Nota pública da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita (ABPE)
Em pleno século XXI, com os avanços da ciência, dos direitos humanos e de uma ética centrada no cuidado, causa preocupação observar que setores do movimento espírita brasileiro têm se posicionado de forma a contrariar os fundamentos progressistas do pensamento de Allan Kardec.
A recente aproximação entre a Federação Espírita Brasileira (FEB) e a Associação Brasileira de Magistrados Espíritas (Abrame), em torno de temas como a criminalização do aborto legal, revela uma visão de mundo alinhada a perspectivas religiosas reacionárias e moralistas, distantes da proposta kardequiana de respeito ao livre-arbítrio, à razão e à justiça como expressões da caridade.
A redução no percentual dos autodeclarados espíritas no Brasil foi vertiginosa, segundo dados do Censo 2022. Malgrado a queda represente, em números absolutos, apenas 0,4%, em termos relativos, a diminuição é de quase 20%. Esse resultado retrata a posição ultraminoritária do Espiritismo no Brasil – e no mundo.
Diante disso, propomos brevíssimas reflexões sobre as causas que nos trouxeram até aqui e algumas ideias dos futuros possíveis – sem, obviamente, ter a pretensão de esgotar tema tão profundo:
I – Muito se falou que a queda foi apenas aparente. Nessa seara, é sabido que muitos seguidores da Umbanda e do Candomblé, por motivos diversos que não cabem nesse texto, se autodeclaravam como “espíritas”. O Censo 2022 apenas indicaria uma reversão dessa prática, revelando o real quantitativo de cada matriz religiosa. É uma possibilidade coerente, cujo impacto não pode ser descartado. E que bom que cada um possa ser livre para manifestar suas preferências.
Gosto de comentar acontecimentos políticos e sociais à luz dos pressupostos espíritas. Para mim, a doutrina espírita é um organismo vivo e dinâmico que vive em constante atualização. Por isso, requer de nós constante sintonia com o que vai pelo Brasil e o mundo. Assim, podemos contribuir, mesmo que timidamente, para que os leitores – sejam ou não espíritas – percebam que o espiritismo kardecista pode oferecer bem mais do que se supõe.
Foi com este pensamento que mergulhei no caso do humorista brasileiro Léo Lins. Em junho de 2025, ele foi condenado pela justiça a uma pena de pouco mais de oito anos de prisão e pagamento de vultosa multa por proferir piadas ofensivas a vários grupos sociais num show realizado em 2022 que foi filmado e acabou viralizando na internet. A sentença se deu com base nos crimes de racismo e discriminação generalizada, já que, como bem observou o jornalista Ricardo Mello nas redes sociais, Léo Lins praticamente gabaritou o Código Penal. Ofendeu negros, pessoas com deficiência variadas (nanismo, surdez etc.), soropositivos, mulheres, vítimas de pedofilia, imigrantes, crianças, pobres, idosos, indígenas, gente que desencarnou em tragédias… Foi um show de horrores, não um espetáculo de humor. O caso, contudo, ainda não está encerrado. Cabe recurso.
Como o suposto humorista roteirizou p próprio desempenho e não é nenhum inocente em matéria de direitos e deveres, sabia muito bem o que estava fazendo e correu o risco deliberado de disparar sua metralhadora depreciativa. Foi xenófobo, capacitista, homofóbico, racista, etarista, aporofóbico, misógino… Tudo isso de uma vez só.
Estava no auge, em todos os veículos de comunicação, o caso da cabeleireira paulista Débora Rodrigues dos Santos, condenada pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) a 14 anos de prisão. Motivo: nos atos terroristas de 8 de janeiro de 2023 ocorridos na Praça dos Três Poderes, em Brasília (DF), ela escreveu com batom a frase “Perdeu, mané” na estátua “A Justiça”, que fica em frente à sede do STF.
Débora, antes da sentença definitiva, proferida em maio de 2025, estava em prisão domiciliar. Antes, havia ficado dois anos numa penitenciária. O caso ganhou repercussão porque tentaram transformá-la numa espécie de musa (ou mártir) da extrema direita. Seus pares alegavam que ela nada depredou ou destruiu, tampouco invadiu prédios. Para eles, a condenação seria desproporcional.
