Desinformação, cegueira e idolatria no movimento espírita

Captura de Tela 2Em 2007, a Associação Brasileira de Pedagogia Espírita lançou um número isolado do Jornal Mensagem, invocando a herança de Herculano Pires, para fazer uma crítica ao modismo então injetado no movimento espírita sobre as ditas crianças índigo e cristal. Demonstramos então que se tratava de um empreendimento comercial, de uma seita New Age, norte-americana, sem nenhuma base científica e que criava uma discriminação absurda entre as crianças, ao classificar algumas de índigo, outras de cristal e outras que seriam apenas normais. Nessa ocasião, Divaldo Franco estava lançando um livro sobre o tema – apoiando a moda. Nessa publicação, não mencionamos o nome de Divaldo e nem o seu livro sobre o assunto. Mas sofremos retaliações por causa do jornal, embora ninguém tenha apresentado um único argumento contra os vários que enumeramos.

Agora, nesses últimos dias, recebemos na ABPE inúmeras mensagens, pedindo um posicionamento nosso a respeito da entrevista coletiva dada por Divaldo Franco e Haroldo Dutra num congresso em Goiás. Participamos então de um texto coletivo a respeito e aprofundamos o assunto aqui no blog. Buscamos entretanto exercitar o espírito crítico com respeito humano e o discernimento equilibrado das coisas. Assim, antes de mais nada, temos de declarar que quando discordamos de uma pessoa ou fazemos uma crítica a posições ou ideias ditas por ela, isso não significa desrespeito ao ser humano.

A primeira coisa que devemos lamentar e fazer uma objeção firme é em relação à crescente partidarização que Divaldo tem assumido em suas declarações. Na citada entrevista, refere-se à república de Curitiba, comandada pelo “presidente Moro” (sic), “venerando juiz”… No mínimo, ele poderia se questionar como alguém pode ser venerando, se há inúmeras críticas de juristas internacionais e brasileiros quanto à evidente parcialidade e seletividade da “justiça” de Moro e de grande parte do judiciário no Brasil atual. Como pode uma liderança espírita desconsiderar tudo isso e assumir o discurso da massa de manobra? Lembramos ainda a recente homenagem de Divaldo a João Dória em São Paulo, causando enorme constrangimento a todas as pessoas esclarecidas politicamente, que na ocasião estavam indignadas com a ração humana, que o prefeito estava querendo dar aos moradores de rua.

Sabemos que o país está polarizado. Por isso mesmo, nossas palavras requerem prudência, argumentação e compromisso ético. Ora, em nossa opinião, Divaldo está exercendo sua imensa influência no movimento espírita para fortalecer posições retrógradas, anti-humanitárias e o faz sem qualquer argumentação, sem qualquer aprofundamento nas questões políticas e sociais, mas de maneira superficial, mística e leviana, como fez com a ideia das crianças índigo anos atrás.

Recentemente também saiu um desenho animado calcado numa palestra de Divaldo, em que ele conta uma história absurda em que supostos espíritos judeus e muçulmanos estariam promovendo cruéis obsessões em centros espíritas, semeando a discórdia entre nós, cristãos tão bondosos! Uma ideia discriminatória e falsa. Promove a intolerância religiosa e simplesmente não tem nada a ver. Por que judeus e muçulmanos estariam preocupados conosco? Em suma, uma fantasia de mau gosto.

Outra questão que nos espanta é a maneira como  Divaldo, quanto fala sobre a chamada “ideologia de gênero”. E aqui vamos nos deter um pouco mais no assunto, porque não se trata apenas de uma questão política, mas também acadêmica.

Não existe “ideologia de gênero” – este é um termo criado por setores conservadores da Igreja Católica e depois adotado pelas Igrejas Evangélicas, para colocar várias coisas num mesmo saco e torná-las todas abomináveis e ameaçadoras.

Existe sim uma área de pesquisa no mundo que se chama “Estudos de Gênero” – que teve influência de Michel Foucault, Simone de Beauvoir e Judith Buttler, que esteve recentemente no Brasil (e não tinha vindo falar sobre gênero) e quase foi linchada por fanáticos, que certamente jamais leram um livro dela.

