Desinformação, cegueira e idolatria no movimento espírita

Captura de Tela 2Em 2007, a Associação Brasileira de Pedagogia Espírita lançou um número isolado do Jornal Mensagem, invocando a herança de Herculano Pires, para fazer uma crítica ao modismo então injetado no movimento espírita sobre as ditas crianças índigo e cristal. Demonstramos então que se tratava de um empreendimento comercial, de uma seita New Age, norte-americana, sem nenhuma base científica e que criava uma discriminação absurda entre as crianças, ao classificar algumas de índigo, outras de cristal e outras que seriam apenas normais. Nessa ocasião, Divaldo Franco estava lançando um livro sobre o tema – apoiando a moda. Nessa publicação, não mencionamos o nome de Divaldo e nem o seu livro sobre o assunto. Mas sofremos retaliações por causa do jornal, embora ninguém tenha apresentado um único argumento contra os vários que enumeramos. Continuar lendo

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A polêmica da Gênese

gNesse ano em que se completa 150 anos do lançamento da primeira edição da Gênese, de Kardec, veio à tona o tema, como se fosse novidade, de uma possível adulteração dessa obra, entre a 4ª e 5ª edição. Continuar lendo

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Kardec era racista?

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A maturidade nos traz reflexões importantes, quando estamos abertos ao aprendizado. Depois de revisitar muitos autores que considerava impecáveis e mesmo mestres da minha adolescência e juventude, vendo que no meio de grandes e belas verdades e contribuições, disseram às vezes coisas embaraçosas para o século XXI, hoje me pergunto: será que daqui 50 ou 100 anos, quando lerem meus livros, haverá coisas ali que me constrangerão de ter escrito, olhando lá do mundo espiritual, diante do progresso das ideias e do avanço civilizatório? Às vezes nem me pergunto se haverá, mas quais serão essas posições ultrapassadas, que poderão me fazer corar no futuro… Continuar lendo

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Entre a denúncia e a misericórdia, entre a crítica e a compreensão…

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Há extremos nas atitudes que adotamos na vida em sociedade, que os espíritas e cristãos em geral, deveriam evitar. Aliás, como bem diziam tanto Buda como Aristóteles, a virtude está no caminho do meio.

É fato que o mundo em que vivemos ainda é um mundo de grandes sofrimentos e se há sofrimentos é porque há aqueles que fazem sofrer e porque nós mesmos estamos enredados em complexos de dor. As guerras, o domínio dos que exploram, as injustiças em todos os níveis, a violência contra crianças e mulheres, os abusos, a fome diante de uma civilização de fartura, em que países inteiros apresentam índices de obesidade e toneladas de comida são inutilizadas, para não “desequilibrar o mercado”… poderia preencher páginas e páginas com as mazelas do mundo. Chocamo-nos com elas todos os dias.

E elas nos cercam na intimidade também… e o pior, mesmo dentro de nós.

Então, há duas tendências comuns que se observam na apreensão desse cenário: há aqueles que se alienam e entram num processo de negação da realidade e há aqueles que se amargam.

Os primeiros são os que fogem, seja para as drogas legais ou ilegais, seja para o consumo desenfreado, seja para a autoajuda oba-oba, que prega o pensamento positivo mágico e inócuo. Anestesiam-se e parecem andar em estado sonambúlico. Não entendem e não querem entender como se estruturam as injustiças no mundo. Não querem saber como o planeta é dominado pelos bancos, pelo complexo bélico-industrial, como somos joguetes da mídia, como a educação é uma forma de sujeição das massas. Apenas exibem o sorriso pseudofeliz do Facebook e sua militância para transformar o mundo se resume a algumas carinhas tristes diante das crianças refugiadas da Síria ou algumas mornas palavras de indignação contra a corrupção política.

Entre esses, há muitos espíritas. São os que se consolam achando que as crianças que morrem de fome na África foram nazistas… Quantos nazistas são necessários para povoar um continente, encher uma boate que pegou fogo e ainda estarem todos reencarnados nas Casas André Luiz? A lei do carma, entendida de maneira simplista e punitiva, serve como uma luva para os alienados. Ela justifica toda miséria, ela os isenta de lutar para mudar o mundo… afinal quem está sofrendo é porque merece.

