
Na atualidade, tenho percebido em certos setores do movimento espírita progressista brasileiro algumas posturas iconoclastas em relação à quase bicentenária tradição de pesquisa espírita. Penso que tais posturas demandam de nossa parte uma reflexão mais profunda, pois revelam, pelo menos para mim, um comportamento que não havia ainda conhecido no movimento espírita brasileiro.
Na esteira do trabalho de Kardec e dos neoespiritualistas anglo-saxões do século XIX, inaugurou-se um período muito rico de pesquisa do fenômeno mediúnico. A preocupação racional e empírica com o fenômeno espírita, psíquico ou paranormal iniciou-se em meados do século XIX com as irmãs Fox e atravessou o século XX chegando até o século XXI.
Surgiram, nesse longo período, as Sociedades de Pesquisas Psíquicas europeia (SPR-Reino Unido) e americana (ASPR- Norte americana), a metapsíquica de Richet, a parapsicologia de Rhine, a psicobiofísica de Hernani Guimarães, as experiências psíquicas no antigo bloco socialista, chegando até nossos dias em pesquisas atuais sobre reencarnação, como por exemplo, as de Ian Stevenson e Jim Tucker, da Universidade de Virginia, Estados Unidos, as expêriencias de quase morte de Sam Parnia e as pesquisas do NUPES, Núcleo de Pesquisas em Saúde e Espiritualidade, da Universidade Juiz de Fora, lideradas pelo Dr. Alexander Moreira, entre outras importantes pesquisas. Dedicaram-se e dedicam-se a essas pesquisas espíritas e não espíritas.
Tenho observado em alguns espíritas progressistas, não todos, felizmente, um certo comportamento que se traduz em relativizar, subestimar, colocar em dúvida sistemática, a importância dessas pesquisas históricas sobre o fenômeno espírita, e uma certa desconfiança generalizada em relação a médiuns e pesquisadores do tema.
Percebi nesses colegas um certo olhar “de cima”, “zombeteiro”, “cético”, um ceticismo além do razoável em se tratando de pessoas que se dizem espíritas. Tais colegas deixam transparecer nesse comportamento, uma certa ideia de que médiuns e pesquisadores do passado e do presente, incluindo Kardec, provavelmente eram e são um tanto ingênuos, quando não fraudadores ou vítimas de fraude.
Entrevi, nessa atitude, um ceticismo que faz fronteira com um antiespiritismo. Observei, na fala desses colegas, ênfases explicativas da mediunidade baseadas tão somente no contexto cultural, no inconsciente e até no pastiche e uma grande má vontade com a história de pesquisa do fenômeno mediúnico. A impressão que tive é que passaram a se utilizar dos argumentos dos adversários céticos do espiritismo, sob pretexto de um espiritismo para o nosso tempo.
Mesmo em relação a médiuns notórios que não se submeteram a qualquer pesquisa como Chico Xavier, tenho visto comentários que resgatam a tese da “biblioteca” de Chico Xavier, aliás, tese essa preferida dos adversários do espiritismo, querendo dizer com isso que a mediunidade de Chico se explica pela muita leitura do médium.
Ante tal postura excessivamente cética desses colegas espíritas é necessário lembrar: A) que existiram e existem médiuns e pesquisadores honestos que se prestaram à pesquisa do fenômeno espírita, pesquisadores e médiuns que, inclusive, sofreram e sofrem na pele o preconceito social, seja do mundo cientifico, filosófico ou religioso, por afirmarem a existência efetiva de tal fenômeno, B) que o que distingue a mediunidade, não é o contexto cultural, o inconsciente ou pastiche, é a percepção extrassensorial que atesta, mediante comportamentos do médium ou informações verídicas, além do conhecimento do médium, a legitimidade da hipótese espírita.
Desde Kardec, inúmeros pesquisadores constataram que a realidade da participação consciente ou inconsciente do médium na comunicação mediúnica, em alguma medida, em maior ou menor grau, não anula a possibilidade de distinção entre os conteúdos anímicos e os de origem espírita. O animismo não anula o espiritismo. Pelo contrário, segundo vários estudiosos do tema, o confirma.
Estava acostumado com os espíritas dogmáticos que idolatram médiuns e espíritos e os tratam de forma acrítica. E com espíritas livres-pensadores que aceitam as teses fundamentais do espiritismo, discutindo, no máximo, o sentido das comunicações, as idiossincrasias dos espíritos e mesmo dos médiuns que influenciam nas comunicações, mas não tinha visto ainda, em meio espírita, essa suspeição generalizada em relação à própria mediunidade e também em relação à lucidez daqueles que tiveram a coragem de enfrentar esse ainda controverso objeto de estudo.
É curioso que cheguei a lembrar de um querido amigo absolutamente descrente do espiritismo. Esse amigo, mestre em filosofia, materialista de carteirinha, brincava comigo chamando William Crookes de William “truques”. Eu e ele dávamos gostosas risadas com seu ceticismo galhofeiro, mas confesso que nunca tinha visto tamanha descredibilização entre os espíritas.
Naturalmente, reconheço os limites da mediunidade, mas devo confessar que me causa muita estranheza verificar, em ambiente espírita, uma tentativa de “forçar”, bem ao estilo dos antagonistas do espiritismo, a ênfase explicativa da vasta fenomenologia espírita em direção às teses reducionistas materialistas, deixando de destacar os fenômenos que favorecem a teoria espírita, os fatos singulares que desafiam o paradigma materialista.
Chamam isso de “testar” a hipótese espírita mas talvez não se saiba ou não se queira lembrar que Kardec, Delanne, Denis, Bozzano, Richet, Crookes Paul Gibier, Gustave Geley, Wallace, Aksakof, Lombroso, Hernani Guimaraes, e tantos outros, que foram ao encontro do fenômeno espírita, testaram, indagaram, questionaram e criticaram o fenômeno, contemplando, em suas análises, as variadas explicações possíveis para tais fatos que não se enquadram facilmente nas explicações do paradigma vigente.