Pois bem, os “Estudos de Gênero” se dedicam a procurar entender como se constitui a feminilidade e a masculinidade do ponto de vista social, se debruçam sobre questões de orientação sexual, hetero, homo, transsexualidade – ou seja, todos fenômenos humanos, que estão diariamente diante de nossos olhos. Podemos concordar com algumas dessas conclusões, discordar de outras, deixar em suspenso outras tantas. Esse olhar é muito recente na história e ainda estamos apalpando questões profundas e complexas – e em nosso ponto de vista espírita, não é possível ter plena compreensão delas sem a chave da reencarnação. Uma abordagem puramente materialista jamais vai dar conta do pleno entendimento do psiquismo humano. Mas estamos muito longe de ter gente reencarnacionista competente, fazendo pesquisa séria, para dialogar com pesquisadores com abordagens meramente sociológicas ou psicológicas. Então, nós espíritas, não temos ainda melhores respostas que os outros.

Mas dentro desse universo de questões ligadas a gênero e sexualidade há pontas de um lado e de outro.

Por exemplo, uma vantagem trazida por esse discurso contemporâneo é a busca de igualdade de direitos entre homens  e mulheres (os Estudos de Gênero nascem com o feminismo e ainda estamos muito distantes de uma igualdade nesse sentido, basta ver os dados em relação à violência contra a mulher no Brasil), o chamado ao respeito à diversidade, ao respeito à dignidade de todos, incluindo os da comunidade LGBT, o entendimento de que todo ser humano tem o direito de exercitar sua sexualidade como bem entender, desde que não violente outro ser humano. Então, de um lado, temos o Papa Francisco que diz “quem sou eu para julgar?” e, do outro, temos  líderes espíritas que jamais se referem às violências praticadas contra homossexuais e travestis, contra mulheres e crianças, contra negros e pobres. Ao contrário, adotam discursos em tudo semelhantes às lideranças mais retrógradas de outras religiões: discursos que lembram Malafaias e Felicianos.

Mas ao nos alinharmos entre aqueles que defendem os direitos humanos de todos e todas, não significa, por outro lado, adotar uma teoria e prática extremista como a proposta por exemplo por alguns na Suécia, de que quando nasce uma criança, nem se dar o nome nem se vestir de menino ou menina, deixando que mais tarde ele-ela decida… Ou ainda como se faz hoje nos Estados Unidos de realizar cirurgia de inversão de sexo, com crianças de 10, 12 anos. Obviamente que esses extremos são absurdos, embora raros, e jamais foram propostos aqui no Brasil, pois que desrespeitam a maturação psíquica da criança ainda em desenvolvimento. E são coisas de países capitalistas e não comunistas, como Divaldo anunciou na entrevista.

Esses temas são muito complexos, mobilizam paixões de um lado e de outro e esperam ainda delicados e dedicados estudos para compreendermos melhor como se dá essa integração entre heranças reencarnatórias, influências do meio social, constituição familiar, fatores genéticos… Portanto, um comedimento nas análises é muito bem vindo.

Mas o que é preciso frisar sempre é o respeito a todos e todas, o combate a qualquer forma de discriminação e violência contra quem quer que seja e seria muito bom que seguíssemos Jesus, se nos dizemos cristãos – ele não condenou os corruptos, os ladrões e os que na sua época eram considerados sexualmente desviados – as únicas pessoas com as quais ele foi duro foi justamente com os religiosos hipócritas.

O que mais aborrece a espíritas conscientes é o fato de tantos outros espíritas comprarem cegamente o que líderes assim falam. Esse é o problema da idolatria, da falta de critério e de estudo e, sobretudo, da falta das diretrizes racionais que Kardec imprimiu ao espiritismo.

Se não mudarmos o rumo, já já seremos uma nova seita.

 

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148 respostas para Desinformação, cegueira e idolatria no movimento espírita

  1. Divaldo desnuda equívocos do vaticano kardecista da FEB contrariando espiritismo ciências, Kardec, Deus e Jesus, além dos espíritos.

    https://www.linkedin.com/pulse/divaldo-desnuda-equívocos-do-vaticano-kardecista-da-feb-garrucino/?trackingId=VfUbFwyKTdTnw6o2gkcukw%3D%3D

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  2. Antônio Marcos Batista Gouveia disse:

    Concordo plenamente, ainda perplexo, sem entender as posturas de Divaldo Franco, como espírita. Acho inclusive que nos três episódios aqui relatados, Divaldo tomou posições equivocadas, referindo-se ao o último por exemplo, ele defende o juiz Moro, como o salvador e herói do Brasil. “Venerando”. Elevando Moro, a mesma condição da verdadeira Veneranda, sua mentora Joanna D’ Angelis. Esqueceu que Moro em vários processos, segundo vários juristas analisando seu comportamento, agio com parcialidade, arbitrariedade, e partidarismo. Como não lembrar do grampo, crime de violação de privacidade, grampeando conversas telefônicas entre a presidenta Dilma Rousseff e Lula? Posteriormente vendendo os grampos a rede Globo, acontecimento amplamente divulgado pela mídia. Entre outros, o auxílio moradia, que ainda cinicamente argumentou que recebe por não ter as reposições salariais. Enfim, isso é o mesmo que apontar sujeira, com o dedo sujo. E Divaldo Franco se posicionando dessa forma, no meu entendimento, e por não está isento também de ser obsediado.

