Herculano Pires: espírita, democrata e de esquerda

Quando adolescente, fiquei encantado com o pensamento de José Herculano Pires (1914-1979). Através do livro “O mistério do bem e do mal”, comprado na livraria do Centro Espírita Amaral Ornellas, conheci o mestre de Avaré e sua escrita direta, fundamentada, sem firulas ou pieguices sentimentais, totalmente diferente daquilo que conhecia como kardecismo, aqui no Rio de Janeiro, extremante religioso e carola.

Escrevo esta pequena memória porque recentemente recebi da querida Dora Incontri seu mais novo livro, “A construção do Reino: o pensamento social de J. Herculano Pires” (Bragança Paulista: Editora Comenius, 2023). Trata-se de um ensaio sobre a concepção herculanista de Reino de Deus e como ele a articula com o pensamento de Allan Kardec e certa tradição socialista (com uma pegada anarquista ou “autonomista”).

O resultado é maravilhoso! Incontri, pós-doutora em Educação pela USP, aliou sua competência técnica analítica com sua sólida formação espírita kardequiana e seus profundos afetos, pois Pires teve um papel paternal na vida desta jornalista, poeta e pedagoga, para produzir uma síntese do pensamento social deste que é um dos mais avançados intelectuais do kardecismo no século 20.

Contrariando a corrente conservadora hegemônica no religiosíssimo e híbrido espiritismo brasileiro, Herculano Pires ousou, antes mesmo de existir uma Teologia da Libertação, pensar a boa nova de Jesus de Nazaré como anúncio de um Reino de paz, amor e libertação dos oprimidos, provocando uma ruptura histórica importante no pensamento espírita nacional.

Por outro lado, Pires deixou-nos um legado absolutamente cristão — seu cristocentrismo lembra o dos menonitas — que poderá dificultar, se não for ressignificado, o diálogo inter-religioso na pós-modernidade. Incontri está consciente dessas dificuldades, pois sua leitura do mestre não é ingênua nem acrítica.

A primeira edição da revolucionária obra “O Reino” é de 1946, no pós-guerra. A adesão de Pires ao socialismo — evocando Léon Denis — se dava pela compreensão de que a mensagem de Jesus é fundadora de um comunismo (não ateu) que é o gérmen deste Reino de Deus que virá em plenitude, pois é Jesus quem promete aos bem-aventurados: “herdarão a terra” (Mateus 5:3-12). Além disso, a leitura que Pires fez de Jacques Maritain, de Stanley Jones, Cairbar Schutel, Teillard de Chardin e do Papa João XXIII está presente em sua artilharia argumentativa.

A dialética do Reino envolve o “aqui-agora” e o “ainda não” — porque está em processo de fermentação. Pires compreendeu isso, alinhou este escatológico e utópico Reino com a concepção reencarnacionista, trazendo uma visão esperançosa e mudancista de longo prazo, recheada por um pacifismo “enérgico” ou, para usar Judith Butler, “agressivo”. O Reino virá, se nós o construirmos desde já, em comunhão e partilha.

Já na segunda edição de “O Reino”, em 1967, sob a censura da ditadura militar, Herculano Pires foi mais sutil e cuidadoso com os conceitos e frases, mas não abandona sua crítica ao sistema capitalista e seus valores anti-Reino.

A leitura de “A construção do Reino: o pensamento social de J. Herculano Pires” é muitíssimo agradável e sem qualquer arrogante academicismo. Incontri sabe articular muito bem, com muita intimidade, as ferramentas conceituais de Herculano Pires, brindando-nos com um trabalho singular, urgente e necessário para que as novas gerações de espíritas conheçam este filósofo (brasileiríssimo) da libertação e não caiam nas cantilenas do espiritismo reacionário e alinhado com a extrema-direita neofascista. Até o Espírito Emmanuel, através de Chico Xavier, reconhece que Pires é “o metro que melhor mediu Kardec”. Penso que vale muito conhecê-lo a partir deste trabalho de Dora Incontri.

Marcio Sales Saraiva

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