Nosso balanço de 2019 – tristezas e esperanças

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O balanço aqui não será financeiro – pois a escassez, o suor e a luta em 2019 foram ainda maiores do que costumam ser, apesar de sempre contarmos com alguns anjos bons encarnados que nos amparam financeiramente. Mas como a crise está generalizada, cada vez menos as pessoas podem dispor de dinheiro para a compra de um livro, para a assinatura de um curso, para uma doação a uma boa causa ou para a presença em nossa pós em Pedagogia Espírita – que têm desde 2005 impactado a vida de muita gente, como todos e todas, que fizeram o curso, costumam comentar.

Faremos aqui o balanço de trabalho e de avanços que tivemos nesse difícil ano de 2019.

O Brasil, como se sabe, se polarizou de maneira absurda, muitas vezes violenta. E, embora, a ABPE não faça política partidária e, por isso, não apoie esse ou aquele candidato ou partido (é claro que seus membros individualmente têm plena liberdade de fazer isso, como cidadãos), tivemos que claramente escolher um lado.

O nosso lado tem sido o da não-violência, o dos princípios de Jesus de solidariedade, fraternidade e amor universal, de combate a qualquer tipo de discriminação e o da crítica às injustiças e desigualdades sociais.

O que isso significa? Significa dizer que não estamos satisfeitos (como ninguém em sã consciência deveria estar) com o Brasil e com o mundo em que vivemos. Nosso dever é trabalhar por um mundo mais justo, com menos desigualdade, onde os direitos à vida, ao trabalho, à dignidade, à saúde, à educação sejam favorecidos, como bens necessários a todos os seres humanos.

Desde a sua fundação, a ABPE tem militado pela Pedagogia Espírita, que se pretende em construção, como uma pedagogia de amor, liberdade e igualdade com singularidade. Estávamos num caminho de defender uma nova e mais profunda educação emancipatória, crítica, amorosa e que incluísse a espiritualidade de forma não confessional, inter-religiosa, na formação de pessoas que respeitem a religião ou a não-religião do próximo. Não abandonamos essa luta e esses princípios, que vêm desde Eurípedes Barsanulfo e passam por Anália Franco e Herculano Pires, entre outros. Mas, agora, parece que tivemos de recuar dois passos atrás, e defender princípios mais básicos, como a liberdade religiosa em si, o Estado laico (esse que garante a liberdade de crença e não-crença e não favoreça nenhuma religião em particular), a garantia constitucional de liberdade de expressão das artes, a luta contra o armamento da população, o direito do cidadão ao trabalho, com dignidade… enfim, são tantas frentes, que parece que a militância por uma educação melhor ficou empalidecida pelas múltiplas causas e bandeiras que temos de levantar para barrar esse retrocesso civilizatório que estamos sofrendo.

Mas o que mais nos faz sofrer, a nós espíritas, que compreendemos que estamos atravessando no Brasil e em muitas partes do mundo um período de ascensão do fascismo e de perda de direitos fundamentais – esses direitos tinham apenas um status incerto numa sociedade capitalista, cada vez mais selvagem – é que muitos, para não dizermos, a maioria dos que se dizem espíritas, não têm essa consciência política e apoiam o autoritarismo, o militarismo, os retrocessos… Ou seja, não entendem que o espiritismo teve na sua proposta kardecista, um aspecto essencialmente progressista – o que quer dizer, a favor de mudanças sociais e não de retrocessos. Em cada época, esse termo progressista terá suas próprias pautas. Para dar alguns exemplos didáticos: ser progressista no século XIX no Brasil era ser abolicionista; ser progressista no século XXI é ser anti-racista, pois o racismo é uma herança estrutural da escravidão na sociedade brasileira. Ser progressista no século XIX no mundo era ser a favor do voto feminino e da participação da mulher no campo do trabalho (Kardec defende o voto feminino e a formação de médicas na Revista Espírita – apesar daquela infeliz questão do Livro dos Espíritos, 822a, em que se diz que as mulheres devem se ocupar “de dentro” e os homens “de fora”.) Ser progressista no século XXI é ainda lutar por igualdade de salários e direitos das mulheres e contra toda a cultura de violência, estupro e feminicídio, cujos números aumentaram assustadoramente no Brasil do retrocesso fascista.

