Uma estratégia, diria equivocada, no trato da questão da defesa da vida

Navegando no mar revolto das redes sociais, observando eventos e narrativas no âmbito do movimento espírita, percebe-se que, no tocante à chamada defesa da vida, em sentido diverso da década de 90, debandamos de forma majoritária, como grupo religioso, para uma estratégia de atuação nessa questão pela via do debate político-legislativo, acompanhando projetos de lei, pressionando políticos, fazendo marchas, abaixo-assinados, tuitaços, panfletos e campanhas às portas da eleição, preocupados com ameaças às leis que existem, ou outras novas que floresçam sobre o tema. Pouco usual nas fileiras espíritas, mas é um caminho de se tratar essas questões…

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É o que se vê por aí, via de regra, e tem sido, como se defenderá aqui, uma estratégia que pode ser sujeita a equívocos. Como no dito gaúcho, percebe-se que é “muita tosa e pouca lã”, atrelando a trincheira espírita nesse assunto a outros movimentos e jogos de força que se perdem por vezes em discussões estéreis, longe do mundo real das pessoas, suas dores e seus conflitos.

Cabe a reflexão do porquê essa linha político-legislativa é carente de efetividade.

O Código Penal de 1940 proíbe o aborto, com exceções, e o debate vai e vem, com discussões de interpretação dessa norma, como a atual no Supremo Tribunal Federal, à luz da Constituição Federal. Mas essa antiga vedação na Lei não tem se correlacionado com as estatísticas, e não tem impedido clínicas clandestinas, aborteiras e a realidade do “rica paga e pobre morre”, com uma visão da questão totalmente focada na mulher e na sua responsabilização, simplificando o problema a uma decisão de um agente somente.

Curiosamente, buscando dissociar o inseparável, essa discussão não se comunica com a intolerância à educação sexual nos currículos escolares, a campanhas de planejamento familiar e de uso de preservativos, ao fato do sexo ainda ser tratado como um tabu, carregado de preconceitos e vieses, não conseguindo materializar o ideal de laicidade da escola, necessária a uma sociedade democrática.

No campo espírita, nossos saberes nos mostram a importância da vivência da sexualidade com responsabilidade, e ainda, a relevância do processo de encarnação, de formação de uma vida pelo aspecto espiritual e de como isso vincula pais, mães e outros envolvidos, com o potencial de romper essa visão que joga na mulher todo o ônus dessa questão.

Em relação às chamadas drogas, algumas proibidas legalmente, outras estimuladas em fartas campanhas publicitárias, apesar de serem em parte proscritas por normas formais e informais, esse regramento não tem impedido um cenário de pontos de venda ao ar livre, corrupção dos órgãos repressores, deficiências de políticas públicas que tratem do dependente, e ainda, restrições sem fundamento ao uso medicinal destas.

Nas ditas drogas legais, o que se apresenta como efeito são acidentes automobilísticos, doenças crônicas, violência doméstica e uma gama de ocorrências associadas, que não as distinguem das demonizadas drogas ilícitas, ainda que na prática ambas figurem na realidade sem grandes problemas, dada a tolerância da população e a ineficiência dos mecanismos repressivos.

O espiritismo, por trabalhar o respeito ao corpo, pela visão do períspirito e da reencarnação, e por tratar as discussões da lei de causa e efeito, pode ajudar a entender o quão prejudicial é o uso de substâncias que afetam a saúde corporal e espiritual, mostrando que além de trazerem prejuízos a vida social do espírito encarnado, afetam suas encarnações vindouras. Substâncias em um sentido amplo, não apenas as previstas na legislação.

Por fim, a chamada pena de morte só é prevista legalmente no Brasil em caso de conflito armado, mas isso não tem inibido a ocorrência de linchamentos, autos de resistência, condenação de criminosos pelos seus pares nas comunidades, juntamente com a apologia explícita a execuções de diversas ordens como solução das mazelas da política de segurança pública.

Desde O Livro dos Espíritos, e outras obras subsequentes, esse tema comparece na discussão espírita, indicando a reencarnação como um elemento ressignificador da justiça e apresentando o perdão e a educação como saídas dos problemas da humanidade, enxergando pela ótica espírita as causas e contextos do crime e que dar asas aos anseios do cérebro reptiliano não resolve os problemas sociais.

