil mortos por Covid-19 no Brasil. Na medida em que seu líder defende tortura, morte, anulamento do adversário, misoginia, negacionismo científico, homofobia, racismo, armamento da população, ele está completamente fora da moralidade básica de qualquer pessoa racional, saudável psiquicamente, seja espírita ou não. Compreende-se assim que devamos repudiar, criticar, lamentar espíritas que se alinham ao bolsonarismo – e infelizmente foram muitos. Mas não odiá-los, porque não vamos nos igualar a eles em nenhum discurso de ódio.
  • Por conta justamente desse retrocesso experimentado no Brasil, desde o golpe de 2016, e a decepção de muitos espíritas com dirigentes e médiuns bolsonaristas, surgiram inúmeros coletivos, lideranças novas, grupos, que vieram fazer coro a uma visão que a ABPE já cultivava desde o seu início em 2004 – aliás, já antes com a Editora Comenius: uma visão progressista, social e à esquerda do espiritismo, como, pensamos, ele realmente é. Só para lembrar, o último Congresso Brasileiro de Pedagogia Espírita e Internacional de Educação e Espiritualidade, tivemos o tema: Educação, Espiritualidade e Transformação Social. Mas… assim como as esquerdas brigam, se fendem, se combatem, também essa atitude de intolerância e cancelamento já atingiu as fileiras dos espíritas progressistas. Muitos acham que para ser progressista e de esquerda, devemos seguir as cartilhas que cada grupo ou indivíduo seguem. Primeiramente, esses movimentos não poderiam nunca se partidarizar, porque quando discutimos política e sociedade no movimento espírita, devem ser debates teóricos, ações práticas de atuação social, mas jamais a propaganda de um partido ou de uma liderança, embora individualmente, cada qual tenha o direito de ter suas preferências. Dentro de um diálogo da esquerda espírita, cabem sociais-democratas, socialistas, marxistas, anarquistas, partidários da cultura da paz, partidários de pautas identitárias e aqueles que não consideram essas pautas prioritárias no momento… enfim, há espaço para todos, todas e todes (como querem alguns – para mim, me dói ferir a língua, embora é claro, repudio muito mais ferir os corpos). Tudo isso seria possível, se houvesse menos paixão, menos arrebatamento e menos desejo de sermos sempre os únicos donos da verdade.

O desafio, portanto – e isso se estenderia a vários outros temas, como Chico Xavier, Emmanuel, Pietro Ubaldi e ao próprio Kardec, nossa grande referência – é manter o espírito crítico, atualizado, mas equilibrado, preciso, sóbrio, sem arrebatamentos destruidores, sem cancelar quem pensa diferente e colhendo o que é bom no meio de equívocos. Assim agia Kardec, que nunca perdia a classe, tinha um fino espírito de ironia crítica, mas jamais usou as armas do ódio e da destruição do outro. Fraternidade, empatia, diálogo construtivo, argumentativo – essas devem ser as posturas de um espírita.

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Podemos desejar feliz Natal nesse 2020?

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Natal de 2020. Quisera ter braços e presença para abraçar todos os que amo, os amigos próximos e distantes e mesmo os supostos adversários. Pois somos todos humanos, frágeis, nesse barco terrestre, em meio a tempestades, nevoeiros e zonas de incerteza e obscuridade.

Quisera ter voz e escrita com o alcance da consolação e da esperança para todos os que estão adoecidos física ou psiquicamente com a pandemia, com o isolamento, com o empobrecimento, com a perplexidade que nos assola.

Quisera ter colo para oferecer a todas as crianças do mundo, as que estão trancafiadas em casa, as que estão refugiadas, as que estão em fome e necessidades tantas…

Quisera… quisera… poder anunciar aqui nesse texto notícias alvissareiras: o fim das violências contra qualquer ser humano, contra qualquer ser vivo, o cessar fogo contra a natureza que se arrebenta pela exploração, pelo desmatamento, pela terra arrasada.