A verdade histórica é que tais pesquisadores foram os primeiros a denunciarem o problema das fraudes e a distinguirem entre o fenômeno anímico e o espírita. Dessas pesquisas, alguns pesquisadores se convenceram da sobrevivência da alma e sua comunicação com o mundo terrestre, outros não se convenceram e outros ficaram em dúvida. Esta é a verdade dos fatos.
É curioso como esses colegas espíritas céticos esquecem que o espiritismo com sua proposta de conhecimento da realidade do espírito está inserido em uma batalha de ideias, em disputa contra o paradigma materialista. Toda a ciência de nosso tempo é feita a partir de um pressuposto metafísico fundamental indemonstrado: o cérebro físico produz o pensamento, morto o cérebro físico, morto o pensamento. O espiritismo desafia esse pressuposto!
Tenho a impressão que tais companheiros espíritas aderiram a um sociologismo indulgente com a tese da imortalidade da alma defendida pelo espiritismo. Segundo alguns deles, essa crença sempre existiu, e por essa razão talvez pensem que esse negócio de pesquisa cientifica do problema do espírito ou é desnecessário, portanto, inútil, quando não um devaneio por suas impossibilidades.
Esquecem que o espiritismo se diferencia dos demais espiritualismos justamente por tais pesquisas. O espiritismo não é um espiritualismo apenas de fé, nos termos da religião, ou de razão, nos termos da filosofia. O espiritismo se caracteriza desde Allan Kardec por valorizar a pesquisa empírica do fenômeno mediúnico. A partir de seu convencimento da existência dos espíritos, após análise racional e crítica do fenômeno mediúnico, Allan Kardec parte para seus diálogos com os espíritos e funda a filosofia espírita. Até hoje há os ressentidos à moda Flamarion, que afirmam que Kardec se apressou nas conclusões espíritas.
Certamente tal postura dos colegas espíritas céticos encontra-se de acordo com o espírito de nosso tempo. No final do século XX e inicio do XXI entramos na era da pós-verdade, das narrativas. E, assim, desintegramos a ideia de verdade, mesmo que na sua forma mais humilde enquanto aproximação do real, e verdade relativa. Dessa forma tudo é narrativa sem compromisso maior com a realidade ontológica do mundo. O espiritismo, sob esse aspecto, é mais uma narrativa para esses propositores de uma velha “novidade” de que o animismo, a fraude e o contexto cultural explicam a mediunidade.
Os espíritas, frente a esta nova era sofista que vivemos, estão em um impasse. Continuarão a investir na identidade espírita e a apostar na relevância racional e empírica da hipótese espírita, insistindo na importância desse tipo de pesquisa, ou se renderão, envergonhados, quase pedindo desculpas pela ousadia de tentar fazer ciência de um objeto de estudo que historicamente pertenceu ao domínio da fé? Na hipótese de rendição, passarão os espíritas a apenas admitir o espiritismo como uma religião, uma fé, uma crença, sem qualquer compromisso com o conhecimento? Parece ser essa a proposta subjacente a essa crítica excessiva a quase dois séculos de pesquisa séria na história do espiritismo.
Paradoxalmente, tal atitude desses espíritas progressistas seria pior do que a dos espíritas conservadores ligados à Federação Espírita Brasileira, pois embora a FEB divulgue um espiritismo com caráter eminentemente religioso, pelo menos admite o chamado tríplice aspecto, considerando o espiritismo como ciência, filosofia e religião.
Já para tais espíritas céticos, devemos aceitar que não há e nunca houve qualquer demonstração satisfatória da realidade do espírito, portanto, que nos conformemos e aceitemos o que diz a nosso respeito a sociologia contemporânea: somos mais uma religião. Segundo alguns deles, devemos considerar apenas os fenômenos espontâneos, os quais certamente continuarão, se assim procedermos, sob o domínio da interpretação materialista que diz que “fé não se discute”, mas ciência mesmo é outra coisa e não tem nada a ver com essas crendices espíritas.
A impressão que tenho é que alguns colegas por não desejarem parecer ingênuos perante o mundo cientifico e filosófico contemporâneo, que, de forma geral, ignora ou despreza o espiritismo, enquanto proposta de conhecimento, acabam por pensar que Kardec, o espiritismo e suas teses, e seja lá quem for que se envolva com o tema espiritismo com atitude de pesquisa, é que é ingênuo.
É necessário, no entanto, cautela! Pode ocorrer que os ingênuos sejam aqueles que não enxergam as possibilidades originais que o espiritismo e toda a pesquisa desta natureza oferecem no sentido de questionamento do paradigma materialista, em termos de conhecimento da natureza ontológica do ser humano.
Lembrei de Voltaire. O grande filósofo iluminista ria para todas as convenções caducas da religião de seu tempo, esse surgimento dos espíritas céticos me faz pensar que nem todo o sorriso é o sorriso de Voltaire. Explico-me. Podemos pensar, em nossa autossuficiência, que estamos ironizando o velho e ultrapassado, mas pode ocorrer que estejamos ironizando justamente aquilo que anuncia o novo.
Ricardo de Morais Nunes, ex-presidente da CEPABrasil, ex-presidente do CPDoc e atual Diretor de Estudos do Centro Espírita Allan Kardec de Santos. Bacharel em Direito e Bacharel e Licenciado em Filosofia.
Observação: As opiniões emitidas nesse artigo representam opinião pessoal do autor e não representam, necessariamente, a opinião das instituições em que atuou e atua.





