As engrenagens do livro “Além da Fé Raciocinada”, de Carlos Seth Bastos

Recentemente, li o livro “Além da Fé Raciocinada: uma análise crítica da obra de Kardec”, do pesquisador espírita Carlos Seth Bastos. Antes de tudo, é evidente o profundo conhecimento do autor tanto sobre os livros – e manuscritos – de Kardec, quanto sobre os romances espíritas brasileiros do século passado. Por isso, o livro está recheado de citações relevantes para a compreensão do Espiritismo do passado e de como chegamos à situação presente.

Seth Bastos, nesse contexto, busca refletir sobre as várias questões em aberto que o Espiritismo não foi (ainda) capaz de responder de modo acurado. Considerando sua forma e conteúdo, é perceptível que o livro foi escrito por um engenheiro. Confesso que em todas as vezes em que me deparei com as ditas “condições de contorno”, não pude deixar de lembrar das aulas de Cálculo da faculdade. Para o engenheiro Seth Bastos, o Espiritismo possui três “condições de contorno” – isto é, pressupostos básicos de um domínio, necessários para se alcançar a solução de um problema: Existência de Deus (I), existência do princípio espiritual (II) e existência do princípio material (III). Portanto, “se não se crer em Deus, por definição, não se é espírita” (p.91).

Conquanto a definição de “Deus” não tenha sido desenvolvida no livro, subentendo que o autor remeta àqueles atributos da questão 13 de “O Livro dos Espíritos” (eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, justo e bom). Aqui há, portanto, um outro nó semântico, pois o próprio conceito de justiça, por exemplo, é de dificílima definição. Contudo, o que é o onipotente, o justo e o bom são questões não debatidas no texto – e isso não é um demérito à obra, pois nem mesmo os maiores de nossa espécie conseguiram fechar a questão. Assim, Seth Bastos, ao mesmo tempo que pressupõe Deus, também aceita que coisas ruins acontecem a pessoas boas. Por que isso ocorre? São as “regras do jogo”, responde o autor. Ou seja, perguntas que o Espiritismo ainda não tem condições de responder e que, momentaneamente, precisamos aceitar como tal.

Nessa linha, Seth Bastos parte daquelas três condições de contorno em direção aos princípios fundamentais espíritas. Inicialmente, citam-se cinco: a existência de Deus (I), a existência e imortalidade do Espírito (II), a reencarnação (III), a comunicabilidade dos Espíritos (IV) e a pluralidade dos mundos habitados (V). Entendo que essa é uma classificação válida, a partir do material espírita.

Pessoalmente, prefiro uma classificação um pouco diferente: os princípios dos princípios (isto é, os eixos ou “condições de contorno”) seriam apenas dois – Deus e Causalidade. A senha está dada na questão 01 do LE: Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas. Logo, a matéria e o espírito (e “todas as coisas”) seriam causadas por Deus. E esse Deus causador é inteligente – seja lá o que isso signifique exatamente, porque esse termo também é de difícil delimitação, parece-me que inteligência aqui está atrelada a uma razão ordenadora (talvez, o logos dos gregos). Como princípios, isto é, fontes que irradiam em todas as direções, concordo em grande medida com Seth Bastos: a existência e a imortalidade do Espírito, a reencarnação, a comunicabilidade dos Espíritos, a evolução contínua e a pluralidade dos mundos habitados perpassam toda a estrutura da Doutrina Espírita e decorrem da concepção de Deus como inteligência suprema, soberanamente justa e boa, que cria seres destinados ao aperfeiçoamento.

Posteriormente, Seth Bastos confere a outras características da Doutrina o status de princípios fundamentais, como a não retrogradação, a inexistência de penas eternas e a responsabilidade individual. Pessoalmente, prefiro categorizá-las todas elas como características ou leis decorrentes dos princípios.

Independentemente das questões terminológicas, a obra tem o grande mérito de enfrentar temas espinhosos. O autor acerta grandemente, em minha visão, ao reconhecer a coexistência do acaso e do determinismo no Universo (p.120). Mais ao final do livro, Seth Bastos ventila também a possibilidade de uma causalidade oculta, de modo que o acaso seria apenas aparente. Estou convencido de que o problema da causalidade é a engrenagem central que precisamos girar para avançar com a reflexão espírita no século XXI.

Quando o nosso Espiritismo foi inaugurado, ou seja, quando diversas “leis naturais” foram articuladas sob um mesmo sistema sob a coordenação de Kardec, o estado da arte era determinista. A física da época, conduzida pela Mecânica Newtoniana, era essencialmente determinista. Todo efeito tinha uma causa determinável. Tal raciocínio era muito útil, pois facilmente alinhável à filosofia Aristotélica (primeiro motor) e Tomista. Portanto, era natural que Kardec desenhasse a estrutura espírita também de forma determinista – a propósito, o próprio Seth Bastos no excelente “Espíritos sob Investigação” evidencia que foi Kardec a grande mente estruturante da doutrina.