Quisera poder falar da queda de todos os governos que aviltam o planeta, de todos os bancos que extorquem nossas vidas, de todos os privilégios de meia dúzia de bilionários do mundo e proclamar uma sociedade fraterna, justa, igualitária, universal… de mãos unidas entre todos os povos.

Quisera afinal poder desejar um feliz Natal… mas sabemos que não será feliz. Com tantas mortes, com tantos abusos, com tantas perversidades, com tantas más notícias… Será necessariamente um Natal enlutado. Mesmo assim, podemos transformá-lo numa experiência meditativa e espiritual, que nos reconforte.

Como? Em primeiro lugar, conectando nossos corações com o personagem central do Natal – aquele que a civilização dita cristã diz seguir, mas está longe de compreender e aplicar sua proposta ética. Uma ética de inclusão, de amor, de perdão, de solidariedade e paz.

Nessa ética, nessa mensagem, nesse exemplo está uma luz que nos mostra um caminho de solução para nossos impasses. Luz que muitos ainda consideram utópica. Tantos não conseguem nem se reconciliar com os que amam num espírito natalino, outros tantos não enxergam como possíveis caminhos para nosso planeta proposições que consideram piegas, como compaixão, fraternidade e acolhimento.

Mas, sim, é essa ética que propôs Jesus que pode nos salvar do caos, da barbárie, da injustiça. Jesus, um personagem histórico que não deve estar encarcerado aos dogmas e às interpretações sectárias das igrejas, mas pode ser entendido como um ser humano, cuja transcendência, renúncia, entrega e amor continuam sendo um alta inspiração para as almas que anseiam pelo Reino da bondade nesse mundo.

Desapego dos bens terrenos, reconciliação entre todos e todas, perdão irrestrito, compaixão para com os que estão em sofrimento, trabalho incessante de serviço ao próximo, mesmo com perda em interesses próprios e egoístas, lutas por causas humanitárias, ecológicas, para transformações estruturais da sociedade… eis a receita para superarmos o capitalismo, o patriarcado, a miséria e todas as mazelas do mundo.

A recente encíclica do Papa Francisco Fratelli Tutti (Todos irmãos) – finalmente um Papa que consegue falar com cristãos e não cristãos – faz um diagnóstico preciso e brilhante de todos os problemas que devastam a terra e a nossa humanidade. E apresenta justamente uma proposta de superação, com essa ética de Jesus, exemplificada por Francisco de Assis, grande inspirador das ideais de Francisco de Roma.

Que posso dizer então, nesse texto natalino? Ressaltar que em meio à avalanche de notícias pesadas que tivemos em 2020, foi publicada uma encíclica luminosa como essa, tivemos muitas lideranças no Brasil e no mundo na resistência contra o retrocesso da liberdade, da ciência, do amor ao próximo. Gente que sofreu, trabalhou, se entregou, fez a diferença. Cientistas, médicos e médicas, enfermeiros e enfermeiras e pessoas da saúde em geral, lutando de corpo e alma, para combater o Covid, para descobrir tratamentos, vacinas, ou mesmo para pegar nas mãos dos moribundos, afastados da família, para que sua morte não fosse totalmente solitária.

Artistas que se viraram do avesso para sobreviver à crise, iluminando lives de música, teatro, dança, poesia… e trazendo às nossas almas aquilo que realmente importa.

Professores que se esfolaram para aprender de última hora como mexer com o Zoom ou outras plataformas, outros tentando passar alguma coisa pelo mero Whatsapp, no caso das crianças que não têm acesso a computadores.

Jornalistas corajosos, que denunciaram, apontaram as calamidades, brigaram pela verdade, contra tantas Fake News que manipulam a população – mesmo enfrentando processos injustos e até ameaças de morte.

