O necessário, o supérfluo e o desperdício

DesperdicioComida

Na edição 2019 do programa de competição culinária Masterchef Brasil, a chef Paola Carosella, uma das juradas, ao passar pela bancada de um participante, observou que ele havia desperdiçado grande quantidade de alimento para produzir o prato solicitado. Havia, portanto, muita carne, legumes etc. que o competidor simplesmente jogara fora para compor um prato com uma quantidade bem menor dos ingredientes. Aborrecida, Paola passou uma descompostura no rapaz. Segundo ela, era um acinte ele ter desperdiçado tanta comida fresca e de boa qualidade enquanto muitos passam necessidade. Mesmo porque, para elaborar um prato de restaurante, um chef que se preza jamais inutilizaria o tanto de comida que ele descartou. Paola, então, com a anuência dos outros dois chefs jurados, disse que, da próxima vez que ele agisse daquela forma, seria sumariamente desclassificado. Afinal, o alimento merece respeito! Continuar lendo

Publicado em Espiritismo e Sociedade, FOME - Marcelo Teixeira | Marcado com , , , , , , , | 1 Comentário

Empatia e insegurança alimentar

Activated_Nutrients_5_Ways_to_Stomp_on_Snack_Cravings_1024x1024

Era um dia 7 de janeiro, bem me recordo. Aproveitei que estava de férias do trabalho para ir à Cidade Maravilhosa visitar algumas agências e mostrar meu portfólio. Estava em busca de uma nova colocação na área de publicidade, colocação que eu conseguiria tempos depois (eu ainda não cursava jornalismo). Eu havia marcado visita em quatro agências, todas na Zona Sul carioca. Acordei cedo, tomei café da manhã e embarquei no ônibus rumo ao Rio de Janeiro. Continuar lendo

Publicado em Espiritismo e Sociedade, FOME - Marcelo Teixeira | Marcado com , , , , , , , , | Deixe um comentário

Fome, sistema econômico e exclusão

O filósofo, professor e escritor Mário Sérgio Cortella, em palestra gravada em vídeo no ano de 2019, narra um episódio ocorrido 30 anos antes entre ele, alguns colegas e dois caciques da tribo xavante, que estavam visitando a cidade de São Paulo pela primeira vez. O primeiro local da visita era o Mercado Municipal, onde os clientes e visitantes encontram uma variada gama de frutas, verduras, legumes, importados, massas, peixes, aves, frutos do mar, doces variados… Uma abundância de comida num prédio histórico de 12.600m² que também abriga um espaço gastronômico no qual se pode provar variadas iguarias. O objetivo de Cortella e equipe era mostrar aos dois índios algo que eles nunca haviam visto: comida acumulada. Afinal, índios não estocam comida. Eles plantam, colhem, caçam e pescam.

Continuar lendo

Publicado em Espiritismo e Sociedade, FOME - Marcelo Teixeira | Marcado com , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Nota dos Espíritas Progressistas ante a crise institucional brasileira

Vidas Perdidas

foto Gastão Cassel – EàE-SC

A sociedade brasileira vive um momento de crise aguda, uma crise que afeta gravemente a saúde e o emprego do seu povo, além do meio ambiente onde vive. A fome se alastra e a violência ameaça todos e, em especial, os mais vulneráveis. Esse seria, pois, o momento em que os poderes instituídos pela Constituição Federal de 1988 deveriam unir esforços no sentido de superar tamanha crise social e econômica. Entretanto, o que se viu e ainda se vê nesse período de longa pandemia é o Poder Executivo federal caminhar no sentido oposto ao que é necessário e urgente, abdicando de seu papel de buscar soluções, para, ao invés, transgredir leis e ameaçar uma sociedade já tão fragilizada pelo momento tormentoso que passa e com o luto coletivo em que está mergulhada.

