A polêmica da Gênese

gNesse ano em que se completa 150 anos do lançamento da primeira edição da Gênese, de Kardec, veio à tona o tema, como se fosse novidade, de uma possível adulteração dessa obra, entre a 4ª e 5ª edição.

Um vídeo feito de maneira bastante sensacionalista, que não apresenta nenhum fato novo, e discussões acaloradas nas redes sociais, deixam muito a desejar em relação à objetividade e cautela que deve ter um debate histórico, para se estabelecer fatos (se possível) e suas autorias (se possível). Na impossibilidade de verificarmos conclusivamente hipóteses e especulações, devemos deixar o assunto em aberto, até que surjam (se surgirem) novas evidências, que venham elucidar mais a questão.

Em breve, quando tivermos em mãos o livro que está sendo lançado por Simoni Privato, faremos uma análise mais minuciosa do assunto, para examinarmos se de fato ela acrescenta algo de novo ao debate, já bastante antigo.

Por enquanto, citamos a opinião de quem já pesquisou sobre o tema: Felipe Gonçalves, historiador; Sérgio Aleixo, escritor e pesquisador e Alexandre Rocha, editor do Instituto Lachâtre,

Felipe Gonçalves:

Algumas considerações sobre a 5ª edição de A Gênese

A polêmica envolvendo a 5ª edição da obra A Gênese não é nova. No início dos anos 2000, o escritor espírita Carlos de Brito Imbassahy levantou uma polêmica dentro do movimento espírita. Ele havia consultado a terceira edição da obra no original francês e constatou que haviam significativas diferenças entre ela e a tradução da FEB para o idioma português. A conclusão a que ele chegou, na época, era de que Guillon Ribeiro, tradutor da obra pela FEB, havia adulterado a obra de Allan Kardec. O caso ganhou repercussão nos informativos espíritas virtuais (principalmente no extinto site espírito.org) e nas redes sociais (sobretudo nos grupos de debates do Orkut).  Na época, a maior polêmica se deu por conta da supressão de um item que aparece nas 4 primeiras edições e não consta na 5ª edição. O suprimido item 67 tratava do desaparecimento do corpo físico de Jesus, o que contraria as teses de Jean-Baptiste Roustaing.  

Por volta de 2009, tomei contato com digitalizações de edições originais das obras de Allan Kardec, que começavam a ser disponibilizadas em bibliotecas virtuais. No mesmo período, também tomei contato com edições das revistas Revue Spirite e Le Spiritisme publicadas nos 80 do século XIX. As duas revistas publicaram debates e acusações envolvendo Henri Sausse, Desliens e Leymarie, onde se colocava em dúvida a autoria kardeciana da 5ª edição de A Gênese.

Munido desse material e motivado pelo interesse em desvendar o assunto, reuni-me com o espírita João Donha, do Paraná, e iniciamos uma minuciosa pesquisa. A primeira coisa que fizemos foi comparar as 4 primeiras edições da obra, publicadas por Kardec em 1868, e constatamos que elas eram idênticas.  Depois, passamos para a análise da 5ª edição, publicada em 1872 (após o desencarne de Allan Kardec), e apresentada pelos editores como revue, corrigée et augmentée (revista, corrigida e aumentada).  Ao analisar a obra, constatamos o que os editores anunciaram: a 5ª edição aparecia com muitas diferenças em relação às edições anteriores. Isso isentava Guillon Ribeiro das acusações precipitadas de Carlos Imbassahy. Mas, e quanto às alterações? Quem as teria feito? Mergulhamos de cabeça no assunto, consultamos diversas fontes do período, mas, na ausência de provas materiais que nos permitissem chegar à autoria das alterações, não pudemos chegar a uma conclusão.