Pessoas de todas as profissões, exploradas por um capitalismo selvagem, como os entregadores de comida – só para citar um dos grupos em maior evidência no momento – que não só contribuíram para a manutenção do funcionamento social, mas começaram a se organizar politicamente e ganharam consciência de classe.

Negros de todas as partes do planeta, mas sobretudo dos EUA e do Brasil, que apesar das violências inomináveis sofridas, não descansaram um minuto na missão de denunciar, reivindicar, lutar… #vidasnegrasimportam, encerrando o ano aqui com o emocionante filme AmarElo, do Emicida, um verdadeiro libelo pela retificação histórica dessa vergonha nacional que foi a escravidão e continua sendo o racismo entre nós.

Psicólogos, terapeutas, psicanalistas – que trataram a preços módicos ou gratuitamente – as pessoas em depressão, em surto, em grandes urgências psíquicas, provocadas pela pandemia, pelos lutos complicados, pelas violências aumentadas.

Poderíamos estender indefinidamente as multidões de seres humanos do bem, que estão alinhados com a ética de Jesus.

Lamentamos por aqueles que não cumpriram seu dever humano, cívico, moral de cuidar, proteger, acudir, providenciar medidas que pudessem minimizar a desgraça da pandemia e ainda aprofundaram nossas dores com todo tipo de violência verbal e atos contrários à justiça e à dignidade humana.

Mas resistimos. Sobrevivemos. Para mim, que tenho convicção e fortes evidências de que a vida continua depois da morte, mesmo aqueles que se foram em meio a esse caos da pandemia, seguirão conosco, trabalhando em outro plano para mudarmos esse cenário terreno.

Por isso tudo, e apesar de tudo, desejo que nesse Natal, possamos ter pelo menos um pensamento de paz, uma oração sincera (para aqueles que creem) e uma vibração de amor por toda a humanidade!

Texto originalmente publicado no Jornal GGN, na Coluna Espiritismo progressista.

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O bom espírita e o espiritão

O item 2 do capítulo 20 de “O Evangelho segundo o espiritismo”, de Allan Kardec, tem uma frase na qual passei a prestar a atenção e da qual passei a gostar muito quando li o livro “Celebrando o Evangelho segundo o espiritismo”, da historiadora e escritora fluminense Sônia Campos. Essa frase abre o último parágrafo do referido item, é da autoria do espírito Constantino e diz o seguinte: “Bons espíritas, meus bem-amados, sois todos trabalhadores da última hora”. Continuar lendo

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Sobre abortos e abortos

planolyJúlia foi minha colega de trabalho. Quando ela ingressou na empresa, estava vindo de uma fase de desemprego. Meses depois, ela engravidou do quarto filho, que nasceu em novembro, lembro até hoje. Após a licença-maternidade, voltou com mil histórias para contar sobre a menina que tinha nascido para dar mais cor à vida dela, do marido e dos três filhos mais velhos – duas meninas e um menino. Continuar lendo

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50 documentos inéditos de Kardec – primeiras impressões

Finalmente foram publicados 50 manuscritos inéditos de Kardec, transcritos e traduzidos, no  Portal Projeto Kardec, recém-criado numa parceria entre a Universidade de Juiz de Fora e a FEAL (Fundação Espírita André Luiz). Continuar lendo

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A delicada e feminina questão do aborto

15977128225f3b29b6e668e_1597712822_3x2_xlDado o caso que o nascimento da criança pusesse em perigo a vida da mãe, haverá crime em sacrificar-se a primeira para salvar a segunda?

Resposta: Preferível é se sacrifique o ser que ainda não existe a sacrificar-se o que já existe.

“O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, questão 359. Continuar lendo

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O aborto no caso da menina estuprada – o fanatismo desumaniza!

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Uma coisa fica clara nesse episódio da menina de 10 anos, estuprada pelo tio, que tem o direito ao aborto – por lei (e ainda pelos dois motivos permitidos por lei ao aborto no Brasil, por estupro e por risco de vida): o fanatismo desumaniza, enceguece, embrutece as pessoas.

