Trapalhadas “espíritas” – Episódio 2 – Chuveiradas e paredes

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Sávio, tarefeiro espírita que andava meio sumido, telefonou para Olavo. Motivo: convidar-lhe para fazer uma palestra no local que passara a frequentar. Sávio é um excelente sujeito, carinhoso e carismático.

Um belo dia, Sávio deixou de ir ao centro. Largou as tarefas em que estava envolvido e sumiu. Pouco tempo depois, Olavo e os demais trabalhadores do centro souberam que Sávio estava frequentando um local que não era propriamente um centro espírita, mas uma espécie de centro de estudos holísticos. Estudavam algo de Espiritismo e também Budismo, Esoterismo, entre outras correntes. Nada contra. Afinal, todo local onde se pratica o bem é válido. Por isso, Olavo aceitou o convite.

Lá chegando, foi recebido por Sávio e outras pessoas que já conhecia de vista do movimento espírita. Frequentadores de reuniões públicas, em sua maioria. Olavo notou que havia uma espécie de chefe do local, também vestido de branco. Chamava-se Adolfo. Foi ele, inclusive, quem dirigiu a reunião e apresentou Olavo aos presentes.

Finda a palestra às 21h, Cidália, uma das colaboradoras, chamou Olavo para um cômodo contíguo. Ele pensou que lhe ofereceriam um café ou lhe mostrariam as demais instalações. Quando entrou no recinto, que estava à meia luz, havia alguns trabalhadores em pé, concentrados. Adolfo entrou – supostamente mediunizado e falando com um sotaque não identificado – e chamou atenção dos presentes pelo fato de terem demorado a fechar a porta. Segundo ele, tal demora atrapalhava a circulação das energias. Olavo achou estranho. Em seguida, entrou com os demais numa sala repleta de macas e com azulejos até o teto. Uma enfermaria, pelo visto. As pessoas que haviam assistido à palestra começaram a entrar e a deitar nas macas. Iria começar o tratamento espiritual, que se estenderia madrugada adentro.

Olavo não havia pedido para participar e acompanhar aquele trabalho. Tampouco sabia da existência dele. Foi simplesmente colocado dentro da sala. O que viria a seguir? Sávio prestava assistência a Adolfo, que, teoricamente incorporado pelo espírito de um médico europeu, atendia às pessoas e dava as mais variadas instruções.

Por reiteradas vezes, Adolfo perguntava o que Cidália estava vendo na parede. Ela, então, descrevia. Cidália, assim como Sávio, havia frequentado por anos um centro espírita da região, mas agora se dedicava apenas àquele local eclético.

Notando a estranheza de Olavo em relação às perguntas sobre o olhar direcionado à parede, Cidália explicou que, a mando do espírito do médico que atendia por meio de Adolfo, estava treinando vidência mediúnica. Por isso, ficava olhando para a parede, que desempenhava a função de tela de cinema. Olavo se perguntou como uma mulher que havia frequentado um centro espírita por tanto tempo era capaz de acreditar que precisamos olhar fixamente para uma parede no intuito de aprimorarmos a mediunidade de vidência.

As horas se passaram e ele lá, em pé, esperando o encerramento das atividades para poder ir embora. Já eram quase 23h e ele tinha de trabalhar no dia seguinte. Além disso, era um local ermo, e, apesar de estar de carro, Olavo não queria sair de lá muito tarde.

Foi quando ele viu uma convidativa cadeira, num cantinho simpático, dando sopa. Foi até lá se sentar. Cidália o impediu. Motivo: era o local do chuveiro fluídico.

Pelo que sei, num centro espírita ou em qualquer templo religioso dedicado ao bem, a atmosfera está impregnada de amor. Em todo canto, portanto, há bons fluidos. Ninguém precisa sentar aqui ou ali para ser mais ou menos beneficiado. Mesmo que precisasse, será que ele, que havia feito a palestra e estava há duas horas em pé, não merecia uma chuveirada fluídica? Seria muito bom sentar na cadeirinha e chuáááá! Mas como ele estava em desvantagem, ficou quieto.

Olavo disse que precisava ir embora. Já passava das 23h. Cidália respondeu que ele só poderia sair se o espírito incorporado a Adolfo autorizasse. Ele não havia pedido para participar. Agora, para ir embora, precisava esperar o fim de mais um atendimento, que felizmente não tardou. Ele, enfim, foi embora. Quando saiu, resolveu não mais aceitar convites para fazer palestra naquele local.

Trabalhador da seara espírita há anos, Olavo sabe que o Espiritismo não se julga superior ou inferior a outras correntes religiosas. E sabe também que o trabalho realizado por aquele local é extremamente válido porque vem beneficiando muita gente. Mas se os dirigentes da instituição dizem que também estudam Kardec, deveriam prestar mais atenção ao que ele preconiza quando o assunto é atendimento espiritual, que dispensa macas, enfermarias, pessoas atendendo supostamente incorporadas etc.

E ao lembrar-se de Sávio e Cidália, Olavo ficou chateado de ver como alguns frequentadores e trabalhadores de centros espíritas não ligam de estudar a Doutrina. Se o fizessem, decerto não estariam lá vestidos de branco, olhando para a parede e manejando chuveiros fluídicos.

 

Próximo episódio: Pernas e canetas

Episódio 1 – Rolam as pedras

Essas narrativas fazem parte do livro ainda inédito –  Sem Açúcar e com Kardec – de Marcelo Teixeira

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5 respostas para Trapalhadas “espíritas” – Episódio 2 – Chuveiradas e paredes

  1. Heloísa Canali disse:

    Excelentes esclarecimentos.

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  2. DANIEL MONTEIRO disse:

    A falta de estudo sério do espiritismo leva à acontecimentos como esse, infelizmente.

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