Túnicas e mendigos

Um dos livros espíritas de que mais gosto se chama “Memórias do Padre Germano”. Nele, a médium Amália Domingo Soler conta as peripécias de um padre progressista na Espanha da Idade Média. Germano incomodava tanto os maiorais da Igreja Católica que acharam por bem enviá-lo para um vilarejo num fim de mundo qualquer daquele país. Mesmo assim, ele não se abatia. Peitava os poderosos, ludibriava clérigos e madres superioras extremamente conservadores etc. E como cada capítulo conta uma estória diferente, o leitor nunca sabe o que espera pelo simpático e aguerrido pároco e seu fiel companheiro, o cachorro Sultão.

O episódio da vida de Padre Germano que mais mexe comigo é o de Clotilde, jovem de alma nobre que, infelizmente, não foi bem-sucedida em matéria de laços familiares. O pai, Duque de São Lázaro, a mãe e o irmão não valiam muita coisa. Tanto era assim que os três haviam tramado o assassinato do rei de Espanha. Mas eles não estavam sozinhos na ardilosa empreitada. Os Penitentes Negros faziam parte da tramoia. E quem eram eles? Aparentemente, um grupo de religiosos que gostavam de ajudar os mais necessitados em várias frentes de trabalho. Só que, nos bastidores, maquinavam golpes de estado, assassinatos de reis e rainhas, entre outras barbaridades. Poder, dinheiro e influência, eles tinham de sobra para tanto.

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Quando o movimento espírita ignora a transformação social, os objetivos da reencarnação são sepultados.

Resposta ao artigo “Quando a revolução ignora o Espírito, a liberdade é sepultada”, de Jorge Hessen.

Por Lindemberg Macena*

Ao ler o artigo do Jorge Hessen, reconheço sua preocupação legítima em preservar os princípios fundamentais da Filosofia Espírita, embora com uma tentativa de fazê-lo de forma moralista e sem o devido arcabouço da pesquisa nas ciências humanas e sociais. A sua abordagem cria uma falsa dicotomia entre transformação espiritual e engajamento social que merece ser reexaminada à luz de uma compreensão mais ampla do Espiritismo, incorporando perspectivas decoloniais e progressistas que enriquecem, e não empobrecem, a nossa compreensão das pesquisas de Kardec.
 

O autor demonstra franco desconhecimento das pesquisas mais atuais acerca da imperiosa necessidade de transformação social, e tal qual se fazia desde o início do século XX, elenca uma suposta ameaça de revolução marxista violenta daqueles que buscam por justiça social, encarcerando o debate em moralismo piegas, não levando em consideração as próprias dinâmicas sociais e históricas. Sempre que o conservadorismo religioso se vê ameaçado e sabe que perde espaço diante do pensamento livre e autônomo, evoca os riscos do marxismo e seu terrível materialismo como ameaças à civilização, é assim desde o século XIX.

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A banalidade do mal: diálogos entre Filosofia e Psicanálise

Por Lindemberg Macena

1. Introdução: o enigma do fascínio destrutivo

A história humana é marcada, de forma recorrente e traumática, por explosões de violência sistemática e de extermínio em massa. Guerras, genocídios, massacres e formas persistentes de violência, como o feminicídio, impõem uma questão filosófica e psicológica incômoda: por que a destruição do outro exerce um fascínio tão poderoso sobre indivíduos e coletividades? Essa atração pelo mal, longe de ser um atributo exclusivo de monstros ou psicopatas, muitas vezes emerge em contextos de normalidade aparente, envolvendo pessoas comuns em maquinários de horror. É neste terreno paradoxal que o conceito seminal de Hannah Arendt, a “banalidade do mal”, se torna fundamental. Desenvolvido a partir de sua cobertura do julgamento de Adolf Eichmann, o burocrata nazista, o termo propõe uma reviravolta na compreensão da maldade: seu perigo maior não estaria na radicalidade satânica, mas na trivialidade, na irreflexão e na incapacidade de pensar a partir da perspectiva do outro.

