Divaldo Franco e a cara do movimento espírita brasileiro

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“Oi, amigo. Lamento, mas não estou lendo esse tipo de material.”

Estava começando a pensar de onde partiria para escrever este artigo quando recebi a mensagem acima transcrita, vinda de uma pessoa espírita conhecida minha. Havia enviado para ela e muitos outros amigos de ideal alguns textos criticando a homenagem que o médium e tribuno baiano Divaldo Pereira Franco recebeu do atual presidente da República, Jair Bolsonaro. Divaldo, no início de julho de 2022, foi agraciado com uma comenda em honra ao trabalho social por ele desenvolvido.

Eu e muitos outros companheiros de doutrina espírita (sim, somos muitos) jamais aceitaríamos algo semelhante vindo de um presidente que é pródigo em desrespeitar a vida com declarações escancaradamente machistas, homofóbicas, racistas e misóginas. Um presidente que tem, como ídolo, um torturador; vive fazendo ‘arminha’ com as mãos e, por tabela, incentiva a população a andar armada. Um presidente cuja postura violenta abriu a porteira para desmatamentos, garimpo ilegal, assassinato da população negra, truculência policial, feminicídios e perseguição aos povos originários. Um presidente, por fim, que, ao negar a ciência, atrasou o início da vacinação contra a Covid (o que poderia ter evitado milhares de mortes), declarou não ser coveiro quando questionado sobre o alto índice de óbitos e, suprema crueldade, imitou um paciente com falta de ar à época em que a cidade de Manaus, um dos epicentros da pandemia, sofria com a falta de oxigênio.

A doutrina espírita, organizada e divulgada por Allan Kardec em meados do Século XIX, na França, explica os ensinamentos de Jesus à luz da imortalidade da alma. Isso abre um leque enorme de conhecimento e de responsabilidades para quem estuda e divulga o espiritismo. Afinal, por meio dele, sabemos que somos espíritos imortais presos temporariamente a um corpo material e que reencarnaremos na Terra quantas vezes for necessário. Motivos: desenvolvermos potencialidades, acertarmos as contas com eventuais desafetos de vidas passadas, superarmos imperfeições e, por conseguinte, ajudarmos no progresso dos nossos irmãos em humanidade e também no do planeta. Isso significa lutarmos para sermos pessoas melhores, bem como sermos participativos no que tange à construção de uma sociedade onde haja trabalho, saúde, educação, moradia e salários dignos para todos, independentemente de sexo, etnia, orientação sexual, classe social ou credo religioso. Estou falando de justiça social ampla, geral e irrestrita. Sem ela, estaremos, reencarnação após reencarnação, às voltas com as mazelas de sempre, principalmente se insistirmos em repetir padrões comportamentais que já deveriam estar superados. Daí o espanto de muitos espiritas ao verem um dos mais badalados representantes do espiritismo no país aceitando ser homenageado por um governante cuja conduta está em total desacordo com o que Jesus e Kardec preconizam.

Divaldo Pereira Franco está na casa dos 90 anos. Vem de uma época em que a doutrina espírita conquistou grande número de adeptos graças a médiuns como ele, Yvonne Pereira, José Raul Teixeira e, principalmente, Chico Xavier. Adeptos, em sua grande maioria, vindos da classe média, e por motivos como perda de um ente querido, problemas pessoais, desavenças familiares e perturbações de ordem mediúnica. Gente que encontrou no espiritismo alívio para as dores e explicações lógicas e consoladoras para as questões que os afligiam. Creio que está na hora de esta gente bronzeada se conscientizar que é preciso dar um passo além e debater sobre as questões sociais e políticas que fazem do nosso país um dos mais injustos do mundo.

Tais convertidos, vamos assim dizer, eram, até então, em sua maioria, católicos, assim como haviam sido católicas as pessoas que, à época, eram porta-vozes da doutrina trazida por Allan Kardec. Como nação catequizada por jesuítas portugueses, trazemos na nossa conduta, atavicamente, sem percebermos, um catolicismo popular e conservador. Isso acabou influenciando na forma tupiniquim de praticar a doutrina espírita. Resultado: o que temos até hoje é um movimento espírita conservador e moralista, pouco afeito a debater ideias progressistas e refratário a temas tidos como polêmicos. Entre eles, política, homossexualidade, racismo e aborto sob a ótica de acolher e proteger a mulher que foi vítima de estupro ou está em situação de vulnerabilidade social. Um movimento espírita que prefere se limitar à reforma que cada indivíduo deve realizar em seu mundo íntimo para viver melhor consigo e com parentes, amigos e colegas de trabalho, mas se esquece de ampliar a questão para as profundas reformas sociais pelas quais o Brasil e o mundo precisam passar para que todos tenham “vida em abundância”, conforme diz o Evangelho de João, cap. 10, versículo 10.

Divaldo acaba sendo – até mesmo sem perceber – a personificação desse espiritismo que, ao não se aprofundar em assuntos de ordem social e política, perpetua o machismo, o racismo estrutural, a homofobia, as injustiças sociais, o risível medo de comunismo (embora o mesmo tenha vindo abaixo em 1989, com a queda do Muro de Berlim) e o receio que muita gente possui de viver num mundo mais igualitário. Pois é; falamos tanto sobre mundo de regeneração; mas, no fundo, morremos de medo dele. Santo paradoxo!

