Espiritismo como limite ou como ponte?

15M-4

Hoje a Associação Brasileira de Pedagogia Espírita completa 15 anos de sua fundação. Muitas lutas, muitas conquistas, muitos entraves, muitas perseguições, algumas deserções – mas muito trabalho até aqui e sempre almas que se agregam para mais trabalho. Como presente de aniversário hoje, temos o artigo de Litza Amorim abaixo, mais uma vez afirmando nosso compromisso com um espiritismo livre, progressista, que não faz política partidária, mas assume posições em favor de uma sociedade melhor, mais justa, mais pacífica e mais igualitária. (D.I.)

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Acompanhando a tendência geral da sociedade brasileira, uma grande vergonha para o movimento espírita e espiritualista nacional, em 2018, foi ter a maioria de seus adeptos votantes em Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais. Foram 48% de espíritas kardecistas e espiritualistas que votaram em Bolsonaro, enquanto Haddad amealhou 39% desse público. Bolsonaro também recebeu 49% dos votos dos católicos, 59% dos evangélicos e, em contra-tendência, somente 27% dos adeptos da umbanda, candomblé ou outras religiões afro-brasileiras, segundo dados da Pesquisa Datafolha[1].

Esses números poderiam servir de mote para pensarmos sobre em que medida as religiões funcionam como cabrestos ideológicos, ou, com um olhar mais apurado para os dados, para observarmos as intersecções entre classe e dominação ou resistência cultural, considerando especialmente o antagonismo expresso entre as religiões evangélicas e afrobrasileiras, em termos de origem histórica, teologia e posicionamento político[2].

Entretanto, nesse artigo vamos fazer um zoom sobre o movimento espírita, abordando como os espíritas se posicionaram durante o processo eleitoral de 2018. Parte dos espíritas progressistas fez manifestos e abaixo-assinados[3] contra a candidatura de Jair Bolsonaro, que já demonstrava abertamente suas tendências fascistas durante a campanha.

Há também aqueles que apoiaram Bolsonaro publicamente. Analisando esse caso, já abordamos, no blog da ABPE, a temática dos aspectos inconscientes do ser humano em interação com a sociedade capitalista moderna. Há ainda muito a ser feito para superarmos as tendências psicossociais que mobilizam  pessoas para a identificação com figuras autoritárias, para a simplificação do pensamento, a eleição de bodes expiatórios para os problemas sociais (nesse caso, consideramos a demonização social do ex-presidente Lula e do candidato Fernando Haddad – situações do tipo bode expiatório).

Um terceiro grupo de espíritas visto em 2018 foi o dos isentos, reticentes, daqueles que não se posicionaram, não se manifestaram, não consideraram os rumos do país uma questão para os religiosos. É a eles que esse texto se dirige, é sobre eles que esse texto trata. Muitos desses espíritas justificam seu “não-posicionamento” político com o argumento de que o espiritismo é uma doutrina de evolução individual, reforma íntima, caridade, etc, que, segundo essa tese, não implicaria na necessidade de se interessar e se engajar nas temáticas coletivas.

Essa afirmação parece-nos herdeira de uma tendência católica de priorizar a suposta “santificação individual” em detrimento da atuação social. A preocupação individualista com sua própria “evolução” – como se fosse possível um desenvolvimento humano puramente individual – se assemelha a neuroses de salvação provocadas por religiões que ameaçam aqueles que andam fora da linha com as chamas do inferno.

Já há muito tempo as correntes religiosas progressistas, como a teologia da libertação, por exemplo, enfatizam que as implicações políticas de uma tradição que tem como mandamento “amar ao próximo como a si mesmo” (ou, no caso específico do espiritismo, “Fora da caridade não há salvação”) deveriam ser de interesse de todos os religiosos. A proposta espírita, aliás, nos conduz a colocar teologias, rituais e discussões metafísicas como subordinadas ao imperativo do amor ao próximo.

  Todo o desenvolvimento das ciências humanas baseou-se na percepção de que a constituição e o desenvolvimentos dos sujeitos é realizada via socialização, ou seja, a sociedade nos constitui, está dentro de nós. Por outro lado, ao agir no mundo, expressamos uma síntese singular do mundo social.  Dessas premissas derivam a percepção de que existe uma relação dialética entre indivíduo e sociedade para o desenvolvimento de ambos.

O ReinoAmar ao próximo, assim, deve significar empenhar-se pela educação, pelo desenvolvimento de todos. Essa é a proposta da pedagogia espírita, do espiritismo compreendido como projeto educacional da humanidade. “Transformar o mundo pela transformação do homem e transformar o homem pela transformação do mundo. Eis a dialética do Reino, que o cristão deve seguir”, propõe Herculano Pires em O Reino.