Continuar lendo

Publicado em Espiritismo e Sociedade | Marcado com , , , , , , , , , | 4 Comentários

O orgulho gay e o orgulho espírita

5977547O dia 28 de junho é celebrado como o Dia Mundial do Orgulho LGBTQIA+. Vou utilizar a expressão orgulho gay para facilitar a escrita, mas farei um adendo, ao final, com a definição da sigla. Continuar lendo

Publicado em Movimento Espírita | Marcado com , , , , , , | 2 Comentários

Sobre fomes, apetites, desesperos e gulodices

Há alguns anos, dois amigos de movimento espírita se casaram. A cerimônia foi no sítio da família do noivo, em uma cidade distante cerca de 100km de Petrópolis (RJ), onde moro. Decidimos fretar um ônibus. Assim, todos os convidados da Cidade Imperial iriam juntos. E chegariam com mais segurança ao local, já que nem todos conhecem a cidade, e o sítio está situado na zona rural. A família da noiva é de Petrópolis; a do noivo, de outra cidade vizinha. E havia também convidados de outras cidades, inclusive da capital.  

Continuar lendo

Publicado em Espiritismo e Sociedade, FOME - Marcelo Teixeira | Marcado com , , , , , | 1 Comentário

Comida e egoísmo

Em um artigo escrito anteriormente (“Nem pera, nem uva, nem maçã”), prometi que voltaria a tratar do assunto comida/fome. Eis-me aqui novamente.

Continuar lendo

Publicado em Espiritismo e Sociedade, FOME - Marcelo Teixeira | Marcado com , , , , , , | 1 Comentário

Nem pera, nem uva, nem maçã

Salviano, amigo de uma tia minha, é motorista de ônibus aposentado. Mesmo assim, ainda trabalha. Adélia, esposa dele, é cozinheira de mão cheia. Para reforçar o orçamento doméstico e ajudar a pagar a faculdade do filho caçula, ela já fez sorvete, empadão e afins. Atualmente, cozinha e entrega refeições prontas. Todos os dias, quatro opções de pratos, além de guarnições e bebidas.

Continuar lendo

Publicado em Espiritismo e Sociedade, FOME - Marcelo Teixeira | Marcado com , , , , , , , | 4 Comentários

Escravagismo visceral

A 21ª edição do programa “Big Brother Brasil” (BBB – TV Globo, 2021) levou ao ar, em uma das competições, uma cena que bem evidencia o título deste artigo. Os participantes selecionados para uma das diversas provas tinham de abrir portas de armários de cozinha. Quem abrisse a porta correta, ganhava um prêmio e escapava do temido paredão. Por mais de uma vez, o apresentador do programa teve de chamar a atenção de um dos competidores. Motivo: ele não fechava as portas que escolhera abrir. Ao ser advertido pela terceira vez, o rapaz – um galalau de corpo sarado, 26 anos –, disse, de forma sorridente e despretensiosa, que tinha esse hábito em casa. Trocando em miúdos: no dia a dia, ele abre o armário para pegar, por exemplo, uma lata de leite em pó e não o fecha. Isso quer dizer que o armário fica com uma porta aberta e quem quiser que a feche. Em geral, a empregada ou, na ausência dela, aquela serviçal popularmente conhecida como mãe. Ele é o barão; a genitora, avó ou similar é a escrava, que sai arrumando a desordem por ele deixada.

Já falei sobre a escravidão arraigada na alma do brasileiro em outros artigos. Mas sempre me vejo no dever de voltar ao assunto, pois, em minha modesta opinião, ele é algo que nos infelicita como nação e impede saltos qualitativos em áreas como educação, mercado de trabalho, direitos sociais, vivência cotidiana etc.

Continuar lendo

Publicado em Espiritismo e Sociedade, Movimento Espírita | Marcado com , , , , , , | Deixe um comentário

Convocação aos espíritas pelo diálogo!

Mãos unidas

Um dos propósitos que norteiam a Associação Brasileira de Pedagogia Espírita é o diálogo inter-religioso, o diálogo com outras filosofias, sejam espiritualistas ou materialistas, sem perda da identidade de um espiritismo kardecista livre – conforme já expusemos num manifesto publicado aqui em fevereiro de 2019.

Esse diálogo requer uma arte de empatia, respeito e reconhecimento de valor no outro e ao mesmo tempo, a preservação de um espírito crítico (não demolidor) em relação a qualquer corrente de pensamento, incluindo a nossa. Perder a mão nesse caminho é algo muito fácil, quando nos afastamos da fraternidade e nos deixamos incendiar por paixões avassaladoras.

