Traição, transgressão, rompimento – liberdade de escolha e evolução

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Um texto religioso, a leitura de uma tradição que tem no rompimento das tradições sua mais forte característica. Essa é a essência do livro A Alma Imoral, escrita pelo rabino Nilton Bonder. O judaísmo chassídico que faz uma leitura mística (simbólica) do Torá, é a base do livro. A tese principal é a eterna tensão da natureza dupla do ser humano – corpo e alma, tradição e traição, correto (lei) e bom (justiça).

Já de saída, nos Jardins do Éden, Adão e Eva se veem diante da possibilidade de uma escolha – não podem provar o fruto da árvore da sabedoria. A leitura teológica mais comum entende a transgressão do casal como um ato de desobediência que é punido com a expulsão do paraíso e a condenação a uma vida mortal marcada pelo trabalho. Na leitura mística, a proibição abria a possibilidade de evolução para os recém criados seres humanos. Ao fazerem uma escolha eles passaram a ser livres. O conhecimento que ganharam ao provarem do fruto transformou o Éden (a tradição) em um lugar estreito. O mundo que eles ganham depois da expulsão (entendida aqui como um parto), é a recompensa por sua traição.

Outra compreensão diversa das narrativas bíblicas é o momento em que os judeus em fuga ficam presos entre o exército do Faraó e o Mar Vermelho. Na história, Moisés abre as águas com seu cajado e os judeus cruzam o mar em direção à terra prometida. Na leitura chassídica, as diferentes reações dos judeus nos momentos que antecedem o milagroso movimento das águas, ilustram essa tensão entre corpo e alma. Eles se dividem em 4 grupos – o dos que querem voltar para o Egito, o dos que querem lutar com o exercito do Faraó, o dos que querem se atirar nas águas do Mar Vermelho e o dos que se prostraram em oração. Nenhuma dessas escolhas leva a lugar algum.

Na etimologia hebraica a palavra Egito (mitsraim) significa lugar estreito. Simbolicamente o corpo (ou a tradição, ou a lei) percebe que aquele espaço não pode mais conter a vida e portanto começa a se movimentar para fora dele (o resultado da imobilidade seria a morte). A alma (ou a traição, ou o que é justo) rompe com o que é conhecido e se lança para o desconhecido. Na fuga do Egito, diante do impasse, os judeus optam entre retornar ao lugar estreito ou ficar no mesmo lugar (lutando, morrendo, orando). A escolha correta (que tem algum futuro) é seguir a instrução de D’us – marchar!

Então um homem que não sabia nadar avança pelas águas. Mas só quando elas chegaram na altura de seu nariz, o Mar Vermelho se abre. Essa escolha sem garantias é o movimento da alma. Mas a investigação e a resignificação não param por aí. A próxima pergunta é – como identificamos quando o lugar que ocupamos (a tradição) ficou estreito? Quando devemos trair? Melhor ainda – quais são as possíveis variáveis nesse processo. Bonder encontra uma resposta no poeta e filosofo Sh’lomo Gabirol.

São também 4 tipos – os que sabem (que o lugar ficou estreito) e sabe que sabem (e por isso estão diante do Mar dispostos a trair a lógica e marchar). Os que sabem e não sabem que sabem (estão desconfortáveis com o status quo, mas não identificam que precisam empreender uma mudança transgressora para avançar). Os que não sabem e sequer sabem que não sabem (naturalizaram a estreiteza, a opressão a que são submetidos, vendo nisso um valor positivo que aparentemente não os incomoda – precisam de terapia). Os que não sabem, mas acham que sabem (são os teóricos, que não sentem o corpo apertado pela estreiteza, mas têm elaborado um discurso contra ela – o crítico sem vivência ou senso prático).

Essa leitura mística de uma das narrativas mais centrais sobre a formação do povo judeu nos mostra a importância da crítica, da dúvida, do debate dentro de uma religião. O talmudismo, a longa tradição de comentários dos rabinos sobre o Torá, é um exercício de tolerância que mantém a fé viva, dialogando com o cotidiano. Esse movimento constante de questionamento à obediência (ao status quo, ao corpo) influenciou o desenvolvimento de ideias como o direito, a psicanálise, o marxismo, os direitos humanos, etc.

Nós espiritas que derivamos uma religião a partir das investigações de Kardec, temos no talmudismo um exemplo interessante de como construir um debate aprofundado que efetivamente avance a nossa compreensão da realidade e a nossa atuação no mundo. Exatamente como naquele judaísmo nascente, temos no espiritismo muitos teóricos que se agarram ao “embasamento doutrinário”, buscando na letra fria a explicação para tudo (não sabem, mas acham que sabem). E também muitos que aceitam tudo sem nenhuma crítica, não enxergam as contradições e pregam uma união romântica (não sabem e não sabem que não sabem). Para os que percebem que o espiritismo institucionalizado é um lugar estreito que se estrangula e nos sufoca, só resta o rompimento, um parto para fora do paraíso. Uma escolha livre. Marchemos resolutos pelas águas até que elas se abram.

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3 respostas para Traição, transgressão, rompimento – liberdade de escolha e evolução

  1. Luiz Gonzaga da Silva Júnior disse:

    Texto confuso. Desconheço quais são os problemas doutrinários enfrentados pelo judaísmo contemporâneo, que guardem semelhanças com aqueles enfrentados pelo espiritismo. Contudo, não consegui identificar no texto em comento, qualquer correlação factual, entre a mensagem do livro – “que faz uma leitura mística (simbólica) do Torá”, e os problemas enfrentados pelo movimento espírita no Brasil. Em nosso país, o problema maior enfrentado pelo Espiritismo, é exatamente o componente místico que vem sendo enxertado em seu ordenamento doutrinário, desde sempre, através de uma literatura mediúnica que se diz espírita, mas que de espírita não tem nada, pois se contrapõe aos postulados espiritistas consignados nos livros da codificação, isto, com o beneplácito da FEB. Não li o livro, mas desde já, não vejo como ele possa ajudar neste rompimento com o “espiritismo institucionalizado”, eis que o livro se propõe a fazer uma releitura do Torá, utilizando-se de uma crítica mística. De misticismo, o espiritismo no Brasil já está saturado.

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    • Dora Incontri disse:

      Olá, Luiz! O termo místico aí não está sendo usado como aquele misticismo que nós também criticamos no movimento espírita. Em todas as religiões tradicionais (incluindo islamismo, cristianismo e judaísmo) as vertentes místicas são justamente as que criticam o institucionalismo e propõem uma espiritualidade mais pessoal e sem intermediação. O texto apenas quer transportar uma reflexão interessante de um rabino judeu para nosso quadro espírita, apontando que para haver avanços e progresso, há que se ter coragem para críticas e rupturas!

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  2. Pingback: A nova geração e o fim do capitalismo – Blog Universidade Livre Pampédia

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