Essa é a versão espírita desse primeiro grupo e se esses não fogem para as drogas, vivem  se anestesiando com discursos místicos, de oradores melosos, tão vazios quanto eles próprios.

Os segundos vivem revoltados ou desesperados, incrédulos do progresso, sombrios quanto ao futuro, escarafunchando a cada dia as aberrações do mundo. Gritam e se debatem, reclamam e disseminam as notícias, muitas vezes verdadeiras, mas que envenenam o nosso dia a dia de desesperança.

Ora, a grande questão é: como manter um lúcido espírito crítico, uma visão precisa da realidade, sem cairmos na depressão, na revolta e no ceticismo em relação ao futuro e ao ser humano?

Como guardar a fé e o amor à humanidade em meio a tanta barbárie, sem negar que a barbárie existe e está diante de nossos olhos?

Esse é o desafio que nos está posto nesse século agitado, cheio de horizontes sombrios.

Eu me lembro nesse momento de um belo livrinho que recomendo aqui: Diário do Gueto de Janusz Korzcak. O médico e educador judeu-polonês estava confinado no gueto de Varsóvia, com suas 200 crianças, sob a barbárie nazista, e dali seguiria para um campo de concentração, onde morreria com elas, numa câmera de gás. E ele escreve um diário. Um diário triste, mas não amargo; perplexo, mas nunca com ódio. Delicado e lúcido, enquanto olha um soldado alemão e se questiona quem seria aquele ser humano… Eis alguém que vive numa situação limite e não se deixa contagiar pelas sombras. Mantém sua própria luz acesa, embora bruxuleante de fome e tristeza.

E nós espíritas?

A visão espírita, se bem introjetada, é aquela que nos descerra a eternidade, que nos faz compreender o lado sombrio do ser humano, como um desequilíbrio momentâneo; a dor, como um processo de amadurecimento e aprendizagem; mas sobretudo é aquela que nos permite enxergar o bem em cada pessoa (mesmo nas piores) e termos a certeza de que esse bem sempre vence, dentro, fora e em torno de nós.

É uma visão que dá força, mas não nos deve fazer insensíveis e indiferentes ao sofrimento humano.

É uma visão que nos projeta além do tempo e do espaço, mas não deve nos arrancar do momento presente, que é bem aquele em que devemos atuar.

É uma visão que nos educa para o caminho da esperança ativa, dos que querem a justiça, sem vingança e a paz, sem passividade e covardia.

Que bom seria se pudéssemos contar com muitos espíritas assim: que se comprometessem com a mudança do mundo, lúcidos em relação às suas estruturas injustas e sombrias, mas que esse comprometimento fosse cheio de misericórdia e piedade, inclusive para com aqueles que provocam a dor e a miséria, a violência e o abuso.

Não se trata de um discurso meloso sobre “nossos irmãozinhos infelizes”… Trata-se de um amor compassivo, mas que se empenha em tocar as almas endurecidas, esclarecer energicamente os vendilhões do templo, espalhar a verdade com clareza e responsabilidade…

Olhando espiritamente esse episódio de Janusz Korzcak, narro algo que se deu em nossa reunião mediúnica da ABPE, anos trás, quando estávamos trabalhando na publicação de um livro sobre ele e nos conectamos profundamente com esse espírito e com os acontecimentos que viveu. Inesperadamente e de forma muito emocionante, ocorreram inúmeros trabalhos mediúnicos em que esse mesmo educador, morto pelos nazistas, veio ajudar no resgate deles, que ainda estavam presos ao momento trágico da perseguição. Ele lhes aparecia e a simples visão da vítima transformada num ser luminoso e acolhedor, fazia soluçar os mais desesperados. Eis um sentido sublime da dor: aquele que foi injustiçado, perseguido e morto tem o poder único de tocar seus verdugos com um gesto de amor e perdão.

