Como a Psicologia pode ajudar nas comunicações com os Espíritos?

hypnotisk_seans_av_richard_bergh_1887No grupo de mediunidade pedagógica, na ABPE, diversos assuntos são destacados e discutidos à luz da Doutrina Espírita, mas não apenas. Entendemos que o Espiritismo pode (e deve) dialogar com todos os saberes humanos, porém, numa dialética positiva, usamos os recursos de muitos destes saberes para enriquecer as ideias que surgem, dando corpo e sentido aos temas que debatemos. Por exemplo: a questão 806 de O Livro dos Espíritos, que toca no tema das desigualdades sociais, pode e deve ser discutida com o apoio da sociologia, mas não somente. Também a Filosofia, a Política, a História e a Psicologia podem nos ajudar nas reflexões.

E não foi esta a orientação do próprio Kardec, que nos pediu caminhássemos de mãos dadas com as ciências? Que abandonássemos condutas dogmáticas, argumentos fechados, retrógrados?

Pois bem, é o que fazemos. E os resultados não poderiam ser melhores. Sem imposições, nem ideias pré-concebidas, levamos em conta todas as colocações, buscando encontrar os conceitos mais robustos, que caibam bem nos moldes da razão e do sentimento. Chegamos a um sentido maior, por vezes ressignificando conceitos anteriormente adquiridos. Entendemos que isso é Espiritismo, aliás.

Vale dizer que esta postura não se circunscreve às reuniões de mediunidade pedagógica, que é uma atividade específica da ABPE, mas em todos os encontros e estudos da Universidade Livre Pampédia, mantida pela ABPE: afinal trata-se de um paradigma, uma postura de base do grupo, norteadora de todas as atividades.

E, ainda falando sobre “diálogo interdisciplinar” em uma das discussões que surgiram na última atividade de mediunidade pedagógica, um tema específico chamou-nos a atenção: Será que os Espíritos que se comunicam em uma reunião mediúnica, demonstrando profundo sofrimento psíquico, são sempre “Espíritos inferiores”, menos evoluídos que aqueles que os recebem, com acolhimento e amor?

Antes de nos aprofundarmos neste tema específico, creio ser importante primeiramente avaliarmos a natureza das comunicações, por seu conteúdo e forma. E, para tanto, vou me apoiar na Psicologia e na Filosofia, por serem ciências que desvelam as possíveis tendências da alma humana, suas defesas inconscientes e possibilidades de superação e amadurecimento.

Frequento e atuo em reuniões mediúnicas por mais de 3 décadas, tendo presenciado inúmeros diálogos entre dirigentes de grupo e os Espíritos manifestantes, então me sinto no dever de traçar algumas linhas a respeito da qualidade destas comunicações.

Primeiramente gostaria de fazer breve comentário sobre o termo “doutrinador”, tão usado no meio Espírita. Muitos definem o papel daquele que conversa com os Espíritos como sendo o de doutrinador. O termo me parece inapropriado, por indicar uma intenção de formatar o outro, ou seja, de convencimento a partir daquele que sabe para alguém que ignora a “verdade" (o desprovido de saber). No dicionário de Lingua Portuguesa, encontramos a seguinte definição para o verbo Doutrinar:

Incutir em (alguém) opinião, ponto de vista ou princípio sectário; inculcar em alguém uma crença ou atitude particular, com o objetivo de que não aceite qualquer outra.”

Este tipo de postura impositiva tem se perpetuado em diversas áreas, não apenas nos diálogos mediúnicos, mas principalmente em nossas escolas, cuja pedagogia ultrapassada despeja conteúdos previamente pensados, em moldes específicos, sem a oportunidade de uma construção do saber pelo próprio aprendiz.

Sócrates, na contramão destas ideias que desembocam na formação, manutenção e abusos de poder, considerava a maiêutica (parto das ideias) como o melhor método de apropriação dos conceitos. Ele comparava a função de um educador com a profissão de sua mãe, parteira – que não dá à luz a criança, apenas auxilia a parturiente no processo. Para ele, o conhecimento já se encontra dentro da pessoa, sendo que num primeiro momento, o processo maiêutico demole, depois ajuda a reconstruir conceitos, transitando do básico ao elaborado, “parindo” noções cada vez mais complexas.

