Um livro de história do Espiritismo de Carlos Seth

41UaqUPI6nL

Li em dois dias o livro recém lançado Espíritos sob Investigação – Resgatando parte da história, de Carlos Seth Bastos (Edição de CCDPE – ECM), curiosíssima para saber do resultado, que já havia acompanhado parcialmente na página do Facebook CSI – Imagens e Registros Históricos do Espiritismo e nas próprias fontes que estão sendo publicadas no Projeto Allan Kardec (pela UFJF), Allan Kardec on-line e outros…

Por conta desse meu interesse constante de saber como andam as pesquisas históricas em torno de Kardec, com documentos inéditos, que a cada dia vêm enriquecer nosso conhecimento da trajetória do mestre e do próprio espiritismo, o livro não apresentou grandes novidades. Mesmo assim, trouxe informações que eu desconhecia e, mais do que tudo, alinhavou de maneira sistemática as evidências documentais que temos até aqui de diversos fatos da época de Rivail, depois de Kardec e dos acontecimentos depois de sua morte.

A obra também organiza o que sabemos sobre os médiuns que trabalharam no início e durante a constituição do espiritismo, trazendo pesquisas sobre suas biografias, suas contribuições e, muitas vezes, sobre suas deserções…

A qualidade maior dessa obra é traçar de maneira clara e inequívoca o que temos de informações documentadas, desmentindo lendas, teorias conspiratórias infundadas e limpando assim o terreno histórico do espiritismo, para pavimentá-lo de evidências documentais, deixando em suspenso o que ainda não pode ser confirmado.

Carlos Seth Bastos faz tudo isso de maneira desapaixonada, sem julgamentos morais dos personagens envolvidos, sem transformar toda a história numa batalha dramática entre o bem e o mal. Sem sensacionalismo, portanto, atendo-se aos fatos e aos documentos que os demonstram.

Trata-se de uma história bem humana: médiuns, pesquisadores, e o próprio Kardec (sem dúvida o mais elevado entre todos) e mesmo os espíritos – todos com suas limitações, contextos pessoais e históricos, com suas boas intenções, com sua maior ou menor integridade na busca da verdade. Alguns misturando mais, outros menos, interesses pessoais, vaidades, paixões nas suas vivências espíritas.

Nesse quadro, espanta-nos a quantidade de deserções, traições, oposições, que Kardec teve de enfrentar – ele mesmo testemunha isso em Obras Póstumas, dizendo que a Sociedade de Estudos Espíritas de Paris havia sido sempre um ninho de intriga. Fora isso – e as suas cartas desde a época de Rivail também falam disso – as dificuldades financeiras, o trabalho excessivo e os problemas de saúde que o acompanharam vida afora. E, no entanto, não vemos nele nenhum rancor, nenhuma tendência a desistir. Ao invés, o devotamento, a abnegação, o absoluto desinteresse pessoal e a grande benevolência para com todos dão conta do grau de elevação desse espírito, incumbido de uma grande tarefa espiritual – coisa aliás, que muitos espíritas, de sua e ainda de nossa época, não são capazes de reconhecer. Esse reconhecimento não significa idolatria, deixando de exercitarmos a crítica histórica, quando necessária, para apontar aquilo que Kardec não conseguiu transcender em relação ao seu condicionamento cultural, de um homem branco, francês, do século XIX.

A figura que se destaca sem os exageros tenebrosos – com que alguns de seus contemporâneos o descreveram e outros continuam descrevendo, como “o coveiro do espiritismo” – é Pierre- Gaëtan Leymarie. Certamente, alguém que amava Kardec e o espiritismo, mas muitas vezes ingênuo, ambíguo, confuso – talvez algumas vezes movido por vaidade e interesses pessoais, mas idealista também, capaz de voltar atrás em seus equívocos e escrever coisas sensatas, como muitas das citadas por Seth. Enfim… um ser humano com seus erros e acertos.

Tirar a história desse maniqueísmo entre “os bons e os maus”, “os fieis e os traidores” é um exercício importante, certamente aprovado por um mestre do quilate de Kardec, e bem mais de acordo com a filosofia espírita, que aponta que estamos todos em processo de aprendizagem, com nossos tropeços e ascensões e que o próprio erro faz parte natural desse processo.

Em outras histórias de grandes ideias, temos exatamente o que aconteceu com o espiritismo nascente: dissensões, rupturas, contendas sobre os rumos do movimento. Assim foi com o próprio cristianismo, com o movimento franciscano, com a psicanálise… O mundo ainda é o reinado da opinião, posta com discursos apaixonados e muitas vezes fanáticos.

Demonstram estar mais próximos da verdade (embora a verdade nossa seja sempre limitada e relativa) os que usam de maior racionalidade, apresentam argumentos e evidências e são capazes de debater com respeito e civilidade.

Nesse sentido, o livro Espíritos sob Investigação – Resgatando parte da história se mantém nesse diapasão e, por isso, contribui construtivamente para o debate histórico do espiritismo. Longe de fechar todas as questões, deixa muitas em aberto, porque outros documentos poderão ser encontrados e apontarem para cenários que ainda não entendemos completamente.

A única coisa que poderia ser melhorada numa próxima edição, são alguns poucos parágrafos que não ficaram suficientemente claros em sua redação, também pela quantidade de informações neles contidas.

De resto, uma obra muito importante para ser lida.

Publicidade
Esse post foi publicado em Espiritismo e Sociedade, Filosofia Espírita, Movimento Espírita e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s