Quando elejo qualquer dogma ou princípio (supostamente moral), acima do ser humano, quando é mais importante nos agarrarmos a uma ideia do que a uma vida, ao sofrimento de alguém… então demonstramos que perdemos a capacidade de sentir empatia e compaixão, por causa de uma abstração qualquer, da rigidez de um pensamento que não vê mais a realidade.

Por que essas pessoas fanáticas, que gritavam palavras de ordem contra o aborto a se realizar nessa criança estuprada, ferida, abusada e contra os médicos que estavam ali cumprindo a lei e cumprindo seu dever ético, por que – pergunto eu em nome do próprio Deus que elas evocam – por que não estavam na porta do estuprador, indignadas e revoltadas com tamanha brutalidade praticada contra uma criança de seus 6 aos 10 anos? Vale mais um feto que ainda não se desenvolveu do que uma criança viva, concreta, já encarnada (para usar a linguagem espírita), que vai carregar pelo resto da vida esse trauma inominável, essa dor de ter sido violada em sua integridade, em sua infância, em sua inocência?

O fanatismo é irracional, é violento, é monstruoso – esse fanatismo que já acendeu fogueiras, provocou linchamentos, deflagrou guerras “santas” e é incapaz de enxergar o outro, o ser humano e valorizar o princípio máximo ensinado pelo mestre, que essas pessoas dizem seguir: amar ao próximo como a si mesmo! Quem é o próximo, nesse caso? É a menina estuprada… ela é vítima de uma sociedade misógina, violenta contra a mulher, desde o seu nascimento, uma sociedade que perdoa estuprador e culpabiliza a vítima; que se insurge contra o aborto e sacrifica crianças que já nasceram, matando-as nas favelas (quando são negras e pobres, claro).

O espiritismo condena o aborto como interrupção de uma vida que está se dando na encarnação de um espiritismo. Entretanto, no Livro dos Espíritos, alerta-se que se deve abortar, quando a mãe está em risco de vida. Então, o princípio não é absoluto. A lei brasileira permite nesse caso o aborto e no caso de estupro e a jurisprudência também tem permitido nos casos de bebês anencéfalos.

Entretanto, devemos alertar para o seguinte, assim como em outras tradições espirituais, há também os fanáticos antiabortistas espíritas, que consideram crime qualquer aborto e que defendem que a mulher continue sendo criminalizada por isso. E nesse (des)raciocínio, podem esses fanáticos espíritas invocar a chamada lei do carma para essa criança estuprada. Como se Deus ou qualquer lei do universo pudesse ensejar ou permitir um crime dessa natureza – um homem estuprar durante 4 anos uma criança indefesa. Quem faz isso está infringindo qualquer lei humana ou divina e a vítima não deveria passar por isso por qualquer lei humana ou divina. É um crime que é fruto de uma sociedade milenarmente patriarcal e violenta. Nada pode justificar tal ato.

Mas há os espíritas progressistas, que embora, por uma questão de entenderem a importância do processo da encarnação, possam ser pessoalmente contrários à prática do aborto, nem por isso serão a favor de que a mulher seja criminalizada por isso.

Nesse caso, entretanto, o da menina estuprada, qualquer impedimento ao seu justo desejo de se livrar de um feto que foi consequência de uma violência inominável e de um trauma de que ela provavelmente jamais vai se libertar completamente na vida, não pode ser objeto de qualquer dúvida. Nem para espíritas, nem para católicos, nem para evangélicos, nem para ateus. Trata-se de um ato de humanidade. Que essa menina seja acolhida, tratada terapeuticamente e que possa sobreviver com um mínimo de sanidade a toda essa violência sofrida.

*Artigo originalmente publicado no Jornal GGN, no dia 17/08/2020, na coluna Espiritismo Progressista

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