À mesma época, num conhecido ponto de Petrópolis (RJ), onde moro, encontrei um deputado federal e um deputado estadual de um partido de esquerda. Como os conheço de eventos anteriores – dos quais participei representando o espiritismo progressista –, fui cumprimentá-los e também ao pessoal da comitiva. Ambos estavam na cidade justamente para um evento contra o projeto de lei de anistia para os presos do 8 de janeiro.
Sempre gostei do Natal e nunca deixo de escrever um poema ou um texto para celebrar a data. Não que me aprazam o comércio, Papai Noel e saber que muitos não terão qualquer presente ou mesmo o que comer. Gosto pela tentativa – muitas vezes frustrada – de união de família, de aconchego dos afetos; gosto do impulso solidário e caritativo que as pessoas tendem a demonstrar nesta data e que bem poderia se estender pelo ano todo e, sobretudo, me conforta a busca minha e de alguns de maior conexão com Jesus.
Não que acredite na historinha da manjedoura, dos reis magos, da estrela de Belém, dos pastores… é um símbolo lindo, cheio de significados, reinventado por Francisquinho de Assis no presépio que montamos por aí. Jesus nasceu em Nazaré, filho carnal de Maria e José, no meio de muitos irmãos, numa família pobre, operária, num lugar pequeno e inexpressivo, mas que ficou marcado na história pela irradiação de sua luz.
Recebi de um amigo espírita progressista, por uma rede social, um link de acesso a um vídeo de uma instituição espírita. Nessa postagem, um menino de aproximadamente 10 anos recitava não um poema, mas um texto (talvez decorado) com as costumeiras críticas que os espíritas fazem ao carnaval. Tratava-se de uma narrativa dentro dos padrões conservadores, que atribuem ao carnaval toda sorte de desequilíbrios espirituais. Detalhe: o menino era negro.
Incomodado com o que acabara de assistir, compartilhei o vídeo com diversos amigos espíritas igualmente progressistas e constatei que não fui o único a não gostar da publicação. Voltei, então, ao perfil da instituição e postei, nos comentários, uma crítica construtiva. Disse que deveríamos ter cuidado com os argumentos então apresentados porque, hoje em dia, devido ao progresso que temos vivido no tocante às questões raciais, as reprovações apresentadas tinham nome: racismo religioso. Acrescentei que a questão se tornava mais grave pelo fato de o texto estar sendo dito por um garotinho negro, ou seja, alguém que desconhece a história da África, bem como a própria ancestralidade. Afinal, o carnaval, principalmente no tocante aos desfiles das escolas de samba, é uma forte manifestação da cultura africana e sua resistência ante os vários embates que travou (e ainda trava) para vencer preconceitos. Foi um comentário fora da curva, já que a maioria deles dizia que o menino era uma gracinha, que demonstrava maturidade apesar da pouca idade, que era lindo ver uma criança dizendo um texto tão complexo etc.
Corria o ano de 2020, época em que o mundo se via às voltas com a epidemia de Covid-19. No Brasil, além dos cuidados necessários ao tipo de situação, tivemos de lidar com um governo tosco, que espalhou fake news sobre a eficácia das vacinas, divulgou um medicamento inócuo no combate ao vírus e retardou o início da imunização vacinal da população, o que resultou em milhares de mortes além do tolerável. Manaus, que viu centenas de seus habitantes perecerem, que o diga. A capital do Amazonas, como todos devem se recordar, foi a que mais teve vítimas fatais da Covid-19.
À mesma época, o médium e expositor baiano Divaldo Pereira Franco, então com 93 anos, precisou passar por uma intervenção cirúrgica. Uma semana depois, já estava recuperado. Foi quando um conhecido repórter fotográfico do movimento espírita do RJ postou, em uma rede social, a foto do referido médium sentado à mesa de trabalho e com a seguinte legenda: “A foto do ano. INACREDITÁVEL, Divaldo trabalhando uma semana após a cirurgia. Agradecendo a Deus por ele estar se recuperando bem. Di, nós te AMAMOS!”
Incomodado com o que havia lido, enviei para o fotógrafo uma mensagem particular. Nela, argumentei que inacreditáveis, a meu ver, eram os então mais de 100 mil mortos pela pandemia, a injustiça social, o racismo, a homofobia e o fato de Divaldo e o movimento espírita dito oficial fazerem vista grossa para essas questões. Disse, ainda, que achava repugnante esse tipo de bajulação.