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  3. Pingback: O espiritismo que queremos… | Blog da ABPE

  4. Luanda Taub disse:

    Somente uma ressalva, transidentidade não é uma orientação sexual. A transidentidade é uma identidade de gênero. Vai então haver transgêneros que fazem a transição de homem para mulher mas que continuam sendo heterossexuais, ou seja, com atração sexual por mulheres.

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  5. Débora Bastos disse:

    Concordo plenamente. Alguns sites de direita estão atacando os espíritas de esquerda como pedantes. Não li intolerância e desrespeito a pessoa do Divaldo, apenas às suas ideias equivocadas. Fiquei triste ao ouvir o vídeo, pois na posição que ele ocupa, a opinião dele se confunde com o espiritismo, difundindo mais intolerância e ódio.

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  6. Pingback: Podemos falar em centros espíritas progressistas? | Blog da ABPE

  7. Saul Luis Vieira disse:

    Concordo em gênero, número e grau com o texto da ABPE.

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  8. Moisés Ramos dos Santos Júnior disse:

    Excelente reflexão! Bastante embasada, aprofundada! Parabéns

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  9. Cleber disse:

    Alguém sabe onde encontro o video citado, por favor postem link: “Recentemente também saiu um desenho animado calcado numa palestra de Divaldo, em que ele conta uma história absurda em que supostos espíritos judeus e muçulmanos estariam promovendo cruéis obsessões em centros espíritas”.

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  10. Pingback: Perguntas e críticas frequentes de espíritas conservadores | Blog da ABPE

  11. Pingback: Espíritas progressistas – isso existe? | Blog da ABPE

  12. Cleber disse:

    Que falta de consideração com um líder espírita. Mostre as suas obras, com sua fé???? Que foto é essa cortada os olhos, mesmo que vc considere alguém inimigo, Jesus disse, amai os inimigos. Baseado em qual passagem evangelica ou do livro dos espiritos vcs fazem isso/

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  13. Samara disse:

    Muito bom!! Parabéns!!

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  14. Kátia Medeiros disse:

    Eu há muito venho sentindo esse distanciamento do movimento espírita com a proposta da codificação. Com todo respeito que tenho a Divaldo ‘ Haroldo e outros palestrantes em muitas de suas falas encontrava coisas bem destoantes e simplificações bem a moda do catolicismo tipo “é assim porque o momento de transição exige” , o Brasil tem os piores seres encarnados por isso temos tantas mazelas….”
    E por aí vai… Comecei a me sentir como no catolicismo que abandonei, justamente pelo culto personalista, e dogmas absurdos. Enfim como conseguimos distorcer tanto a codificação no que ela tem de maior o caráter evolutivo? O que está me parecendo pelo discurso que ouvi desses palestrantes e de vários espíritas da casa que frequento , me provocou arrepios , parecem as donas de casa e os clérigos que marcharam a favor da ditadura. O mesmo discurso e pra meu espanto a nova TFP. Se procurarem na internet encontrarão um site dito espírita que utilizam na página o mesmo slogan do ultadireitista candidato. SOCORRO!!!!!!;

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  15. Adriano Guedes disse:

    Excelente matéria! Parabenizo os idealizadores!

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  16. Analicia disse:

    Gostei dessas elucidações.

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  17. marcopollodutra@gmail.com disse:

    Concordo plenamente em repudiar veementemente as bestialidades proferidas por Divaldo Franco, pois somos seres pensantes e nao massa de manobra como acontece com os FALSOS pastores que estão assediando ao pessoal votar em Bolsonaro, só falta Divaldo pedir voto também para este facista.

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  18. Sérgio Victor disse:

    Parabenizo pela matéria muito bem escrita e pelos posicionamentos, a meu ver, muito coerentes sobre o episódio em questão. Este vídeo está sendo repassado nas redes sociais para, de certa forma, influenciar a decisão do voto nas eleições deste ano (2018). O que muito me preocupou foi o fato de um posicionamento particular do Divaldo acerca do momento atual da política se transformar numa posição da própria Doutrina Espírita, o que não é verdade. Espíritas desavisados e carecendo de estudo tomam como verdade tudo que os palestrantes endeusados dizem, não usando do senso crítico para separar o joio do trigo.

