Considerações sobre a moral espírita (parte 2): a educação moral

PESTALOZZI-na-sua-escola5-768x432Pestalozzi, o excepcional educador suíço pouco conhecido aqui no Brasil, mas muito influente na Europa, viveu nos tempos da Revolução Francesa. Foi professor de Rivail (Kardec) e deixou uma marca profunda em seu discípulo. A compreensão de Pestalozzi sobre a educação moral das crianças expressa na Carta de Stans (tradução de Dora Incontri), é bastante esclarecedora a respeito dessa influência e de como as ideias do educador suíço fazem eco com a ideia educativa do espiritismo formulado mais tarde por Kardec.

Mas antes de olharmos com detalhes para essa carta, precisamos fazer uma descrição clara do que foi o trabalho de Kardec e de como o mestre de Lion entendeu, refletiu e comunicou a notícia da existências dos espíritos. Diante de um fenômeno que se manifestava por toda parte (mesas girantes), Rivail percebeu que alí havia uma ou muitas inteligências. Formulou perguntas e testou essas inteligências para entender o que eram, de onde vinham. Estabeleceu que eram as almas dos homens e mulheres já mortos, entendendo assim que a alma é imortal e experimenta sucessivas vidas na matéria. Com essa informação, começou a questionar sobre o motivo da reencarnação e chegou ao aspecto evolutivo da caminhada dos espíritos. Por fim estabeleceu, a partir do seu diálogo com inúmeros espíritos, que a trilha da evolução é a moralidade.

A partir desse ponto, Kardec pergunta literalmente para os espíritos qual seria o modelo de moral que deveria ser seguido para avançarmos na trilha evolutiva, ao que eles respondem: Jesus. O livro O Evangelho Segundo o Espiritismo é a análise dos ensinamentos morais de Jesus (principalmente o Sermão da Montanha) considerando a nova informação que Kardec descortinou a respeito da imortalidade da alma e das sucessivas vidas na matéria. Mas ainda que o exemplo de Jesus seja o mapa e os apontamentos de Kardec e dos espíritos sejam a bússola, não há na filosofia espírita considerações sobre que forma essa autoeducação moral (que no Brasil virou reforma íntima) e a educação moral do outro (que por aqui virou palestra e evangelização) deveriam ter.

Ainda antes de olharmos para o trabalho de Pestalozzi é importante pontuar que, como falamos no texto anterior (parte 1), a moral espírita não é a moral católica, não é a moral protestante e nem a moral judaica. A moral espírita é da autonomia que será conquistada através da consciência da nossa condição (espíritos reencarnados em processo de evolução), da convivência (cooperação) e da liberdade. E no ensino da moral (ou de qualquer outra coisa) a forma e o conteúdo tem que ter coerência. Se, por exemplo, a moral a ser ensinada é de punição dos pecados, noções dogmáticas de certo e errado e submissão a Deus, a forma dessa educação (o ato de educar) será de punição, castigo, exaltação dos acertos e condenação dos erros e de exigência de submissão à autoridade do educador. Neste exemplo, temos forma e conteúdo coerentes. Mas essa não é a forma para se ensinar a moral espírita (ou pelo menos não deveria ser).

Embora não tenha sido possível para Kardec formular quais seriam as práticas pedagógicas coerentes para essa nova compreensão da realidade e da moral, podemos olhar para os grandes educadores que compreenderam que o ser humano tem uma dimensão espiritual e pensaram sobre o ensino moral, para buscarmos modelos. Aqui voltamos a Pestalozzi (mestre de Kardec) e à Carta de Stans. Durante a Revolução Helvética na Suíça o pedagogo conseguiu autorização e uma pequena verba para transformar um convento em escola e abrigar as crianças de uma região que fora brutalmente castigada por batalhas entre as forças republicanas (apoiadas pelo exército francês) e a resistência de populares armados incitados pelo clero que defendia a manutenção dos privilégios da aristocracia e oligarquia da Suíça.

Neste cenário de dor e miséria, em condições materiais precárias, Pestalozzi sozinho se atira ao trabalho de cuidar e educar de mais de 80 crianças que passavam fome. Na Carta ele fala da sua relação com elas, de suas percepções sobre a construção do vínculo, da relação dele com os pais das crianças e a influência dos pais sobre os filhos e da diferença de importância entre as palavras e a ação. Mas principalmente Pestalozzi fala da ideia central de suas reflexões sobre o ato de ensinar – a essência moral do ser humano.

Mas o que exatamente isso significa? Para Pestalozzi, a observação e experimentação no que chamamos hoje de processo de ensino e aprendizagem, tinha por objetivo extrair o que havia ali de universal. Ainda que hoje a educação seja pautada fortemente pela compreensão de seus contextos sociais e históricos, Pestalozzi e outros pensadores como Rousseau, Comenius, Santo Agostinho, Aristóteles e Platão, entendiam que existe uma natureza humana universal que é anterior aos determinismos dos contextos. E é nesse sentido que a compreensão da realidade a partir das reflexões de Kardec sobre a realidade espiritual dialogam com as ideias pedagógicas de Pestalozzi.

Se, partindo de Kardec, compreendemos que a trilha da evolução do espírito é a moralidade, partindo de Pestalozzi (e de tantos outros pensadores que consideram o homem um ser espiritual) a moralidade é intrínseca ao ser humano. Pestalozzi descreve, na Carta de Stans, que as crianças acostumadas a uma vida de abandono e embrutecimento, com seus prazeres irregulares, decepcionadas na esperança de serem alimentadas, não acreditavam de primeira no amor que ele oferecia para elas. Que o vínculo era construído com constância e serviço, que ele era o último a deitar e o primeiro a levantar, que derramava lágrimas junto com elas e repousava os olhos no olhar delas, que sua sopa e sua bebida eram as mesmas que a delas.

O educador entendia que era preciso primeiro despertar nelas a alma moral através do exemplo (de serviço e dedicação às necessidades delas) e  da construção de uma comunhão (que elas se vissem como irmãs). Isso levaria naturalmente a um sentimento de justiça e generosidade, sem que fosse necessário falar sobre virtudes. As palavras que classificam o que é o bem e o que é o mal, na visão de Pestalozzi, só deveriam vir no final deste processo de aprendizagem, sempre acompanhadas de exemplos concretos. Nas palavras dele: “…se tivesses que velar noites, para dizer em duas palavras o que outros falam em vinte, não lamentes as noites insones.”

É dentro desse entendimento que a Pedagogia Espírita, atualmente desenvolvida por Dora Incontri, entende que na relação de ensino e aprendizado, o espírito reencarnado (interexistente), que tem uma essência divina (moral / universal), precisa ser acolhido amorosamente (vínculo), precisa ser exposto (concretamente) ao bom e ao belo de todas as culturas para vivenciar e experimentar de forma livre. Só assim a essência divina e a bagagem de conhecimentos acumulados desse espírito poderá se manifestar de forma plena. E isso serve para a educação moral e para a educação formal, para a evangelização, a família e a escola. Se entendemos o papel revolucionário da educação na transformação do mundo, entender o espiritismo como um processo pedagógico é revolucionário.

 

* estão abertas as inscrições para a turma de 2020 do curso de Pós Graduação em Pedagogia Espírita. Saiba mais no site da Universidade Livre Pampédia.

_36c08eb2cec17b553b150420cc1462c6579f9d08* conheçam o livro Pestalozzi, educação e ética, de Dora Incontri onde está a íntegra da Carta de Stans (na loja da Editora Comenius)

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