Visitas a Abrigos para crianças e adolescentes – Assistencialismo ou educação?

visiting-a-poor-people-1874Quando pensamos em educação e valores, educação e cidadania, educação moral, ou em outras diversas formas de nomear a interrelação entre educação e ética, é muito comum que as escolas e instituições religiosas afirmem que trabalham valores e solidariedade através de visitas a abrigos, asilos e instituições de reclusão (menos frequente nesse último caso).

Minha experiência com esse tipo de visita tem se revelado um caso exemplar, não por ser excelente, longe disso, mas por exemplificar o que acontece em diversos casos desse tipo. Eu fazia parte de dois grupos de estudo de espiritismo para jovens quando começamos a fazer visitas para crianças e adolescentes vivendo em um abrigo de nosso bairro, enquanto o Poder Judiciário decidia se eles podiam voltar a conviver com alguém da família de que tinham sido afastados, ou se deveriam ser adotados por outra.

A primeira experiência que tive deu-se durante um ano em que fui aluna de um desses cursos de espiritismo para jovens. Nessa época, fazíamos visitas uma vez por mês, geralmente sem nenhuma proposta de brincadeira ou atividade educativa para realizar com as crianças. Em pouco tempo, comecei a sentir que o ambiente ficava um tanto caótico com nossas visitas. A impressão era de que acelerávamos bastante as crianças com diversas brincadeiras, e depois de um tempo, aquela agitação toda culminava em brigas e em alguns pequenos isolados das atividades principais. Já os jovens alunos que visitavam o abrigo… Alguns pegavam as crianças no colo, jogavam bola, etc, mas outros ficavam à margem, sem conseguir extravasar uma ideia criativa ou uma tentativa de interação com os meninos e meninas.

Ao voltarmos para nossas casas espíritas, sobrava em mim uma sensação de insatisfação, de incompletude com o que tínhamos feito. Especialmente porque era mais fácil interagirmos com as crianças pequenas, mais ingênuas e dóceis, do que com garotas entrando na adolescência, que já revelavam muito menor disposição para estar conosco; e o problema é que justamente a adolescência é um período mais delicado da vida de uma pessoa, e seria muito importante, por isso, conseguir estabelecer um diálogo com as jovens. Tentando nos aproximar dessas últimas, em uma visita, convidamo-las, assim, de improviso, a pintar as unhas. Após presenciar essa cena, um amigo comentou:

Não me senti bem ao estar naquela visita. É como se estivéssemos “brincando de casinha”, passando um tempo de ilusão, sem ajudá-las a enfrentar melhor a realidade que vivem.

Aquelas palavras me calaram fundo. Porque expressavam a realidade, ou, ao menos, uma parte dela.

No ano seguinte, tive a oportunidade de dirigir os dois grupos de estudo dos quais participava. Decidida a fazer algo de melhor pelas crianças e adolescentes do abrigo, também buscava que os grupos de jovens se envolvessem nesse trabalho. O problema era que tínhamos poucos voluntários. Então, preparar atividades de estudo para os grupos nas casas espíritas junto com atividades e propostas para o abrigo não estava nada fácil. Isso acontece nas escolas também. Geralmente os professores, ocupados com as matérias que precisam dar, organizam uma simples visita a um asilo ou abrigo, com lanchinho, um violão e uma conversa com os idosos. E as visitas ocorrem… Duas vezes por ano. Como criar um vínculo de amizade com uma frequência de visitas tão baixa?

No caso de uma das casas espíritas, tínhamos autonomia para usar o tempo de estudo com os jovens como quiséssemos, então apresentei a eles informações de uma pesquisa do IPEA sobre a questão das crianças e jovens vivendo em abrigos no Brasil e montamos uma peça de teatro sobre a história de Jesus para apresentar para as crianças menores. No dia da visita ao abrigo, após as apresentações de teatro, convidamos as crianças para participar da peça como personagens (algumas delas gostaram bastante de se envolver na história). No fim da visita, cada participante fez um cartão de presente dedicado a uma criança específica do Abrigo.

Em outra visita, fizemos um caça-tesouro (que as crianças finalizaram em menos de 10 minutos!). E, no final das contas, fizemos… Duas visitas no ano.

Em uma reunião com a diretora e o psicólogo do abrigo, na época contratado há pouco tempo, este sublinhou que as meninas adolescentes já não tinham mais vontade de participar do encontro conosco; e que uma delas ficou tremendamente envergonhada ao perceber que um dos visitantes do abrigo era um menino de sua sala de aula! A garota não queria que seu colega soubesse onde ela vivia, e simplesmente isolou-se em seu quarto durante toda a tarde que passamos lá.