Ser progressista no século XXI inclui estar ciente da grave crise climática que o planeta atravessa e trabalhar pelas causas ecológicas e fazer eco a um apelo como de Greta Thunberg ou como o de Eliane Brum, que está no meio da floresta amazônica, denunciando os assassinatos de indígenas e de ambientalistas.

Isso tudo deveria ser óbvio para todos os espíritas, mas não é. Por isso, tivemos que na ABPE, levantar tais bandeiras, escrever e assinar manifestos. Mas vimos com alegria nesses dois últimos anos, o nascimento de vários grupos espíritas progressistas, que interagem conosco para garantirmos que os espíritas não passem em bloco à história como apoiadores de ditaduras, torturadores, machismo, discriminações e exploração do povo mais pobre e desprotegido socialmente.

Ao mesmo tempo, temos a alegria de estender as mãos a grupos e pessoas de outras religiões ou sem nenhuma forma de espiritualidade, mas que trabalham pelas mesmas causas de melhoria do mundo. Desde sempre, a ABPE fez um trabalho de diálogo inter-religioso, nos livros da Editora Comenius, em nossos congressos de Educação e Espiritualidade, em nossa pós de Pedagogia Espírita, em nossos cursos da Universidade Livre Pampédia. Mas, por termos explicitamente assumido as causas sociais que preocupam as mentes livres e progressistas do momento, estamos sendo mais vistos e estamos demarcando um território de espíritas participantes na sociedade.

Minha coluna Espiritismo Progressista, inaugurada esse ano no Jornal GGN é um exemplo dessa maior visibilidade.

Não sabemos como será 2020. Não devemos ser ingenuamente otimistas. A onda fascista ainda está em alta no planeta. Mas ela passará. E cabe-nos orar, trabalhar, resistir, manter a esperança e a paz de espírito e, sobretudo, não ceder ao ódio. Os que apoiam o autoritarismo, o neoliberalismo predatório da natureza e da justiça social, com a privatização de tudo o que é mais sagrado para a vida humana – como a saúde, a educação e até a água! – não sabem o que fazem. O que é direito de todos não pode ser fonte de enriquecimento absurdo de alguns, porque então a maioria ficará sem esses bens fundamentais. As convulsões sociais e o sofrimento coletivo que decorrerão dessas atitudes políticas e econômicas de uma elite planetária sumamente egoísta e abusiva, hão de gerar uma nova consciência. Somos evolucionistas, não somos? Cabe-nos trabalhar arduamente pela evolução do planeta. Mas podemos trabalhar com esperança, confiança e serenidade. Porque o excesso de mal despertará as consciências para o bem.

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7 respostas para Nosso balanço de 2019 – tristezas e esperanças

  1. Juliana disse:

    Simplesmente esclarecedor. Bem didático e com muito afeto como de costume. MUITO BOM.
    Beijos Juliana Araujo

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  2. VALÉRIA disse:

    A luta é árdua, o caminho é sem fim… Ao contato com os esforços dessa equipe encarnada; seus suores e suas lágrimas respingaram em mim como orvalho renovador. Deus os abençoe e fortaleça!

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  3. hilton dominczak disse:

    Dora, você menciona no texto “o nascimento de vários grupos espíritas progressistas”. Pode informar os nomes desses grupos na cidade de S. Paulo? Isso seria útil para muitos espíritas que, como eu, desejam participar de grupos com visão crítica da sociedade, ou seja, um Espiritismo verdadeiramente participante ativo das lutas sociais. Obrigado.

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  4. Antonio Carlos Molina disse:

    De pleno acordo, Dora, querida!
    Um grande 2020, com muita paz, alegria e utopia!
    Beijos

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  5. Vilma Peramezza disse:

    Muito bom esse texto que expõe um espiritismo moderno e coerente .
    Quero mais informações .

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