O movimento espírita federativo – seja em âmbito municipal, estadual ou federal – prefere, pelo visto, se manter isento a opinar sobre as já citadas questões sociais. Como exemplo, cito a decepção que um amigo sofreu ao navegar pelos sites e redes sociais das citadas federativas e não encontrar uma palavra de solidariedade às famílias dos então 500 mil mortos pelo coronavírus. Idem quando o atual governo afrontou solenemente a ciência com posturas abertamente negacionistas. A doutrina espírita possui um tríplice aspecto: ciência, filosofia e religião. O movimento espírita deveria, por essa razão, se pronunciar em defesa da ciência. Nada! Ibidem quando várias comunidades religiosas se manifestaram recentemente para defender a lisura do próximo pleito eleitoral. Silêncio total do órgão federativo espírita de nível nacional. O mesmo se dá com relação aos ataques que os templos de religião de matriz africana vêm sofrendo de evangélicos fundamentalistas e também aos assassinatos de jovens negros e pobres, de membros da comunidade LGBTQIA+, de ativistas ambientais e de indígenas. Como diz a mensagem que transcrevo no início, muitos espíritas preferem ignorar determinados assuntos, talvez para não se comprometerem ou por receio de macularem a pureza doutrinária, como se o espiritismo existisse somente para tratar de assuntos das nuvens para cima. Ou então porque são pobres em cultura geral e utilizam o espiritismo para esconder as próprias limitações. Ou simplesmente por julgarem que supostas lideranças espíritas são intocáveis e imaculadas. Afinal, devido ao atavismo católico, muitos espíritas deixaram de ser devotos de santos para sê-lo de médiuns, palestrantes ou espíritos desencarnados. Bobagem! Todos eles são seres em evolução e em aprendizado, assim como nós.

Divaldo Pereira Franco é, portanto, fruto de uma construção social que, ao se esquivar de falar sobre política e outros temas, contribui para que a classe média que compõe o movimento espírita fique na média do que é a classe média brasileira, ou seja, inculta, reacionária, ranzinza, hipócrita, moralista, temerosa do comunismo e avessa ao progresso social, já que o mesmo implica em ascensão das classes que adoramos manter subalternas para limpar nosso chão, recolher nosso lixo, fazer nossa comida e lavar nosso banheiro.

A literatura espírita é vasta e seus profitentes, os que mais leem. No entanto, ninguém é culto só porque lê livros espíritas. Ganharíamos muito se estudássemos assuntos como sociologia, teoria política, semiologia e antropologia à luz da doutrina espírita. Se o fizéssemos, decerto um candidato bem mais capaz estaria, hoje, presidindo a nação. A meu ver, de nada adianta ficarmos maravilhados ante as minudências do além-túmulo que os livros espíritas evidenciam se, na vida civil, repetimos, com o nosso voto e a nossa mentalidade, comportamentos sociais escravagistas, opressores e injustos que, há décadas, nos infelicitam. Para mim, o espiritismo existe para ajudarmos a transformar a Terra num lugar bacana para todos, e não para nos tornarmos catedráticos em vida espiritual, mediunidade e afins enquanto o couro come do lado de fora do centro espírita e nós fingimos que nada temos a ver com fome, violência, miséria, preconceito ou aquecimento global, porque a verdadeira vida é a espiritual.

E mesmo quando algum figurão espírita se pronuncia a respeito de algum destes temas, geralmente o faz de forma evasiva. Ou então, evoca a questão cármica para dizer que todos os problemas que estamos enfrentando são resultado de maldades que praticamos em vidas passadas. Raramente alguém tem a coragem de dizer que a questão é mais política que cármica. Com isso, o debate se restringe a uma fraternidade rasa, que não passa da esfera íntima ou do convívio doméstico. Daí para apoiarem uma criatura despreparada ou mal intencionada que seja candidata a cargo público é um pulo.

Felizmente – e principalmente de 2016 para cá –, vários espíritas sedentos de justiça social e insatisfeitos com a dinâmica dos centros espíritas convencionais passaram e se articular pelas redes sociais. Com isso, surgiram vários coletivos, nos quais o debate é politizado e vai fundo em assuntos tidos como tabus pela banda conservadora. Isso mostra que, com o tempo, retóricas como as de Divaldo e congêneres ficarão cada vez mais datadas, abrindo espaço para um movimento espírita plural, dialogando abertamente sobre as questões que visem à diminuição ou até à solução das injustiças sociais seculares que tanto têm massacrado o Brasil.

 

Marcelo Teixeira

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145 respostas para Divaldo Franco e a cara do movimento espírita brasileiro

  1. Carlos Alberto disse:

    Na minha opinião, a quem peço licença : Casas de oração, espíritas ou não, não devem ser palanque de debates políticos.
    Sobre o evangelho cristão prega-se o perdão e o amor incondicional ao próximo.
    Neste caso específico da premiação, vejo como um erro cometido pelo (os ) dirigente( es) da mansåo, aceitar esse encontro em plena campanha eleitoral, com intuitos meramente interesseiros por parte deste desgoverno.
    Vamos então combinar: não há ninguėm ingênuo, em ambas as partes ! 🤔

    Abraços fraternos !