Essa experiência me levou a refletir sobre diversas questões: A primeira delas era quão precário era nosso trabalho. Os pais de alunos e dirigentes de casas espíritas ficavam muito felizes ao saber que fazíamos tais visitas, mas talvez eles não conseguissem vislumbrar que pouco estávamos agregando, de fato, para aquelas crianças e jovens: O abrigo continuava com sérios problemas financeiros; as crianças continuavam indo mal na escola, com poucas oportunidades de lazer e trocas afetivas; as trabalhadoras do local estavam sem registro em carteira, pois o abrigo não tinha condições de bancar isso, e, consequentemente, insatisfeitas, irritadas, contrariadas quando pegávamos os bebês no colo, já que eles iriam pedir mais colo quando fôssemos embora; e as crianças, conforme cresciam, ficavam cada vez mais desanimadas de interagir com visitantes, com os quais não tinham nenhum vínculo mais duradouro.

Alguém poderia dizer: “Mas vocês fizeram a parte de vocês; uma tarde de brincadeiras já é uma caridade!” Mas não seria pouco caridoso dar alguma coisa e não nos importarmos com os problemas reais que as pessoas enfrentam? Com esse raciocínio não acabaríamos caindo num fatalismo individualista de entender que “cada um deve enfrentar seus problemas, seus carmas”, e nós só podemos dar “uma palavra de conforto”, um ombro amigo, uma doação de 1 litro de leite? Devem a diretoria do abrigo e os voluntários desgastar-se todo mês com campanhas e pedidos de alimentos e materiais de limpeza urgentes para a manutenção da instituição?

Percebi claramente que era difícil, mas inevitavelmente necessário, compreender a verdadeira caridade como muito mais do que ajudarmos com aquilo que nos sobra de nossa vida corrida – um pouco de tempo de um sábado, um pouco de dinheiro para um lanche da tarde, um pouco de afeto doado em orações e abraços – vivida em busca de sobrevivência e compensações. Meu desejo, como trabalhadora espírita, hoje, é agir através de modelos mais consistentes de atuação – seja junto ao Poder Público, ou através de um trabalho voluntário melhor estruturado – que tragam soluções mais efetivas para os problemas de falta de dinheiro, de segurança afetiva, de uma escolarização precária e frustrante (para todos, e, especialmente, para os próprios alunos), que atingem as crianças vivendo em abrigos.

Mesmo colocando à parte os problemas materiais e financeiros, do ponto de vista pedagógico, visando a uma educação que auxilie na construção da moralidade, da afetividade e da inteligência dos educandos, a atuação em um abrigo precisaria ser muito melhor do que a que oferecemos. O próprio psicólogo da instituição nos pediu para que alguém pudesse vir semanalmente visitar a casa, criar um vínculo com as crianças. Alguém que tivesse disponibilidade de contar histórias, ouvir insatisfações, acolher, mediar conflitos, cuidar psiquicamente das crianças, e, assim, ensiná-las a cuidar de si mesmas e de seus pares.

Pelo contrário, o que ocorre na maioria das vezes é o ciclo vicioso da pobreza: O abrigo não tem apoio institucional porque os funcionários não são registrados; sem apoio financeiro, não registra os funcionários; sem registro em carteira, os colaboradores são poucos, não tem disponibilidade de tempo e de afeto suficiente para as crianças, que ficam solitárias, raivosas, frustradas, vão mal na escola…E perpetuam o ciclo.

Quando, em uma das visitas, contamos a história romanceada de Jesus, por exemplo, um dos garotinhos do abrigo pegou as asas de anjo e assumiu esse papel; nós sugerimos que ele fosse abençoar as pessoas e cuidar delas em sua encenação. O anjo é a representação da Proteção, e não seria importante para a criança saber que pode contar com alguém que a ampare, em um momento em que ninguém mais faça isso? Mas como ensiná-la sobre o amor e a proteção de Deus, de Oxalá ou dos anjos da guarda, se o menino não vivencia fortemente, ou ao menos suficientemente, a realidade do amor e da proteção dos adultos?

A insatisfação com os problemas era dupla: Por um lado, a expectativa de alunos e dirigentes de que fizéssemos as visitas ao abrigo. Por outro lado, a consciência de que nossas visitas desestruturadas, pouco frequentes, pouco integrativas, junto com todos os outros problemas dos abrigos, eram uma negação dos direitos daquelas crianças. Mas qual seria o sentido da ansiedade em “fazer caridade”, mesmo que ela não seja tão efetiva para quem a recebe? O sentido de “amarmos uns aos outros” seria uma simples contabilização de atos generosos que nos dariam “pontos” ou “bônus-hora” perante as Leis Divinas?