Hoje, no ano em que comemoraremos os 150 anos da publicação de A Gênese, assisto estarrecido à espetacularização que alguns espíritas estão fazendo em torno do assunto. Criou-se um verdadeiro cenário de caça às bruxas, com acusações precipitadas, convicções apaixonadas e conspirações. Tal postura não contribui para a construção do conhecimento, tampouco para a realização de um debate sério, como o assunto exige. O conhecimento científico é construído através de metodologias adequadas e critérios bem definidos. E a consulta das fontes até aqui apresentadas não nos permite concluir se as alterações foram feitas por Bittard, Desliens, Leymarie, o próprio Allan Kardec ou outra pessoa. Até o presente momento, não é possível afirmar se as alterações foram adulterações. Do mesmo modo, os debates entre os espíritas do período também nada provam. Tais documentos não podem ser aceitos de maneira acrítica, como se representassem a verdade dos fatos. A historiografia contemporânea tem uma relação crítica e problematizadora com as fontes históricas. Diante dessa polêmica, creio ser importante recordar de uma máxima de Allan Kardec: “Na ausência dos fatos, a dúvida é a opinião do homem sensato.”

A quem interessar, os resultados da nossa pesquisa foram publicados pelo João Donha no ano de 2012 em seu blog: http://donhaespirita.blogspot.com.br/2012/05/linha-do-tempo-esclarece-edicoes-da.html.

Sérgio F. Aleixo:

Uma Antiga Polêmica

Restrinjo-me aqui à ausência, desde a 5 ed. de A Gênese, de um dos itens do seu cap. XV, que termina do n. 64 ao n. 68: Desaparecimento do corpo de Jesus.

Dispunha, já em 2009, de uma tradução da 4 ed. francesa, realizada aqui no Rio de Janeiro, pelo Centro Espírita Léon Denis, de 2008. 

Apenas comparando-a a um exemplar da Federação Espírita Brasileira, tradução da 5 ed. francesa, de imediato, observei que um item estava ausente no volume febiano, justo aquele contendo a hipótese de Kardec para o desaparecimento do corpo carnal de Jesus do túmulo em que fora posto: invisibilidade e transporte, caso afastada a de roubo clandestino, remetendo o leitor aos caps. IV e V de O Livro dos Médiuns.

Kardec modificava seus textos. Autores fazem isso. É normal. Segundo F. Barrera, no seu Resumo Analítico das Obras de Allan Kardec, a 4 ed. de A Gênese, impressa e publicada em 1869, conteria o texto definitivo, o qual teria sido revisado, corrigido e aumentado pelo autor. 

A morte de Kardec teria interrompido a distribuição dessa edição, que se teria verificado “uns meses mais tarde” sob a responsabilidade de Desliens, Bittard e Tailleur (Op. cit., Madras, 2003, p. 80/1).

Já em 1885, na Revista Espírita, talvez pressionado pelas polêmicas de 1883/84, Desliens asseverou que foi Kardec o autor de todas essas alterações. Desliens visava, desse modo, segundo suas palavras, “eliminar da família espírita uma causa de desunião”. (Op. cit., 15 de março, n. 6, ano 28, p. 171.)

Não creio que tudo foi alterado por Kardec. Pouco provável que ceifasse, por exemplo, esse n. 67 do cap. XV e renumerasse o n. 68 para 67. Explico-me. 

No seu Catálogo Racional de Obras para a Fundação de uma Biblioteca Espírita, do mesmo ano de 1869, Kardec referencia a obra de Roustaing e recomenda, pertinente ao assunto da natureza do corpo de Jesus, a leitura do cap. XV de A Gênese, citando a numeração: “ns. 64 a 68”. 

Portanto, não me parece que foi o mestre a se preocupar em suprimir o que já estava no n. 67 do cap. XV da 4 ed. de A Gênese daquele mesmo curto ano. Morreria em 31 de março.

Quem retirou, afinal, da quinta edição de A Gênese, esse n. 67 e renumerou o 68 para uma unidade a menos? Kardec? Repito: não creio. Mas que fatos, se possível, prevaleçam sobre quaisquer especulações em torno desta antiga polêmica. Na ausência deles, a prudência requer o benefício da dúvida antes de acusações terminantes a este ou àquele personagem.

Esbarrei no assunto pesquisando o cisma rustenista e, em 2009, no meu extinto blog O Primado de Kardec, mencionei o que venho de resumir. Tornou-se um livro de restrita edição no ano de 2011, em cujo cap. 9: Tradutor, traidor, constam este e outros casos curiosos. É provável que eu mesmo redisponibilize o acesso via internet.

