A relação entre religião e artesanato, por Octávio Paz

800082-1523131211O escritor mexicano Octávio Paz (premio Nobel de literatura), escreveu um ensaio (que foi publicado por aqui na revista RAIZ em 2006, com tradução de Alexandre Bandeira), sobre o artesanato e o equilíbrio entre a beleza e a utilidade, a arte e a tecnologia. No texto, ele compara de um lado a história da arte com a história do cristianismo, e de outro discute sobre a imaterialidade do objeto industrializado, para enaltecer o artesanato. Mas o que essa declaração de amor ao trabalho do artesão tem a nos dizer sobre a religião?

A história do cristianismo começa simples, com um carpinteiro judeu, e vai ficando cada vez mais complexa. A igreja que nasceu da ressureição de Jesus, atingiu em alguns séculos um poder inimaginável. Seus sacerdotes, responsáveis por intermediar a relação dos homens com Deus, seus teólogos que dedicaram as mais sérias elaborações interpretativas para determinar e justificar dogmas, e seus mártires que desafiaram muitas vezes o poder da própria igreja questionando seus desvios, tem muitas similaridades com a história da arte.

No Renascimento, (século XIV) a ressureição da produção escrita e material da Grécia antiga transformou o que era artesanato em ícone reverenciado. “Arrancados de seu contexto histórico, de sua função específica, de seu significado original, postos à nossa frente em suas vitrines, parecem-nos divindades enigmáticas, exigem nossa adoração” nos diz Octavio Paz. Nesse sentido pode-se dizer que a arte virou religião, e com o passar dos séculos também se cercou de teólogos (críticos de arte), templos e sacerdotes (museus, galerias e curadores) e mártires (artistas perseguidos por usarem a arte para contestarem os poderes estabelecidos).

No século XX, a reprodutibilidade técnica da fotografia, das máquinas de impressão, da produção em escala industrial de peças iguais, esvaziou o sentido da habilidade manual do artista e da relação afetiva com o objeto e seus múltiplos significados. A tecnologia e o design buscam a invisibilidade do objeto em favorecimento de sua função (pensem no caminho evolutivo da música tocada ao vivo para o disco de vinil, para o a fita K-7, o CD, o MP3 Player até o aplicativo de streaming…). E no meio do caminho entre a máxima praticidade e o objeto único irracionalmente adorado (como a Mona Lisa no Louvre), temos o artesanato. 

O artesão não tem pátria, ele tem comunidade. Ele não é fiel a uma ideia (imaterial) ou a uma imagem (única), sua fidelidade é com o ato de fazer. A organização social da oficina do artesão é hierarquizada pelo grau de habilidade, e as individualidades se manifestam através da criatividade. O resultado do trabalho do artesão é um objeto que tem uma função, mas que não se define apenas por ela. Um objeto que é único por suas pequenas imperfeições embora seja semelhante aos da mesma família, e que ao mesmo tempo não é destinado a durar eternamente.

Para Octávio Paz, o artesanato é uma metáfora para o que é essencialmente humano, sua mortalidade, sua individualidade, seu fazer-se por si mesmo na experiência do dia-a-dia. Do mesmo jeito que o artesanato como entendido por ele é uma metáfora para uma religião natural, sem a elaboração interpretativa, sem a intermediação burocrática, sem templos e instituições. No artesanato e na espiritualidade nós temos mestres mais habilidosos que nos ensinam com seus exemplos, e vamos lapidando nossa habilidade com criatividade, unindo beleza e função prática (cotidiana) com nossas próprias mãos.

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2 respostas para A relação entre religião e artesanato, por Octávio Paz

  1. Apinas disse:

    Na década de 60, Wallace Leal Valentin Rodrigues entrevistou Chico Xavier e a última pergunta (e subsequente resposta) foi a seguinte:
    “Admite você que o Espiritismo pode servir ao bem comum sem vincular-se à religião?
    — Não creio. Tenho aprendido com os Mensageiros da Vida Superior que qualquer trabalho de melhoria, burilamento, corrigenda ou elevação da alma, sem apoio religioso, fracassa na certa. Compreendo, pois, que para nós, os cristãos, servir sem Jesus é impossível.”
    Não sei ao certo como o texto fez-me lembrar desta entrevista, mas aí está… interpretem-na como quiserem, mas fato é fato… eis a realidade!

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  2. litzaamorim disse:

    Que ótima metáfora a da oficina!

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