O sentido da caridade não seria entendermos os problemas dos outros como nossos também, e buscarmos resolvê-los efetivamente, colaborando com nosso amor e nossa inteligência? A verdadeira caridade seria oferecer algo que nos sobra, ou tudo o que temos, nossos ideais, nossa vida, nossa luta? Não é “fazer aos outros o que gostaríeis que vos fizessem”, criar meios para que o outro receba tudo o que gostaríamos de receber em termos de educação, amor e segurança? No livrinho mediúnico O Educador, Comenius relembra que “deve-se afastar o conceito paternalista da caridade”, e “ter disponibilidade incansável e permanente para acolher o educando (…). Estar ao lado de, pôr-se a caminho com, fazer-se e sentir-se sinceramente igual ao outro”. E Pestalozzi finaliza em Meditações: “O espírito generoso não restringe seus ideais aos limites comuns do bom senso terreno”.

Mas alguém pode perguntar “Como simples voluntários, com seus trabalhos e problemas, podem oferecer soluções para problemas tão complexos”? Hoje penso que os voluntários precisam atuar como coadjuvantes de um trabalho profissional e consistente. E precisamos de educadores voluntários mais maduros, que empreendam o trabalho principal, para que os jovens alunos – de escolas ou de instituições religiosas – possam ter modelos de inspiração sobre como interagir com crianças e adolescentes em situação de abrigamento. Os jovens estudantes precisam de ajuda para desenvolver sua criatividade, a simpatia, a empatia e o olhar educativo, que são características que um voluntário precisa utilizar na visita a um abrigo, e, além disso, são habilidades que facilitam a qualquer pessoa construir amizades, em qualquer lugar ou situação.

Buscando unir o espírito científico e rigoroso do profissionalismo, e os sentimentos morais que caracterizam todo trabalho engajado no bem, a Associação Brasileira de Pedagogia Espírita busca alavancar uma proposta pedagógica universal, que influencie, impregne e aprimore práticas profissionais em escolas, abrigos, hospitais, grupos terapêuticos, empresas e cooperativas. Porque para fazer um trabalho de qualidade em termos de educação para a evolução, é necessário fazer um trabalho profundo, extenso e intenso. Ao contrário do que dizem por aí, na Educação, seja onde for, não se obtém qualidade sem quantidade: quantidade de tempo dedicado à formação do educador, quantidade de tempo envolvido com o educando, quantidade de variáveis de um problema sobre as quais se atua.

A ABPE procura endossar a perspectiva de espíritos – encarnados e desencarnados – que conseguem vislumbrar, como afirma Pestalozzi, que:

“Não se dá que a mudança isolada de cada um produzirá uma sociedade mais fraternalmente articulada. É preciso uma ação coletiva, na interação de pessoas e instituições, para as melhorias estruturais da sociedade, para que as relações se renovem.”

O Educador também profetiza que:

“logo florescerão na sociedade terrena, as famílias e as escolas, as cooperativas e as instituições, que se modelarão pela ética da bondade e da paz, do desinteresse e da busca da verdade.”

Há algum tempo, voltei a uma reunião no abrigo citado e vimos uma proposta de pintura em tecido sendo feita semanalmente por uma voluntária com as meninas. Pensamos que poderíamos apoiar com recursos materiais o projeto, mas… Teremos que fazer eventos, coletas, pedidos sem fim, para obter cinquenta, cem reais por mês para comprar tintas, tecidos e pincéis? E se o abrigo precisar de mistura para o almoço, no lugar das tintas? Além das meninas, os meninos não gostariam também de pintar no tecido? E qual seria a eficácia da pintura de panos de prato para a emancipação econômica dos adolescentes? E assim, compreendendo que precisamos de soluções complexas para problemas complexos, vamos planejando os caminhos que precisamos seguir para progredir, valorizando sempre a prática reflexiva, encarando as contradições que vivemos e as superações buscamos ao colocar a mão na massa.

Litza Amorim

* texto originalmente publicado no Boletim da ABPE do segundo semestre de 2015, que produzimos com exclusividade para os nossos associados.

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Uma resposta para Visitas a Abrigos para crianças e adolescentes – Assistencialismo ou educação?

  1. Cláudia (TP e Geppe) disse:

    Litza, tão perfeito seu artigo! Quero que todas as casas o levem para si e o discutam. E gostaria de elencar outras questões relativas:
    – o quanto há de educação e o quanto há de assistencialismo em todas as atividades da casa espírita?
    – qual a relação da existência desses abrigos com a proibição e criminalização do aborto, com a falta de apoio às famílias, principalmente às mulheres/mães?
    – talvez não haja uma educação em si para os que são visitados, uma vez que não há criação de vínculos, mas qual o impacto nos visitantes?
    – é correto aguardar uma situação ideal, que não se sabe se virá, ou é melhor ir fazendo o que é possível?
    Abraços,
    Cláudia

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