Por isso, não nos rendamos ao ódio, quando verificamos as barbaridades desse planeta e quando sabemos quem as praticou ou ainda pratica. Primeiro, porque todos nós já passamos por esses desvarios e, quem sabe, em certas circunstâncias, até poderíamos repetir algum desses atos. E segundo, porque, como dizia Jesus, só o amor cobre a multidão de pecados e só ele pode salvar o mundo.

Portanto, denúncia sim, mas com misericórdia e crítica sim, mas com compreensão…

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Blogando em versos de esperança

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É sábado na rotina

De blog no ciberespaço,

Mas a tarde se espreguiça

E quase me vence o cansaço!

 

Agora não me vem fôlego

Para um artigo de impacto…

Mas a poesia me ronda

E tira leite de cacto!

 

Os tempos são tão difíceis

Que a exaustão bate à porta

Todo dia a reavivar

A esperança quase morta!

 

São empeços no trabalho

Desencontros, deserções,

Que carregamos no peito

Contundidos corações…

 

São horizontes tão turvos

Que quase se apaga o céu

São cristãos que esquecem Cristo

E andam no mundo ao léu!

 

Mas vem-me em visita a musa

Espírita, calma e forte

Que levanta meu olhar

E transcendo a própria morte!

 

– O mundo foi sempre assim!

Diz-me ela com doçura –

Um lugar de luta e dor

Onde a alma se depura!

 

Todos os que se deram

Para a semeadura boa

Sofreram e pelejaram

Mas não sofreram à toa!

 

Como bem disse o Mahatma

O bem anda como lesma

Mas chegará à sua meta

Que de todos nós, é a mesma!

 

A meta do bem comum

Da grande fraternidade

Da florescência do amor

Para toda a humanidade!

 

Cabe-nos, pois, a paciência

De uma lenta semeadura

De um arado que não pára

De uma esperança segura!

 

Que em passagem nessa terra

Sejamos rastro de luz

Porque à frente, em nossos passos

Caminha o mestre Jesus!

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A palavra dos Espíritos e o argumento de autoridade

detail candelabra room centrepiece st thomasO que caracterizava o pensamento medieval – o que significa dizer, um pensamento em que a razão deveria ser submetida à fé – era o argumento de autoridade. Autoridade da Bíblia, autoridade de Aristóteles, por exemplo. Muita gente não sabe que vários absurdos científicos que eram aceitos na Idade Média não eram apenas por conta da Bíblia, mas por conta de Aristóteles.  Embora o filósofo grego recomendasse a observação empírica da natureza, ele era citado como fonte de autoridade filosófica e científica. Tomás de Aquino, que formulou a maior síntese entre a visão de mundo cristã (leia-se católica) e Aristóteles, o citava a torto e a direito, como autoridade. Então, por exemplo, toda a polêmica em torno do geocentrismo ou heliocentrismo, tinha como fonte argumentativa, a posição geocêntrica de Aristóteles… Continuar lendo

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O Mestre carpinteiro e sua mensagem para nós

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A Galileia era uma região desprezada pelos próprios judeus, que por sua vez, era um povo dominado e espoliado pelo império romano (que hoje equivaleria ao Império americano),  era uma época em que não havia televisão, rádio, imprensa, internet, redes sociais – e que portanto, a comunicação era apenas oral, boca a boca, homem a homem, mulher a mulher…

Nesse contexto, nesse rincão esquecido, nasceu um homem, nasceu um profeta, nasceu um ser iluminado – que para muitos foi visto como a própria encarnação divina – que mudou o mundo e de quem estamos falando ainda, dois mil anos depois.

Esse homem escolheu doze companheiros, que eram marginalizados pela sociedade, pescadores, pessoas do povo, analfabetos – talvez um ou dois soubessem escrever, Mateus, de quem se suspeita que era cobrador de impostos (repudiado pelos judeus) e talvez Judas, que parecia ser um pouco mais intelectualizado. Mas chamou também mulheres para o seguirem, prostitutas como Maria Madalena, mulheres que viviam em família, como Marta e Maria, ricas como Joana de Cusa. Claro que a narrativa feita por homens nos Evangelhos não atribuiu a essas mulheres o título de discípulas e apóstolas. Mas a sua presença foi tão marcante, que não puderam esconder a sua importância e o quanto esse homem tratava de maneira igualitária e amorosa, mesmo as mulheres mais desprezadas e condenadas socialmente.