Alexandre Rocha:

O item 67 é uma repetição do que já está implícito no 64 (que trata do desaparecimento do corpo de Jesus) e em outras partes da obra.
Como editor, sem dúvida acho que, pela importância da obra, mereceria uma nota de rodapé explicativa incluindo o texto retirado, mas de forma alguma isso denota adulteração. É muito mais facilmente explicado pela preocupação de Kardec com a concisão do texto.  Kardec se divide, em seus textos espiritas, entre o cultivo da concisão e a necessidade de ser claro e didático.

 

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3 respostas para A polêmica da Gênese

  1. Rodrigo Farias disse:

    Em toda essa polêmica, para além do interesse em torno das pessoas que sucederam Kardec na direção do movimento francês, não vi nada claro sobre que impacto real essa quinta edição teria tido. A tese de Roustaing, muito popular na FEB das primeiras décadas, é facilmente contestável com base na obra de Kardec, com ou sem o item 67 da Gênese. Parece mesmo tempestade em copo d’água. Talvez, porém, isso seja bom, porque um grande número de espíritas confunde “estudar espiritismo” com decorar trechos e passagens de livros, sem atenção ao contexto em que foram escritos e publicados, coisa que a controvérsia traz à baila.

    Um abraço,
    R.

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  2. Um Pesquisador disse:

    Como o assunto da presente pesquisa é novo, é de fato de muitos outros estudiosos e pesquisadores ficaram com um receio e preocupação, é sim um assunto um pouco delicado, muitos podem se espantar e causar um furor de se sentirem enganados de propósito e achar que a própria doutrina não tenha um valor. Por um lado reflete a uma geração de adeptos, simpatizantes e estudiosos que a estudaram, e depois um grande desafio das instituições, casas/centros, uniões e federações a reverem seus estudos. Há uma administração a ser feita, em divulgações, recolher ou rever tudo que foi divulgado, lançado e emitido. Há custos, tanto materiais e motivacionais. Então a um grande caminho a ser percorrido. Divulgando, esclarecendo e condizendo, o melhor a se fazer 🙂

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  3. LOURIVAL AUGUSTO DE SANTANA disse:

    Estudem o trabalho de pesquisa impecável da Simoni Privato, onde ela demonstra, com fatos irrecusáveis, que as modificações não foram tão poucas assim como defendem, aligeiradamente, os que não acreditam que houve alteração em A Gênese de Kardec. Ali está provado que as modificações ocorreram na 5ª ed. francesa, cujo registro legal consta na data de 23 de dezembro de 1872, mais de três anos depois do desencarne de Allan Kardec. Segundo a pesquisadora o registro da declaração de que se pretendia imprimir a obra foi feito, perante o Ministério do Interior, em 19 de dezembro de 1872 pela gráfica Rouge Frères, Dunon et Fresné . Ainda, segundo Simoni, Henry Sausse já havia identificado 126 passagens que foram modificadas e a autora refez essa pesquisa confirmando as alterações. Prá quem tem inteligência e racionalidade basta isto e não precisamos de mais argumentos especulativos, entretanto, ainda podemos fazer algumas considerações, por exemplo esta: Como Kardec depois de publicar mais uma tiragem da obra, a 4ª edição ( rigorosamente igual à primeira), cerca de um mês antes de seu desencarne, estando pessoalmente envolvido, como é sabido, com o extenuante trabalho de arrumar a mudança do acervo doutrinário para a Vila Ségur, para onde iria toda a estrutura do seu trabalho espírita, a SPEE, a Livraria, a Sociedade Parisiense – atividades essas bastantes estressantes e que, sem dúvidas, devem ter apressado o rompimento de seu aneurisma cerebral -, teria, ainda, de forma bem estranha ao seu temperamento racional e metódico, em apenas um mês, condições de apressar uma nova edição da obra, sendo que esta seria a mais importante, pois seria modificada em vários pontos, ficando então como a definitiva? Kardec que era o Bom Senso Encarnado, que maturava as coisas da Doutrina com paciência e calma, teria, praticamente sem informar ou dar publicidade do fato a pessoa alguma, esse açodamento incomum à sua personalidade? Todos esses fatos são desprezados pelos que não apoiam esse trabalho da Simoni Privato e desdenham afirmando ser um assunto “requentado”. Na história, quando não se tem medo da verdade, não se considera inútil o trabalho de arqueologia (desenterrar/requentar) do passado para se trazer, ao presente e ao futuro, mais luz.
    LOURIVAL AUGUSTO DE SANTANA

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