Escrevo este texto a pedido Dora Incontri após eu ter observado alguma semelhança entre as “ideias e práticas pedagógicas” de Eurípedes Barsanulfo (1880-1918) e a construção de conhecimento dos povos indígenas do Brasil. Tentarei demonstrar algumas destas semelhanças a seguir:
Barsanulfo, professor, jornalista e político mineiro, fundou o colégio Allan Kardec e ministrou aulas utilizando práticas pedagógicas centradas nos alunos, estimulando nestes, a liberdade e a vontade de conhecer. Desta prática, as aulas passeio marcaram a memória dos estudantes do colégio, pois segundo os próprios alunos, as crianças adoravam sair da escola para passear e aprender. Entre os indivíduos que estudaram no colégio, Novelino e Germano, contam que Eurípedes considerava as aulas passeio fundamentais ao processo de ensino-aprendizagem, pois eram oportunidades de conhecimento, curiosidade, socialização, observação, conversas e debates.
A recente e injusta perseguição ao deputado Glauber Braga, com a ameaça de sua cassação política me leva a propor uma questão crucial, filosófica, política, social… Por que um certo deputado, numa cena dantesca no Congresso Nacional, num golpe contra uma mulher honesta, citou e elogiou o torturador desta mulher, e não foi cassado – como deveria por lei por fazer apologia à tortura – e recebeu uma cusparada indignada de um Jean Wyllys, que teve depois que se exilar? Esse dito deputado, de quem nunca cito nome, tornou-se depois presidente do Brasil, responsável por milhares de mortes durante a pandemia, por sua negação da vacina, envolvido com roubo de joias e tentativa de golpe de Estado e continua livre e solto por aí… enquanto Glauber, um deputado que luta por boas causas populares, de peito aberto, ao lado de sua companheira, a também deputada Sâmia Bomfim, está para ser expulso desse mesmo Congresso?
Por que um Sócrates foi condenado a beber cicuta, Jesus foi crucificado, Gandhi, Martin Luther King e Malcolm X foram baleados e tantos trastes continuaram semeando suas injustiças mundo afora?
Tenho sempre defendido nessa coluna o exercício de uma espiritualidade crítica, que possa preservar a nossa conexão com o transcendente, mas nos livre das opressões e repressões que se praticam aos quatro ventos das religiões. Pois acaba de ser lançado um livro indispensável para este debate: Abuso espiritual – a manipulação invisível de Gabriel Perissé, pela Editora Paulus.
O autor, amigo de longa data, tem doutorado em Filosofia da Educação pela USP e em Teologia pela PUC-RS, entre outras titulações, e é escritor de muitas obras sobre educação, espiritualidade e literatura. Com um estilo refinado e saboroso e um raro alcance erudito, consegue dar nesta obra uma contribuição muito oportuna.
Nesse programa da série Semeando Espiritualidades, Diálogo e Crítica, Dora Incontri e Mauricio Zanolini conversam com o frei carmelita Gilvander Moreira sobre sua atuação na Pastoral da Terra, sua relação pessoal com as lutas camponesas e a volta da Igreja à opção pelos pobres.
Nesse programa da série Semeando Espiritualidades, Diálogo e Crítica, Dora Incontri e Mauricio Zanolini conversam sobre os principais conceitos da Pedagogia Espírita e a relação entre espiritualidade e educação. Link para se inscrever na nova turma do curso de Pós em Pedagogia Espírita – https://www.universidadelivrepampedia.com/2022-p%C3%B3s-ped-espirita
Nesse programa da série Semeando Espiritualidades, Diálogo e Crítica, Dora Incontri e Mauricio Zanolini conversam com a educadora popular Moema Viezzer sobre o seu livro Abya Yala, que fala sobre o genocídio dos povos originários das Américas e a resistência da visão de mundo desses povos que se apresenta hoje como uma alternativa às crises […]
Nesse programa da série Semeando Espiritualidades, Diálogo e Crítica, Dora Incontri e Mauricio Zanolini conversam com o professor Márcio de Jagum sobre o candomblé, oralidade, o sincretismo como uma característica humana universal, e a dessincretização como forma de estudar as tradições espirituais.
Nesse programa da série Semeando Espiritualidades, Diálogo e Crítica, Dora Incontri e Mauricio Zanolini conversam sobre algumas ideias do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos a respeito do capitalismo, o colonialismo e o patriarcado.