Podemos argumentar também que o espiritismo nasce historicamente envolvido em movimentos de transformação social. O espiritualismo estadunidense no seu início no século XIX abraçou as lutas pelos direitos das mulheres e pela abolição da escravidão negra. Já Kardec reconhece, em artigo publicado no dia seguinte à sua morte na Revista Espírita, sua dívida com relação a socialistas utópicos como Jean Reynaud, François Marie Charles Fourier e Eugène Sue, como relembra a pesquisadora Célia Arribas[4].

Mais do que utilizar o argumento de autoridade segundo o qual Kardec ou a doutrina espírita considera que o imperativo ético do amor ao próximo tem implicações sociais e políticas, fazemos um apelo à razão e à consciência do leitor, ressaltando que uma espiritualidade realmente libertadora só pode ser aquela que nos conclama a tomarmos autonomamente nossas posições éticas e políticas.

Seguir Kardec, ao nosso ver, é assumir os pressupostos do espiritismo de progressividade do conhecimento e liberdade de consciência. É ir além de Kardec, dialogando com os avanços culturais de nossa época, e tomando, de acordo com nosso conhecimento, experiência e consciência, nossos próprios posicionamentos.

Penteado2Ao analisar o caso João Penteado, educador, espírita e anarquista que foi diretor da Escola Moderna N. 1.[5], principal iniciativa dos anarquistas paulistas no campo da educação escolar, Fernando Peres[6] afirma que João Penteado transformou o espiritismo em ponte, enquanto para outros companheiros espíritas de sua época o espiritismo era o limite do progressismo de suas ideias e práticas.

Caetano Lourenço de Camargo, professor e membro do círculo de convivialidade espírita de João Penteado em Jaú, representaria o aspecto conservador do movimento espírita no início do século XX no Brasil, que se adaptou à maioria dos ditames sociais em voga, enquanto João Penteado exemplificaria o caráter do espiritismo progressista:

…enquanto para Caetano a doutrina espírita foi o limite, para João a mesma doutrina havia se constituído como um campo aberto de possibilidades. Pelo mecanismo da sociedade de ideias, a partir da rede de sociabilidades, João Penteado valeu-se do microclima favorável às ideias avançadas da época. (…)(PERES,2012, p.112)

Usando as categorias de Fernando Peres, conclamamos os espíritas brasileiros a fazerem do espiritismo uma ponte para as ideias emancipatórias que nossa sociedade produz, na tentativa de superar a dominação econômica, política, cultural e espiritual que vivemos, e construir uma sociedade onde todos possam se desenvolver e o amor possa, enfim, frutificar.

 

[1] Pesquisa Datafolha – 25 de outubro – intenção de voto por segmentos.

[2] Para aprofundar a reflexão sobre as relações entre religião e política, sob o olhar do desenvolvimento da teoria política marxista, confira nosso artigo no blog da ULP.

[3] Foram registrados em diversos sites da imprensa brasileira manifestos em favor de uma agenda progressista, como o Manifesto Espíritas em defesa da Democracia  (28/03/2016), na ocasião da votação do impeachment da presidente Dilma Roussef; Manifesto por um espiritismo kardecista livre (07/02/2019); um abaixo assinado, Espíritas progressistas respondem à entrevista coletiva de Divaldo Franco e Haroldo Dutra no congresso de Goiás (17/02/2018), defendendo pesquisas e educação acerca das relações de gênero; e outro manifesto, Manifesto de espíritas progressistas pede justiça, paz, democracia e #EleNao (15/09/218), na ocasião das eleições presidenciais de 2018. 

[4] ARRIBAS, Célia da Graça. Afinal, espiritismo é religião? A doutrina espírita na formação da diversidade religiosa brasileira. São Paulo: Alameda, 2010.

 [5] A Escola Moderna N.1 funcionou entre os anos de 1912 e 1919, quando foi fechada pelo Governo do Estado de São Paulo.

[6] PERES, Fernando Antonio. João Penteado: O discreto transgressor de limites. São Paulo: Alameda,2012.

 

 

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3 respostas para Espiritismo como limite ou como ponte?

  1. Deise Toledo Carrijo disse:

    Profundo, simples, claro e objetivo, para refletir, e muito!
    PARABÉNS ABPE!!!👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

    Curtido por 1 pessoa

  2. Marcelly disse:

    Sabiá reflexão. Inovar no sentindo de refletir sobre o que já foi feito, sobre o que é e tudo que pode ser a doutrina Espírita bem compreendida… e bem sentida. Parabéns ABPE!

    Curtido por 1 pessoa

  3. José Przybysewski disse:

    Sou Espirita, é a primeira vez que encontro um texto com conteúdo progressista, com reflexão muito profunda…,parabéns.

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