Todavia, os avanços da física podem ter abalado não apenas a convicção coletiva na causalidade rígida como essência da realidade, mas também a força intuitiva da ideia de uma causa primária entendida como o primeiro impulso necessário para deflagrar todo o resto. Em modelos estocásticos, admite-se ao menos em tese que fenômenos altamente improváveis possam ocorrer sem uma causa antecedente determinável nos moldes clássicos. Isso não elimina a questão metafísica de por que existem leis, possibilidades e estrutura em vez do nada absoluto, mas enfraquece a antiga segurança de que a ordem causal observada no mundo conduziria necessariamente a um Deus criador e onisciente. Não podemos ignorar os efeitos que os princípios das ciências naturais exercem sobre o pensamento filosófico. Acredito que precisamos pensar filosoficamente como contingências probabilísticas da vida podem coexistir com uma finalidade espiritual universal, sem esvaziar o livre-arbítrio nem transformar a evolução em simples automatismo. Seth Bastos toca, ainda que brevemente, nessas questões trazidas pela ciência moderna.

Ainda dentro da causalidade, o autor levanta questões como expiações coletivas, bala perdida e a hora da morte. A banalização da tal “lei de causa e efeito” por muitos espíritas, querendo explicar tudo precipitadamente, pode estar comprometendo a credibilidade do Espiritismo. Por isso, uma das grandes ideias do livro é “o erro dos espíritas, para nós, está em se associar sempre uma situação presente (reação) a um equívoco do passado (ação)” (p.171)

Outros pensadores espíritas modernos também publicaram reflexões sobre esses temas e senti falta de uma articulação entre eles. 

Sobre a comunicabilidade dos espíritos, embora a obra a classifique como princípio do Espiritismo, o autor entende que é um fenômeno raríssimo (p.94). Nesse contexto, é relevante refletir o porquê e como a doutrina pôde ser sistematizada a partir da atuação de supostos médiuns, caso tal fenômeno seja, de fato, tão excepcional.

É curioso notar o vetor de deslocamento sobre o tema: enquanto Kardec, n’O Livro dos Médiuns, defendia que todos, em algum grau, são médiuns, muitos pensadores espíritas contemporâneos começam a questionar a amplitude dessa faculdade. Cumpre recordar, ainda, que a alegada comunicação dos espíritos, conforme exposta por Kardec (especialmente a partir da questão 459 d’O Livro dos Espíritos), não se restringiria a manifestações ostensivas, podendo também operar-se de modo inconsciente, por inspiração, em uma espécie de rede interligada de pensamentos.

Nesse panorama, a dificuldade intrínseca de submeter o fenômeno aos controles próprios do método científico não seria, por si só, motivo suficiente para afastar a possibilidade de sua ocorrência concreta mediante mecanismos ainda desconhecidos. É certo que relatos anedóticos não constituem prova cabal da existência de qualquer fenômeno. Ainda assim, quem se dedica ao estudo do Espiritismo depara-se com coincidências e experiências que parecem apontar para formas discretas de mediunidade, integradas à experiência ordinária da vida. Por não corresponder à mediunidade “midiática” que marcou o Espiritismo brasileiro do século XX, essas manifestações sutis por vezes são deslegitimadas mesmo entre os espíritas. Talvez estejamos diante de um movimento de ceticismo que, levado às últimas consequências, corre o risco de dissolver um dos próprios fundamentos do Espiritismo.

Em relação à pluralidade dos mundos habitados, Seth Bastos faz afirmações corajosas e necessárias, defendendo a aplicação da razão. Especificamente sobre esse tópico, é muito interessante o levantamento cronológico das citações do tema nas obras de Kardec. Entendo que haveria espaço para reflexões adicionais sobre esse princípio. Conquanto ainda muito baseado em relatos anedóticos, percebo uma convicção crescente da sociedade sobre esse assunto. Entre todos os princípios do Espiritismo, esse é o mais ligado à realidade material e o primeiro que pode se fortalecer nas décadas vindouras. Veremos.

Há outros pontos muito interessantes na obra, como o reconhecimento de termos discriminatórios nas obras de Kardec, suas ambiguidades, a dificuldade em se aplicar na prática a progressividade da doutrina, a centralidade de Jesus como referência moral, entre outros… que valem a pena ser lidos.

Alexandre de Assis

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