Mas tenho observado que o mais difícil é manter o diálogo entre nós mesmos – entre aqueles mesmos que se dizem espíritas kardecistas. E quero tecer algumas reflexões em torno desse delicado tema.

Desde o manifesto de 2019, entre os próprios que assinaram aquele manifesto, já houve brigas, cancelamentos, mágoas, raivas e toda espécie de negação de diálogo construtivo. Um dia desses, entrevistando o querido frade franciscano Volney Berkenbrock, em nosso programa Semeando Espiritualidades: Diálogo e Crítica, ele nos apresentava uma ideia interessante: é mais fácil dialogar com o outro mais distante, mais diferente de nós, do que com o que é nosso, está próximo, faz adesão à mesma corrente e pensa diferente. Dizia ele isso para explicar por que católicos progressistas, por exemplo, dialogam com tanta empatia com adeptos das religiões afro-brasileiras ou com budistas e taoístas, mas se esquivam de um encontro com espíritas kardecistas. Para o Frei, e concordei com ele, sendo o espiritismo uma releitura do cristianismo, ele é visto muito mais como uma heresia, do que como outra tradição, que deve ser respeitada.

Para mim, há outros fatores também, que não cabem aqui. Mas sim, na medida em que Kardec destrona Lúcifer, torna os diabos simples seres humanos desencarnados e em estado de sofrimento e endurecimento, considera Jesus não o próprio Deus encarnado, mas um Espírito que nos serve de modelo e guia, que confronta a eternidade das penas e propõe a reencarnação, ele está re-explicando o cristianismo, confrontando dogmas fundamentais, dentro da própria tradição greco-judaico-cristã – porque o espiritismo, sim, está dentro dessa tradição histórica. Compreende-se então o que falou o frei.

Em nosso caso, dos espíritas kardecistas, teríamos que rever posições intolerantes e extremadas, para mantermos um mínimo de fraternidade, colaboração e respeito à diversidade. Senão, tanto criticamos o movimento espírita institucional hegemônico, leia-se FEB e afins – com quem também, na medida do possível, devemos tentar um diálogo (não submisso e acrítico, mas humanamente amistoso), e acabamos por agir como os mais autoritários, impedindo a livre manifestação do pensamento de cada um.

Entendamos que sempre haverá diferenças entre os que mais pensam igual – e ótimo que assim seja, isso é enriquecedor e fecundo e jamais poderemos fugir de nossa subjetividade.

Quero citar aqui algumas diferenças aceitáveis e o que realmente não podemos aceitar como espíritas – seja de que tendência que nos consideremos.