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    • Marcelo Teixeira disse:

      Carlos Alberto, ninguém está falando em transformar templos religiosos em comitês eleitorais. A palavra política significa tudo que diz respeito à vida na “pólis” (cidade). Tudo, então, é uma questão política: o preço do gás de cozinha, o currículo escolar, o morador de rua, o fato de os centros espíritas distribuírem cestas básicas e até a afirmação de que política e religião não se misturam. O fato de 40% dos espíritas terem votado num facínora para presidente mostra o quanto o movimento espírita está falando em ajudar a formar pessoas imbuídas de justiça social, amor à verdade, ao progresso e ao próximo.

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  2. Janete Aquino Dos Santos Kitzinger disse:

    Boa noite! Luz a todos!
    Essa é uma questão muito delicada. Como sabemos, a doutrina espírita é de amor, de transformação, de perdão… São muitas as lutas de quem está á frente dos trabalhos de Jesus e são inúmeros os que lutam para minar e destruir o que está sendo conquistado com serenidade e sabedoria na Seara do Mestre. Divaldo, um ser humano com suas batalhas pessoais, conseguiu com seus 90 anos reflorescer em muitos corações a centelha Divina, através de seu trabalho social. Certamente ele é digno de receber homenagem, mesmo que seja de alguém que ainda não entende o que é o amor ao próximo. Então, uma pessoa como o Divaldo que tenta seguir a essência de Jesus, deve ser no mínimo educado e sim receber a homenagem seja de quem for.

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  3. JANETE disse:

    Boa noite! Paz e Luz à todos!
    Não sou Bolsonarista!
    Mas essa é uma questão muito delicada. Como sabemos, a doutrina espirita é de amor, de transformação, de perdão… São muitas as lutas de quem está à frente dos trabalhos de Jesus e são inúmeros os que lutam arduamente para minar e destruir o que está sendo construído com serenidade e sabedoria na seara do Mestre.
    Divaldo, sendo humano com suas próprias batalhas, conseguiu com seus 90 anos reflorescer em muitos corações a centelha Divina, através de seu trabalho social e seu amor ao espiritismo. Certamente ele é digno de receber homenagens, MESMO SENDO DE UM SER QUE AINDA NÃO APRENDEU O QUE É O AMOR ao próximo.
    Divaldo é um servo de Jesus e sempre que pode divulga a doutrina de amor e caridade.
    Sendo Divaldo um filho que tenta seguir a essência de Jesus, deve ser no mínimo educado e sim receber as homenagens seja de quem for.
    Na minha opinião, ele deve sim receber

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    • Nelson Siqueira disse:

      Muito bem dito. Quem quiser, vai entender.

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    • RONEY disse:

      Isso é política, além do ego! Divaldo já deixou várias vezes a sua posição política em algumas palestras. Ninguém é tolo. Esta situação foi um equívoco, um erro. O movimento espírta como sempre não assume quando erra, vêm sempre com uma justifictiva sobre amor! Eu quero ver alguém pegar uma pessoa que morra nas ruas e levar uma vez por semana para sua casa e oferecer comida na própria mesa! Isto sim seria amor, se fosse verdadeiro! Receber honrarias de uma pessoa perversa e criminosa por ser “presidente”, sinceramente!

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  4. Luzia pasqualuni disse:

    Achei bem coerente esta exposição.
    Temos que refletir melhor e agir com consciência e ética!

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  5. Silvana Callegaro disse:

    Estou tão emocionada de ler essas palavras de luz. Grata. Me sinto menos isolada. Fraterno abraço.

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  6. Lucyana Bacellar disse:

    Finalmente, um espírita que traduz em palavras o que penso.

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  7. Waldir jose Franco disse:

    É chegado o momento de um novo movimento semelhante a teologia da libertação bater na porta porta das casas espíritas.
    Amei o texto.

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  8. Silmara penteado gattaz disse:

    Ai…que alívio saber que penso da mesma forma que alguém!!! Texto excelente, real e didático. Obrigada!!

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  9. Yemna Maria Chadud disse:

    Bela reflexão sobre os tristes fatos que vimos testemunhando. Somos espíritos encarnados, portanto, temos compromissos com os dois planos da vida. A doutrina “consoladora” não pode jamais ser usada como fundamento para a alienação, muito pelo contrário. Traduzindo muito bem nossas responsabilidades (plantio e colheita, ação e reação…), cada um de nós será “cobrado” quantos às intervenções que fizemos ou deixamos de fazer, quanto aos exemplos (sementes) que deixamos pelo caminho. Viva a Doutrina Espírita inclusiva, viva a justiça social, viva a fé com obras.
    Gratidão por suas palavras.

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  10. Ana Lygia disse:

    Cirúrgico seu texto! Bom saber que existem pessoas lúcidas e corajosas!

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