Tomando-se apenas esses três mais emblemáticos pontos[1]: o aborto, as drogas e a pena de morte, percebe-se que a abordagem político-legislativa do tema pode nos conduzir a pouca efetividade, tendo como externalidade as tensões do extremismo atual, incisivo apenas no discurso, e pior, resgatando o conservadorismo alienado que em outras denominações religiosas não deu certo, podendo induzir a ideia de que essas coisas acontecem somente fora da porta das casas espíritas, cabendo a nós a cruzada moralizadora de levar essa mensagem ao resto da humanidade, utilizando para isso o caminho da política partidária. Caminho perigoso…

Temos na Doutrina Espírita elementos para que nós sustentemos a nossa prática em defesa da vida, por meio do exemplo que arrasta, fugindo ao cômodo debate de posições políticas, que deságua essa questão sobre uma legislação que já existe, mas que as estatísticas formais e informais, aliada aos noticiários, insistem em informar que algo não está certo, e que posturas apenas superficiais, de posições aferradas em polêmicas de redes sociais, não nos permitem chegar ao âmago dessas questões, ao “coringa do baralho”. Talvez estejamos com uma estratégia equivocada…

O que leva uma pessoa a abortar? Por que as pessoas buscam a fuga das drogas? Por que a morte cruel é vista como instrumento de promoção da justiça? As respostas são complexas, profundas, e por vezes indigestas, mas podem nortear uma estratégia de luta pela vida mais plausível e mais afinada com a realidade, que traga mais resultados, longe dos holofotes e dos palanques.

O aborto surge de várias situações, das quais podemos enumerar a irresponsabilidade do uso da função sexual, mas também por conta da pressão social, da vergonha, da ilusão de promessas não realizadas, da ausência de planejamento familiar, bem como da falta de esclarecimento e até pela via de questões culturais.

As drogas emergem do culto ao prazer, do acesso a tecnologias químicas com a promessa de dar um sentido à existência, da busca de transcender esse cotidiano alienado da vida moderna, da fuga de problemas e frustrações, mas também com forte componente cultural e de aceitação social, em especial na adolescência.

O justiçamento pelo assassinato é oriundo de um momento de valorização de extremismos, da falta de confiança nas políticas públicas, de decepção com o ser humano, de busca de respostas simples para problemas complexos, de forma a aplacar o ódio imediatista das pessoas, diante da profusão de comunicação que nos brinda dia a dia com desastres sociais e com lados menos conhecidos da natureza humana.

Como se vê, nossos “alvos” na verdade são consequências de coisas maiores, de questões do espírito e da sua vida em sociedade, de dilemas filosóficos e psicológicos que não encontrarão sua solução malhando no ferro frio de leis (que já existem) e sim na atuação sobre a dimensão humana, fonte e origem desses males, com o que contribui muito o espiritismo com a palestra e o livro, mais frios, mas também com o calor do atendimento fraterno, da boa conversa e do trabalho assistencial junto aos que sofrem. Velhos instrumentos que não podem ser abandonados!

Se a busca é por efetividade e não por discurso, tem-se na Doutrina Espírita elementos que subsidiam com tranquilidade a atuação nessa linha, junto ao nosso público, deixando essa e outras bandeiras legislativas, algumas ignoradas, para seu campo próprio, como cidadãos, pois o momento exige não os holofotes dos macro debates, que escondem sepulcros caiados, mas sim a força da atuação nos espaços micro, de grande resultado, como dizia Jesus na fala da ovelha perdida.

Marcus Vinicius de Azevedo Braga

[1] Lamentavelmente, o tema da defesa da vida focou recentemente na questão do aborto com grande ênfase, e pouco se fala nas discussões de Pena de Morte, Suicídio e Eutanásia, embora essas questões continuem presentes no cotidiano da sociedade, e em ascensão.

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Uma resposta para Uma estratégia, diria equivocada, no trato da questão da defesa da vida

  1. Roberto disse:

    Excelente texto. Parabéns

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