  • Se há espíritas roustainguistas e kardecistas, podemos discutir à vontade as teses de Roustaing e criticá-las (se assim quisermos e acharmos importante, eu particularmente acho relevante, porque o roustainguismo teve um papel histórico importante no sincretismo do espiritismo com o catolicismo no Brasil). Mas nem por isso, não há coisas fundamentais que nos unam, como a reencarnação, a mediunidade e, sobretudo a Ética da fraternidade universal. Por isso, posso discutir até a morte o roustainguismo, mas quem aceita Roustaing não é meu adversário…
  • Há quem aceite que o espiritismo seja uma revisão, uma releitura, uma reafirmação do cristianismo e outros que falam de um espiritismo laico. Estou entre aqueles que afirmam o espiritismo como um resgate de um cristianismo que foi reprimido historicamente. Kardec bateu insistentemente na tecla de que o espiritismo não é religião, mas escreveu O Evangelho segundo o Espiritismo e usa o termo espírita-cristão. Ao mesmo tempo, no próprio Evangelho, anuncia que o espírita poderia pertencer a qualquer culto que quisesse. Então, há espaço para diferentes interpretações do próprio Kardec. Por que nos combatermos mutuamente, ao invés de debatermos civilizadamente? Recentemente, numa live com Jon Aizpurua, um queridíssimo amigo e liderança internacional do espiritismo laico (termo que nunca me convenceu), chegamos a um conceito que nos agradou mutuamente: de que o espiritismo é uma forma de espiritualidade livre. Como se vê, o diálogo encontra pontes. Dentro desse âmbito, quem quiser comemorar Natal e Páscoa ressignificando-os espiritamente, que comemore, quem não quiser, não comemore. Quem quiser orar a Maria (como podemos orar a qualquer Espírito elevado) que ore, quem não quiser nem orar, não ore! E que ninguém se incomode com essas questões de foro íntimo de cada um.
  • Nesses últimos anos, a maior ruptura que tivemos no movimento espírita, como de resto em toda a sociedade brasileira, é em relação aos bolsonaristas espíritas. Veja-se que aí não é mais uma questão doutrinária, de detalhes, de briga por palavras ou conceitos. Mas o bolsonarismo fere os princípios éticos básicos do espiritismo. E não só do espiritismo, mas do cristianismo, do budismo, das religiões afro… de uma ética laica, da própria civilização. É simplesmente a barbárie! E estamos testemunhando aonde nos levou essa barbárie: mais de 300 mil mortos por Covid-19 no Brasil. Na medida em que seu líder defende tortura, morte, anulamento do adversário, misoginia, negacionismo científico, homofobia, racismo, armamento da população, ele está completamente fora da moralidade básica de qualquer pessoa racional, saudável psiquicamente, seja espírita ou não. Compreende-se assim que devamos repudiar, criticar, lamentar espíritas que se alinham ao bolsonarismo – e infelizmente foram muitos. Mas não odiá-los, porque não vamos nos igualar a eles em nenhum discurso de ódio.
  • Por conta justamente desse retrocesso experimentado no Brasil, desde o golpe de 2016, e a decepção de muitos espíritas com dirigentes e médiuns bolsonaristas, surgiram inúmeros coletivos, lideranças novas, grupos, que vieram fazer coro a uma visão que a ABPE já cultivava desde o seu início em 2004 – aliás, já antes com a Editora Comenius: uma visão progressista, social e à esquerda do espiritismo, como, pensamos, ele realmente é. Só para lembrar, o último Congresso Brasileiro de Pedagogia Espírita e Internacional de Educação e Espiritualidade, tivemos o tema: Educação, Espiritualidade e Transformação Social. Mas… assim como as esquerdas brigam, se fendem, se combatem, também essa atitude de intolerância e cancelamento já atingiu as fileiras dos espíritas progressistas. Muitos acham que para ser progressista e de esquerda, devemos seguir as cartilhas que cada grupo ou indivíduo seguem. Primeiramente, esses movimentos não poderiam nunca se partidarizar, porque quando discutimos política e sociedade no movimento espírita, devem ser debates teóricos, ações práticas de atuação social, mas jamais a propaganda de um partido ou de uma liderança, embora individualmente, cada qual tenha o direito de ter suas preferências. Dentro de um diálogo da esquerda espírita, cabem sociais-democratas, socialistas, marxistas, anarquistas, partidários da cultura da paz, partidários de pautas identitárias e aqueles que não consideram essas pautas prioritárias no momento… enfim, há espaço para todos, todas e todes (como querem alguns – para mim, me dói ferir a língua, embora é claro, repudio muito mais ferir os corpos). Tudo isso seria possível, se houvesse menos paixão, menos arrebatamento e menos desejo de sermos sempre os únicos donos da verdade.

O desafio, portanto – e isso se estenderia a vários outros temas, como Chico Xavier, Emmanuel, Pietro Ubaldi e ao próprio Kardec, nossa grande referência – é manter o espírito crítico, atualizado, mas equilibrado, preciso, sóbrio, sem arrebatamentos destruidores, sem cancelar quem pensa diferente e colhendo o que é bom no meio de equívocos. Assim agia Kardec, que nunca perdia a classe, tinha um fino espírito de ironia crítica, mas jamais usou as armas do ódio e da destruição do outro. Fraternidade, empatia, diálogo construtivo, argumentativo – essas devem ser as posturas de um espírita.

Publicado em ética, Cristianismo, Espiritismo e Sociedade, Filosofia Espírita | Marcado com , , , , | 7 Comentários