Só pelo menos vinte anos após a sua morte, foram escritos os primeiros textos sobre esse homem – as cartas de Paulo, a quem ele chamou para colaborar na expansão da sua mensagem, ele que era sim um homem letrado. Mas as cartas de Paulo não contavam sobre a sua vida, comentavam sobre sua mensagem. Apenas depois de mais 50 anos de sua morte, é que apareceram os primeiros escritos sobre o que fez e o que falou. Talvez um proto-evangelho de que não nos restou nenhuma cópia. As cópias que temos hoje dos Evangelhos de Marcos, Mateus, Lucas e João são todas de mais de 150 da Era, que foi chamada cristã, justamente por causa desse homem que mudou a história.

Apesar de todas essas dificuldades e da probabilidade de que uma pessoa sem recursos, sem poder, sem cátedra, sem conhecidos nas altas esferas do judaísmo ou do império, uma pessoa que andava descalça, que dizia não ter uma pedra onde encostar a cabeça, uma pessoa que foi condenada como criminosa, torturada e morta entre ladrões, fosse esquecida pela história – essa pessoa é a que celebramos até hoje, quando chega o Natal.

E apesar de séculos de lutas entre as diversas facções que disseram segui-lo, apesar das dúvidas que hoje temos sobre fatos de sua vida e das escrituras (ver por exemplo, as ponderações de Bart Ehrman), apesar das instituições que, em seu nome, mataram, perseguiram e torturaram, como Ele próprio foi perseguido, torturado e morto, sua mensagem continua intacta, ainda como um modelo possível, desejável e vivo de ação no mundo.

Jesus, o carpinteiro, o galileu, o profeta morto, o homem que tratava as mulheres com dignidade, que acolhia as crianças com respeito e admiração, que estava ao lado dos mais marginalizados e oprimidos de sua época, que se compadecia dos doentes de corpo e de espírito e os curava, que era enérgico ao condenar apenas um tipo de gente, os hipócritas religiosos (o que há de mais comum até hoje nas religiões, incluindo entre aqueles que dizem segui-lo) – esse Jesus, esse mestre, nos inspira ainda hoje para uma proposta de vida radical de desprendimento, de amor, de perdão, de paz, com valores e atitudes que são completamente o oposto dos valores que estruturam a sociedade contemporânea.

Sociedade materialista, consumista, excludente, onde as pessoas são descartáveis, onde vínculos de amor e confiança são difíceis de serem estabelecidos e mantidos, onde a injustiça rege as relações econômicas e sociais, onde a violência impera entre os indivíduos e entre as nações – essa sociedade está distante daquele que nos enviou há séculos essas mensagens:

Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra!

Bem- aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus!

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados!

No século XII, nasceu outra pessoa, numa pequena cidade da Itália, que soube vivenciar a radical plenitude dessa mensagem de Jesus. Despojou-se das riquezas, foi viver ao lado dos excluídos, tratar dos leprosos abandonados pela sociedade de então e se tornou um jogral, um poeta mendigo desse mestre galileu: Francisco de Assis.

Em nossos encontros on-line da Universidade Livre Pampédia, sobre Tradições, Livros e Espiritualidade, dezembro foi dedicado aos Evangelhos e em nossa prática de diálogo inter-religioso, captamos a belíssima aula de Frei Vitório Mazzuco sobre Francisco e o Evangelho, aqui disponível para vocês, como presente de Natal.

Que possamos neste Natal, lembrar de Jesus, com mais intensidade, com mais amor, com mais sintonia com sua presença e com sua mensagem.

Não há outro caminho: enquanto não pusermos coletivamente em prática, seus ensinos de amor, perdão, solidariedade, desprendimento e paz, o mundo continuará nas sombras. Mas há luzes brilhando na estrada sombria: as luzes dos que sabem viver a sua mensagem nesse mundo e a luz dele próprio, o Mestre, nos olhando com o amor de sempre!

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