O papel do professor e suas dificuldades

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Muito se fala sobre o papel do professor e da sua sublime missão na arte de ensinar. Este profissional que, atualmente, está sendo muito cobrado pelas instituições e pelas famílias, deve ser cada vez mais completo, em magnitude, nos mais diferentes aspectos. O bom professor deve dominar o conteúdo, saber se relacionar bem com as crianças e pais, possuir habilidades de artes, dança, música, teatro, além de ter que passear pelos mais diversos papéis sociais e muitas profissões: entender um pouco de psicologia, enfermagem, administração, e inclusive, ser pai e mãe, muitas vezes, na tentativa de suprir a carência emocional das crianças. Dentro de toda esta demanda, ainda se inclui um valor principal, o mais importante, ter uma evolução moral, ser uma pessoa em busca do aprimoramento de si mesmo.

Em relação a este aspecto, muitos educadores de referência, também demostraram sua preocupação quanto à qualificação deste profissional. Maria Montessori, por exemplo, descreveu as qualidades que o professor deveria ter. Antes de julgar e criticar seu aluno, o professor deveria fazer uma reflexão e análise de si mesmo:

“Nesta ordem de ideias, diremos que o professor deve ser iniciado. Ele preocupa-se excessivamente com “as inclinações da criança”, o modo de “corrigir erros da criança”, ao passo que deveria estudar-se a si mesmo, descobrindo seus defeitos, as suas más tendências. Devemos ser educados se quisermos educar.” (A criança, pág. 141)

Conterrâneo de Montessori, Janus Korczak, polonês e judeu, também foi um exímio educador, que morreu com suas duzentas crianças no campo de concentração. Sob todas as adversidades que viveu, ele afirmava:

“Vocês dizem: cansa-nos ter de privar com crianças. Têm razão. Vocês dizem ainda: Cansa-nos, porque precisamos descer ao seu nível de compreensão. Descer, rebaixar-se, ficar curvado. Estão equivocados. Não é isto que cansa, e sim, o fato de termos de elevar-nos até alcançar o nível dos sentimentos das crianças. Elevar-nos, subir, ficar nas pontas dos pés, estendermos a mão. Para não machucá-las.” (Os órfãos de Korczak pág. 25)

É raro, é verdade, encontrar este educador de almas, completo, que veja na criança mais do que um aluno, mas um ser divino em evolução que necessita de amor, olhar sensível e tempo para que seja despertada em seu espírito único, a vontade de aprender e de desbravar o mundo.

Contudo, percebo também, que contrapondo a todos estes aspectos que o verdadeiro educador deve ter, este profissional encontra-se cada vez menos valorizado na sociedade em geral. Este descaso é visto, tanto pelas famílias quanto pelas instituições que os acolhem, sejam públicas ou privadas.

É um fato facilmente verificável, as fortes cobranças que este “super professor” sofre em todos os setores. Os pais estão mais ausentes na vida de seus filhos e desejam que os professores deem conta do buraco emocional deixado por eles, acrescentando no currículo mais uma disciplina: a educação doméstica. Por outro lado, a maioria das instituições de ensino exigem qualidade de aprendizagem com o menor recurso possível. Diminuem materiais a serem utilizados em sala, colocam mais alunos do que a capacidade da sala comporta, além de propiciar ambientes inadequados que não colaboram com a aprendizagem. Então o professor vira um “malabarista” que deve continuar suas aulas, sem sentir esta defasagem na educação.

Dora Incontri, grande educadora da atualidade e propagadora da Pedagogia Espírita, já relatou o crítico quadro e essas dificuldades enfrentadas pelos professores em seu livro Educação Segundo o Espiritismo (pág. 203):

“Na escola particular, professores são empregados, com um comprometimento obrigatório com o resultado escolar. Na escola pública, esse comprometimento não é cobrado ou verificado por ninguém e os salários irrisórios resultam, na maioria das vezes, em total indiferença.”

Deste modo, o professor fica esmagado, no meio, destes grandes conflitos sociais, necessitando da renda para sustentar sua família e dando o seu melhor dentro do ambiente em que se pode atuar, muitas vezes até de forma limitada. Mas o que fazer para modificar este quadro? Como despertar a consciência dos governantes a respeito desta função tão importante? Dá para trabalhar com dignidade e respeito exercendo com excelência a sua função?

É verdade que não existem respostas prontas e fechadas para estas questões, mas deixo-as como reflexões para sairmos da zona de conforto, zona esta que Paulo Freire rotulou de condicionamento. Com certeza, muitos destes levantamentos não dependem, exclusivamente, de nossas ações individuais para solução completa, são questões complexas que envolvem muitos outros fatores. Contudo, é importante o despertar da consciência para que possamos sair de uma visão ingênua e alienada para uma postura mais crítica e atuante. É necessário e até mesmo imprescindível nos percebermos como agentes transformadores da sociedade e nos vermos como seres inacabados e em eterna construção. Ao desenvolver uma visão mais ampla deste panorama educacional brasileiro, resta-nos como ideal trabalhar no plano individual e coletivo, escolhendo sempre as soluções mais humanistas e mais amorosas, na esperança de um futuro mais promissor para todos. Pois não é possível viver sem as rodinhas, sem as músicas, sem as danças, sem o teatro, sem pintar, sem a alegria e, principalmente, sem o amor deste profissional fundamental para evolução da nossa sociedade.

 Jamile Tupinambá

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