Através de perguntas simples, o educador iria promovendo reflexões na pessoa, até que ela mesma chegasse às conclusões, sem nenhuma resposta pronta por parte do educador.

Seguindo este raciocínio, a ideia de se doutrinar alguém, seja encarnado ou desencarnado, torna-se incabível.

E, como dialogar com os Espíritos sem a pretensão de forçar/inculcar neles ideias que acreditamos serem as mais apropriadas para o fim do sofrimento que eles carregam no coração? Entendo que a intenção seja lícita, mas será mesmo que nos convém?

Vejamos o que nos diz a Psicologia a respeito de como deveria atuar esta pessoa, quando em um diálogo com um Espírito em sofrimento. Carl Rogers, eminente psicólogo americano, ao formular as técnicas de diálogo entre terapeuta e cliente, em sua teoria da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), salientou a importância de o profissional apresentar uma consideração positiva incondicional, empatia e congruência durante todo o processo.

De forma resumida, podemos dizer que ter consideração positiva incondicional é receber e aceitar a pessoa como ela é, sem tirar nem por, e expressar um afeto positivo por ela, simplesmente por ela existir, entendendo ser ela merecedora de amor e respeito. Já a empatia consiste na capacidade de se colocar no lugar da pessoa, ver o mundo pelos olhos dela e sentir como ela sente, comunicando tal situação para ela, que acolherá esta manifestação como uma profunda e reconfortante experiência de estar sendo compreendida, não julgada. Congruência seria a capacidade de estar ciente e pleno de si mesmo (terapeuta), tendo a habilidade de expressar de modo objetivo seus sentimentos e percepções, de modo a permitir à pessoa as experiências de reflexão e conclusão sobre si mesma.

Levando estes conceitos para um diálogo mediúnico, podemos traduzir isso como uma postura de amor incondicional, empatia e ao mesmo tempo com uma percepção real de si mesmo no momento da conversa, atestando os sentimentos que surgem, sempre com respeito e retidão.

Por exemplo, quando um Espírito alega odiar e perseguir seu desafeto, com notas de frieza e total ignorância sobre os possíveis resultados desta ação, acolhê-lo com aceitação e empatia torna possível uma conexão mais profunda, um vínculo positivo, capaz de derrubar algumas das resistências que poderiam surgir, caso o encarnado decidisse julgar ou se ressentir com a postura do Espírito.

E a partir daí, ao longo do diálogo, o encarnado pode externalizar o que sente diante daquele que fala, talvez uma angústia, uma inquietação que surge por perceber as resistências, as mágoas, etc. Lembrando que falar com congruência não se trata de formular frases de efeito, mas sim colocar reais sentimentos/sensações que surgem ao longo deste encontro existencial.

Não faz muito tempo, um Espírito me disse que sentia nojo da minha postura de acolhimento, porque sabia ser uma armadilha previamente pensada e que se negaria a falar qualquer coisa a mais. Disse que eu era dissimulada e falsa. Continuei abrigando em mim os mesmos sentimentos por ele, mas não sem explicar o que estava sentindo naquele momento. Passei a dizer que aquela fala de ataque parecia ajudar na manutenção de sua negação, talvez por parecer inacreditável existir pessoas dispostas a amar, independentemente de como o outro se apresente. Expliquei também que eu estava sentindo uma forte tristeza por perceber que ele não se considerava digno de ser amado e que talvez fosse esta uma inverdade capaz de barrar qualquer possibilidade de melhora.

Neste momento algo mudou naquele Espírito, que baixou a guarda e decidiu dar continuidade à conversa, abrindo seu coração, chegando às lágrimas ao reconhecer sozinho que o remorso por outros fatos mantinha-o preso ao passado, numa amnésia espiritual de longa data, mas com emoções deletérias (e inconscientes) sempre presentes.

Portanto, entendo que aquele que dialoga com os Espíritos pode e deve evitar julgamentos ou mesmo a apresentação de ideias prontas, fechadas, decoradas nas leituras de evangelho.