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  19. Sautchuk disse:

    Parabéns pela análise lúcida. Eu vi algumas declarações do tipo e fiquei muito indignada. Estou melhor em ver que há outros espíritas que também pensam como eu…

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  20. Alice disse:

    “ nem se vestir de menino ou menina, deixando que mais tarde ele-ela decida(…) Obviamente que esses extremos são absurdos “.
    Dora,
    Kardec menciona algo na sua doutrina infalível sobre a forma de meninOs e meninAs se vestirem??? Existe um protocolo pra isso? Estudos “meramente” antropológicos e históricos nos revelam que se deve a padrões culturais e sociais as indumentarias de cada povo e/ou grupo. Ou os seres superiores também tem a nos ensinar sobre o uso corretíssimo das vestes e adornos?

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  21. Sandra Unglert Fernandes disse:

    Parabéns, Dora Incontri. Bom, excelente saber que que o bom senso ainda existe no espiritismo. Falou o que eu necessitava escutar.

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  22. LEVI ACIOLI DE ARAUJO disse:

    Particularmente, reconheço que o Divaldo não foi feliz em citar o nome do Mouro, porem, também, reconheço, que ele fez isso bem intencionado, numa atitude de protesto contra a corrupção, que todos nós sabemos que a corrupção não é um privilégio do PT, nem de Lula, embora o fanatismo politico, oportunista quer fazer de Lula e do PT um “BODE EXPIATÓRIO” para iludirem a população despreparada par que eles igualmente corrutos, se passem por cidadãos e políticos honestos que se preocupam com o Brasil e seu povo, mas que sabemos que tudo é demagogia. Quanto a Ideologia de Gênero, como o papa Francisco denominou a proposta de realizar educação de gênero nas escolas, nos moldes que estão sendo aplicados em alguns países, e de forma ainda reduzida na Brasil ( Colégio D. Pedro II), é na realidade uma Ideologia, pois as teorias da filósofa e Mestre em Retórica Judith Butler, carece do uso do bom senso e de critérios científicos, pois é baseado num discurso Sofista, elaborado através de uma retórica falaciosa. A Judith usou a teoria fracassada de John Money, que era um psicólogo especializado em mudança de sexo. Ele acreditava que não era tanto a biologia que determinava se somos homens ou mulheres, mas a maneira como somos criados. Para provar a sua teoria ele usou como cobaia um menino de 17 meses de nascido que perdera o pênis numa cirurgia. Ele orientou aos pais que mudassem o nome do menino e o criasse como menina. No entanto o menino nunca aceitou as roupas de meninas, as rasgando, e nem os brinquedos de menina, os querendo brincar com os brinquedos de seu irmão. https://www.youtube.com/watch?v=tLDE2CNZlMY Uma educação de Gênero Verdadeira seria muito bem vinda, se o seu objetivo fosse acabar com os preconceitos de gênero, assim como o machismo , a homofobia, etc. Mas não é esse o propósito da teoria de Judith Butler, mas sim desconstruir a identidade do ser humano, a partir da 1ª infancia, onde crianças em tenra idade são doutrinadas com a ideia de que elas não sã meninas nem meninos, não sã alunos nem alunas, mas sim “meninex e alunex, um gênero neutro, Isso é uma grande violência psicológica para a mente infantil, pois se qualquer pessoa rememorar a sua infância vai se lembrar que desde o início do período escolar já possuía uma identidade e gênero sexual bem definida, negando a teoria de que ser homem ou mulher é uma construção social. https://www.youtube.com/watch?v=dNNz1hedKWo

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    • Carlos Valente disse:

      Você afirma que o Papa Francisco criou o neologismo “Ideologia de Gênero” (na verdade um neologismo político, nascido entre parlamentares de extrema direita católicos e protestantes).
      Peço o obséquio de indicar os fatos que embasam a sua afirmativa.
      Ademais, o referido neologismo, não tem NENHUMA base científica.

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  23. Jovelino Corrêa Amorim. disse:

    Excelentes colocações. Já havia observado esses comportamentos do líder espiritual quanto ao posicionamento sobre os macabros Moro e João Dórea.
    E lastimei muito. Melhor seria se ñ tivesse se pronunciado .
    Ele na verdade enquanto Divaldo, ñ detém os conhecimentos dos quais é vetor.

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