Por Lindemberg Macena

1. Introdução: o enigma do fascínio destrutivo
A história humana é marcada, de forma recorrente e traumática, por explosões de violência sistemática e de extermínio em massa. Guerras, genocídios, massacres e formas persistentes de violência, como o feminicídio, impõem uma questão filosófica e psicológica incômoda: por que a destruição do outro exerce um fascínio tão poderoso sobre indivíduos e coletividades? Essa atração pelo mal, longe de ser um atributo exclusivo de monstros ou psicopatas, muitas vezes emerge em contextos de normalidade aparente, envolvendo pessoas comuns em maquinários de horror. É neste terreno paradoxal que o conceito seminal de Hannah Arendt, a “banalidade do mal”, se torna fundamental. Desenvolvido a partir de sua cobertura do julgamento de Adolf Eichmann, o burocrata nazista, o termo propõe uma reviravolta na compreensão da maldade: seu perigo maior não estaria na radicalidade satânica, mas na trivialidade, na irreflexão e na incapacidade de pensar a partir da perspectiva do outro.
Este breve artigo propõe um diálogo interdisciplinar entre a filosofia política arendtiana e as lentes interpretativas da psicanálise, sem a pretensão de apresentar uma verdade absoluta. Partindo da análise arendtiana, que enfatiza a dimensão política, ética e fenomenológica do mal, conectamos suas reflexões com os insights sobre a destrutividade oriundos da obra de Sigmund Freud, particularmente sua teoria das pulsões, e de Carl Gustav Jung, com seus conceitos de sombra, inconsciente coletivo e complexos culturais. A hipótese central é que o fascínio pelo mal pode ser compreendido de maneira mais plena na intersecção entre a falta de pensamento e de reflexão (Arendt), a força da pulsão de morte (Freud) e a atuação de complexos culturais traumáticos (Jung). Enquanto Arendt descreve o “como” do mal burocrático e irrefletido, a psicanálise investiga os “porquês” profundos, as motivações inconscientes que alimentam a violência individual e coletiva.
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