Este breve artigo propõe um diálogo interdisciplinar entre a filosofia política arendtiana e as lentes interpretativas da psicanálise, sem a pretensão de apresentar uma verdade absoluta. Partindo da análise arendtiana, que enfatiza a dimensão política, ética e fenomenológica do mal, conectamos suas reflexões com os insights sobre a destrutividade oriundos da obra de Sigmund Freud, particularmente sua teoria das pulsões, e de Carl Gustav Jung, com seus conceitos de sombra, inconsciente coletivo e complexos culturais. A hipótese central é que o fascínio pelo mal pode ser compreendido de maneira mais plena na intersecção entre a falta de pensamento e de reflexão (Arendt), a força da pulsão de morte (Freud) e a atuação de complexos culturais traumáticos (Jung). Enquanto Arendt descreve o “como” do mal burocrático e irrefletido, a psicanálise investiga os “porquês” profundos, as motivações inconscientes que alimentam a violência individual e coletiva.

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Uma coletiva mediúnica no evento da ABPE

No dia 7 de setembro de 2025, no Encontro promovido pela ABPE e pela Universidade Livre Pampédia, com a presença de cerca de 100 pessoas, no Centro de Estudos Espíritas Nosso Lar, em Campinas, fizemos uma experiência mediúnica coletiva. Depois de uma mesa inter-religiosa com o Bispo Primaz da Igreja Anglicana do Brasil, Dom Orvandil Moreira Barbosa, o Pastor metodista Luiz Carlos Ramos, o Pai João Tokunbó e Dora Incontri e de exposições de Maurício Zanolini, Litza Amorim, Célia Arribas, Lindemberg Castro e Dora Incontri sobre mediunidade, fez-se um convite para todos os presentes se colocarem à disposição para alguma manifestação mediúnica de psicografia.

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Entre o abolicionismo penal e a prisão dos golpistas

Por Marcio Sales Saraiva

Celebrar a justiça é dever de quem defende a democracia, sobretudo em um país cuja história é marcada por golpes e impunidade. Desta vez, fez-se justiça sem qualquer tipo de anistia ou de pactuação oligárquica. Ainda assim, confesso minha simpatia pelo abolicionismo penal: não me dá prazer o encarceramento de ninguém. Na prática, a prisão massiva no Brasil revela-se ineficaz: nossas cadeias estão superlotadas (ocupação oficial acima de 130% em dezembro de 2024) e o sistema não cumpre funções educativas, ressocializadoras ou restaurativas satisfatórias, ou seja, ele não faz justiça.

E sejamos realistas: muitos desses líderes neofascistas nem sequer pisarão nos cárceres. É mais provável que cumpram prisão domiciliar ou sejam mantidos em repartições mais confortáveis, como a sede da Polícia Federal, em condições bem distintas daquelas reservadas ao povo pobre e negro que compõe a maioria da população carcerária. Justamente por isso, penso que poderíamos levantar este debate olhando para o futuro, pois não basta apenas assistir à impunidade seletiva das “prisões de ricos” e “prisões do povo”, tampouco se pode aceitar que o encarceramento seja a única resposta para todos os crimes. É preciso pensar em medidas alternativas que sejam reparadoras, educativas e verdadeiramente democráticas.

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Entre o Espírito e a Razão: fenômenos medianímicos e a fidelidade a Kardec

(Para Dora)

Kardec já advertia: “Não podemos nos esquecer de que estamos nos primórdios da ciência e que ela está longe de haver dito sua última palavra sobre esse ponto, como sobre muitos outros” (KARDEC, 2004). Essa citação, extraída de “O livro dos médiuns”, evidencia a humildade epistêmica do fundador do espiritismo, que reconhecia as limitações e a transitoriedade do conhecimento científico em sua época. No entanto, setores mais ortodoxos do movimento espírita, especialmente no Brasil, tendem a cristalizar os escritos kardequianos como se fossem escrituras sagradas e infalíveis, ignorando o avanço técnico-científico dos séculos XX e XXI.

A mediunidade, conforme apresentada por Kardec, é um fenômeno psíquico — ainda que ele especulasse sobre bases orgânicas — em que as fronteiras entre o mundo interno do médium e o campo extrafísico (ou espiritual) se tornam difusas. Nesse sentido, é mais adequado utilizar a expressão “fenômenos medianímicos”, como o próprio Kardec adota em diversos momentos, para abranger a complexidade do processo comunicativo entre as dimensões espiritual e material (KARDEC, 2004).

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Nota pública da ABPE – sobre a criminalização do aborto legal

Nota pública da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita (ABPE)

Em pleno século XXI, com os avanços da ciência, dos direitos humanos e de uma ética centrada no cuidado, causa preocupação observar que setores do movimento espírita brasileiro têm se posicionado de forma a contrariar os fundamentos progressistas do pensamento de Allan Kardec.