Por exemplo: dizer àquele que chega cheio de ódio que ele deve seguir aquilo que Jesus indicou, perdoando setenta e sete vezes sete vezes, pode não fazer sentido algum para alguém que passou por sofrimentos intensos por conta de outros seres. Trata-se de um ato improdutivo, até mesmo contraproducente. Sem o mínimo de empatia, já que neste caso não se está usando a lente a partir da realidade do outro, apenas o afastaremos desta pérola do Cristo, que deve ser conquistada por ele através de outros caminhos, menos impositivos, mais eficientes.

Quanto à questão que surgiu em nosso grupo de estudos, sobre se o Espírito comunicante em sofrimento é menos evoluído que aqueles que o acolhem, temos de recordar que a dor, quando bate à nossa porta, dependendo da demanda que carrega em si mesma, pode nos derrubar, estejamos nós de posse ou não das muitas pérolas de sabedoria que já nos foram entregues, ao longo dos milênios. Mesmo os muito bondosos podem cair, se diante da aparente injustiça humana ou mesmo divina.

Quantos pais honestos e amorosos não se desesperam e saem em busca de vinganças, quando veem os filhos em situações de dor extrema? Quantos partem para a revolta contra Deus, por verem seus sonhos destruídos pela vida, quando se acreditavam cheios de merecimentos? Quantos constroem castelos de mágoa por se sentirem traídos em seus sentimentos mais nobres?

Não que se tratassem de pessoas voltadas ao mal, mas sabemos que na Terra somos todos aprendizes do bem, ainda sem estarmos plenamente mergulhados nas vivências do amor e da renúncia.

E não é menos verdadeiro que a morte jamais nos entrega títulos de santidade. Do lado de lá, carregaremos as mesmas dificuldades íntimas e conquistas espirituais que amealhamos por aqui. Não existem milagres.

Sendo assim, entendamos que muitos daqueles que se comunicam conosco nos diálogos mediúnicos são Espíritos com certa maturidade, por vezes ainda mais esclarecidos que nós, mas em momentâneo desequilíbrio, devido às circunstâncias que surgiram.

Por vezes basta uma conversa franca, amorosa, acolhedora para que se voltem para aquilo que por um momento se desconectaram: a capacidade de superar as adversidades, tornando- se mais fortes que antes, dada a aprendizagem realizada com a experiência.

Portanto, com plena consciência de nossa própria incompletude (e deficiências), façamos de nossa comunicação com encarnados e desencarnados, uma possibilidade de cura, tanto para nós como para o outro, com menos julgamentos e imposições e mais entendimento e amor, sem a pretensão de sermos mais que alguém.

Jamais!

Claudia Mandato Gelernter

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5 respostas para Como a Psicologia pode ajudar nas comunicações com os Espíritos?

  1. Vera Lúcia disse:

    Obrigada Claudia, excelente esclarecimento

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  2. Adriana Aires disse:

    Muito bom e melhor ainda é perceber que já estamos colocando em prática(por intuição) essa forma de abordar/acolher os irmãos que se apresentam no estudo mediúnico! Fiquei pensando qual outro nome poderíamos chamar o “doutrinador”, talvez “educador”?

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  3. Falou Cláudia! Vale a pena ler e reler os seus artigos sempre. São muito edificantes. Você é uma estrela que nunca se apagará. Parabéns!!!

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  4. Luziete M.S.Dal Poggetto disse:

    Excelente texto! Que possam os médiuns e esclarecedores fazerem essa análise e reflexão junto aos grupos de trabalho mediúnico! Em especial sabendo que o espírito é apenas um homem sem sua vestimenta corporal, mas com toda sua bagagem emocional e psíquica, por vezes embotada.

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  5. Hélio Pacheco de Gusmão e Silva disse:

    Cláudia, gostei muito do seu texto. Parabéns.
    Termos como doutrinador, erraticidade não se adequam aos ensinamentos espíritas, apesar de serem muito utilizados. Ambos têm vários significados.
    Seria muito bom se você escrevesse um pouco mais sobre o Dr. Carl Rogers, cuja visão de mundo e respeito à alteridade é coerente com a doutrina.
    Hélio Pacheco.

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