O filme Predestinado e minhas lembranças de Arigó

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Desde antes da pandemia que não ia ao cinema e quebrei o jejum ontem, para assistir o filme Predestinado: Arigó e o Espírito de Dr. Fritz. E valeu muito a pena. Um filme bonito, sincero, com sentimento e verdade, sem pieguice – coisa que costuma se dar em filmes com temática espírita.

O ator Danton Mello, que está dizendo em entrevistas que ficou tão mexido com o filme que deixou de ser ateu, tem um papel decisivo nessa qualidade do filme. Ele consegue interpretar uma pessoa boa, simples e emotiva, como Arigó, sem cair naquela costumeira fala mansa e forçada, que muitos atores assumem, quando vão encarnar personagens ligadas ao espiritual. Nem Charlton Heston escapou desse pecado ao interpretar Moisés.

O filme também tem consistência no roteiro e belas imagens rodadas nas cidades históricas de Minas. Um resgate necessário desse fenômeno que foi a mediunidade de Arigó, com a presença espiritual do Dr. Fritz, que vários outros médiuns tentaram repetir depois, mas nenhum com a pureza e a autenticidade desse primeiro e único Zé.

Mas acima de tudo, o filme mexeu comigo, com minhas lembranças da infância, porque Dr. Fritz me curou pela atuação de Arigó. O ambiente do filme em Congonhas, a multidão esperando ajuda, os ônibus despencando até de outros países da América Latina, lotados de gente ansiosa e confiante, o centro espírita simples, acolhedor, a doçura de Arigó e a braveza de Dr. Fritz – tudo isso foi exatamente o que vi aos meus 7 anos de idade, quando estive lá com meus pais, em busca de uma cura.

Conto a história. Desde que nasci, tive recorrentes problemas de ouvido, com infecções graves, que exigiam muitas vezes lancetar o ouvido – lembro-me até hoje o que doía. Aos 7 anos, porém, fiquei surda. Em poucos meses, perdi 80% da audição. Claro que fui levada aos maiores especialistas em São Paulo, incluindo o Dr. Jorge Fairbanks, que hoje dá nome à ala de cabeça e pescoço do AC Camargo, onde estou tratando atualmente do meu câncer de mama (quem quiser acompanhar, veja meu blog). Nenhum deles sabia dizer o que era, não tinham ideia do que fazer. Algum deles propôs então fazer uma operação multifacetada, para ir explorando o ouvido e ver o que estava acontecendo.

Nessa altura, meus pais que, desde há anos, frequentavam a casa de Herculano Pires, resolveram me levar para o Arigó, a conselho do próprio Herculano, que conhecia e estudara a mediunidade dele. 

Pois fomos. Chegando lá, lembro-me que minha mãe ficou constrangida de ver tanta gente (incluindo crianças) com problemas mais graves do que o meu. Não me esqueço da multidão, da sensação de acolhimento e até da sopa substanciosa e forte que tomamos.

Vi-me de repente diante de Arigó incorporado do Dr. Fritz. Perguntou-me qual era o caso. Eu mesma conversei com ele. Disse que estava surda e que os médicos queriam fazer uma operação exploratória. Ele respondeu, fazendo um gesto com a mão, indicando dinheiro: diga aos médicos que exploração é outra coisa. Toma esses remédios que você vai ficar boa. Também recomendou à minha mãe que me desse passes todas as noites, direcionado aos ouvidos, o que ela fez por longo tempo.

Fritz era um espírito sem meias palavras, rude, alemão mesmo. Não enganava ninguém e nem fazia promessas indevidas, como mostra bem o filme. Naquele dia mesmo, havia uma criança com paralisia presente e ele disse que não havia cura para ela.

Também não adiantava se apresentar político, gente de dinheiro, querendo passar na frente. Todo mundo era atendido por ordem de chegada.

E não tinha nenhuma cena de beija-mão, de culto à personalidade (como havia com João de Deus). Nem Fritz nem Arigó permitiam isso. A braveza era uma forma defensiva de impedir esses salamaleques que acabam por corromper o médium e criar dependência.

Era uma atmosfera impactante, pela quantidade de gente doente, pelos resultados, pela sensação espiritual mesmo (eu era médium desde que nasci e lembro-me da vibração). Um momento muito autêntico e generoso do espiritismo no Brasil. 

Chegamos em São Paulo e fomos aviar a receita. Não me lembro de todos os remédios, mas guardei, porque sempre repetíamos em casa, que ele me deu doses maciças de guaramicina – um antibiótico… que causa surdez… Durante dois ou três meses, tomei injeções diárias de guaramicina e ia sentindo o ouvido abrir a cada dia. Ou seja, Fritz usou um princípio homeopático (semelhante cura semelhante), com a alopatia.

Ao final da receita, eu estava curada. E 6 meses depois de termos estado em Congonhas, Arigó morreu num acidente de carro.

Até hoje me lembro de voltar em todos os médicos que havíamos consultado antes, e dizer que estava curada. E quando eu dizia cheia de petulância e provocação que tinha sido Arigó, eles me esquadrinhavam, querendo entender como aquilo tinha acontecido. 

Por incrível que pareça, nunca mais tive nada no ouvido. Salvo quando minha mãe ficou com câncer e desencarnou em 3 meses. A notícia veio acompanhada de uma otite violenta, que se curou antes dela partir e até hoje, passados mais 25 anos, meu ouvido nunca mais se manifestou. Foi uma cura duradoura. E que ligação tinham meus problemas de ouvido com minha mãe? Não tenho ideia.

Sei que o filme me remeteu a toda essa vivência da infância e me fez lembrar o quanto tudo isso marcou minha vida, me ancorou no espiritismo e me despertou para as questões da mediunidade. Uma missão bem cumprida, como a de Arigó, deixa marcas, exemplos e ressonâncias para sempre. 

Não percam Predestinado. É emocionante!

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4 respostas para O filme Predestinado e minhas lembranças de Arigó

  1. Marcelo Teixeira disse:

    Depois desse belo relato, decerto assistirei ao filme. Obrigado, Dora!

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  2. Fátima Tinoco disse:

    Que experiência rica, tive vários problemas na infância, e fui curada por médiuns dedicados como Zé Arigó e uma Medium excepcional que foi minha Mãe, da qual herdamos a fé e a confiança em Jesus ❤️✨bacana seu testemunho e me deu mais vontade de ver este filme

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  3. Elizabeth Maria Neves Mendonça Pereira disse:

    Que relato inspirador, Dora Incontri! 🪷🙏

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