A recente aproximação entre a Federação Espírita Brasileira (FEB) e a Associação Brasileira de Magistrados Espíritas (Abrame), em torno de temas como a criminalização do aborto legal, revela uma visão de mundo alinhada a perspectivas religiosas reacionárias e moralistas, distantes da proposta kardequiana de respeito ao livre-arbítrio, à razão e à justiça como expressões da caridade.

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Brevíssimas reflexões sobre o desempenho do Espiritismo no Censo 2022

A redução no percentual dos autodeclarados espíritas no Brasil foi vertiginosa, segundo dados do Censo 2022. Malgrado a queda represente, em números absolutos, apenas 0,4%, em termos relativos, a diminuição é de quase 20%. Esse resultado retrata a posição ultraminoritária do Espiritismo no Brasil – e no mundo.

Diante disso, propomos brevíssimas reflexões sobre as causas que nos trouxeram até aqui e algumas ideias dos futuros possíveis – sem, obviamente, ter a pretensão de esgotar tema tão profundo:

            I – Muito se falou que a queda foi apenas aparente. Nessa seara, é sabido que muitos seguidores da Umbanda e do Candomblé, por motivos diversos que não cabem nesse texto, se autodeclaravam como “espíritas”. O Censo 2022 apenas indicaria uma reversão dessa prática, revelando o real quantitativo de cada matriz religiosa. É uma possibilidade coerente, cujo impacto não pode ser descartado. E que bom que cada um possa ser livre para manifestar suas preferências.

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Humor e falta de amor – o caso Léo Lins

Gosto de comentar acontecimentos políticos e sociais à luz dos pressupostos espíritas. Para mim, a doutrina espírita é um organismo vivo e dinâmico que vive em constante atualização. Por isso, requer de nós constante sintonia com o que vai pelo Brasil e o mundo. Assim, podemos contribuir, mesmo que timidamente, para que os leitores – sejam ou não espíritas – percebam que o espiritismo kardecista pode oferecer bem mais do que se supõe.

Foi com este pensamento que mergulhei no caso do humorista brasileiro Léo Lins. Em junho de 2025, ele foi condenado pela justiça a uma pena de pouco mais de oito anos de prisão e pagamento de vultosa multa por proferir piadas ofensivas a vários grupos sociais num show realizado em 2022 que foi filmado e acabou viralizando na internet. A sentença se deu com base nos crimes de racismo e discriminação generalizada, já que, como bem observou o jornalista Ricardo Mello nas redes sociais, Léo Lins praticamente gabaritou o Código Penal. Ofendeu negros, pessoas com deficiência variadas (nanismo, surdez etc.), soropositivos, mulheres, vítimas de pedofilia, imigrantes, crianças, pobres, idosos, indígenas, gente que desencarnou em tragédias… Foi um show de horrores, não um espetáculo de humor. O caso, contudo, ainda não está encerrado. Cabe recurso.

Como o suposto humorista roteirizou p próprio desempenho e não é nenhum inocente em matéria de direitos e deveres, sabia muito bem o que estava fazendo e correu o risco deliberado de disparar sua metralhadora depreciativa. Foi xenófobo, capacitista, homofóbico, racista, etarista, aporofóbico, misógino… Tudo isso de uma vez só.

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Kardec e o batom na estátua

Estava no auge, em todos os veículos de comunicação, o caso da cabeleireira paulista Débora Rodrigues dos Santos, condenada pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) a 14 anos de prisão. Motivo: nos atos terroristas de 8 de janeiro de 2023 ocorridos na Praça dos Três Poderes, em Brasília (DF), ela escreveu com batom a frase “Perdeu, mané” na estátua “A Justiça”, que fica em frente à sede do STF.

Débora, antes da sentença definitiva, proferida em maio de 2025, estava em prisão domiciliar. Antes, havia ficado dois anos numa penitenciária. O caso ganhou repercussão porque tentaram transformá-la numa espécie de musa (ou mártir) da extrema direita. Seus pares alegavam que ela nada depredou ou destruiu, tampouco invadiu prédios. Para eles, a condenação seria desproporcional.

À mesma época, num conhecido ponto de Petrópolis (RJ), onde moro, encontrei um deputado federal e um deputado estadual de um partido de esquerda. Como os conheço de eventos anteriores – dos quais participei representando o espiritismo progressista –, fui cumprimentá-los e também ao pessoal da comitiva. Ambos estavam na cidade justamente para um evento contra o projeto de lei de anistia para os presos do 8 de janeiro.

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