Quem foi Jesus? – um livro que nos fala dessa história

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Nos idos de 2011, quando do lançamento dos três livros de André Andrade Pereira pela Editora Comenius e do meu Pestalozzi e a escola num castelo, estava presente um jovem do Rio de Janeiro, com quem pude conversar e me impressionar com sua inteligência e sensibilidade. Depois interagimos cá e acolá, algumas ideias trocadas, uma amizade virtual e agora deparo-me com a obra que me enviou e que eu já estava curiosíssima para ler. O livro é Quem foi Jesus – uma análise histórica e ecumênica (Editora Lachâtre) e o autor, André Marinho.

Acabo de fazer a leitura de suas 300 páginas e corro a escrever sobre o livro e recomendá-lo aos leitores do blog da ABPE.

O tema em si já é palpitante e a escrita de André se põe à altura do objeto tratado. Primeiro pelo subtítulo, plenamente realizado. Jesus é apresentado em sua dimensão humana, em seu contexto histórico e em diálogo com o judaísmo, o islamismo, o cristianismo (em suas versões católica e protestante) e o espiritismo, sem deixar de se dirigir também a ateus e agnósticos, numa autêntica atitude plural. O autor é espírita, mas sabe retirar-se do lugar comum dos livros espíritas, que ignoram outras perspectivas e tantas vezes se mostram desatualizados em relação às pesquisas mais avançadas sobre os assuntos que focam.

Na verdade, nos últimos 200 anos, a análise histórica de Jesus vem sendo trabalhada por protestantes, católicos e mesmo judeus, com melhores entendimentos do contexto em que viveu, do quanto ele era um judeu e em que medida revolucionou o judaísmo de sua época. De lá para cá, inúmeros manuscritos e conjuntos de documentos foram descobertos, lançando luzes sobre a história dos primeiros 300 anos de cristianismo e traçando um contorno mais nítido de quem foi essa personalidade histórica que mudou os rumos da humanidade – buscando-se entendê-la fora do contexto das interpretações dogmáticas.

André Marinho percorre uma bibliografia de peso e teve a seu favor a orientação de um grande teólogo contemporâneo, o suíço Hans Küng, sacerdote católico e filósofo de grande abertura, que trabalha com o diálogo inter-religioso. Uma marca valiosa no trabalho de André, que já lhe confere a confiabilidade de uma pesquisa séria e sólida. Mas como foi feita fora da universidade, como um trabalho independente, não tem um enquadramento acadêmico, que embora possa trazer às vezes um maior rigor, também poderia tornar o texto menos acessível ao grande público. É pesquisa, tem originalidade de interpretação, mas ao mesmo tempo é um livro para o público (embora não qualquer público, com suas 300 páginas recheadas de boas referências bibliográficas).

O tom do livro tem uma medida justa: é profundo, é baseado no diálogo, é conectado com as questões contemporâneas que cristãos ou não cristãos enfrentam na abordagem da fé, da ética e da espiritualidade, e é vigoroso e apaixonado pela figura de Jesus, descrevendo-o como o ser humano excepcional que deixou marcas históricas para os milênios.

Ressalta das páginas o quanto Jesus humano é maior, mais fascinante, mais amoroso e portador de uma mensagem mais transformadora do que o Jesus endeusado, mitificado, engessado pelas igrejas e, infelizmente, até hoje usado para práticas contrárias a tudo o que ele pregou e exemplificou. Ele que foi crítico de um religiosismo hipócrita e intolerante, que viveu uma entrega a todos os excluídos sociais de sua época, que pregava uma mensagem amorosa, livre e cheia de compaixão – tantas vezes na história e até nossos dias, usado como pretexto de perseguições, violências, exclusões, intolerância e fanatismo! O grande idolatrado, adorado, exaltado, entronizado – mas tão pouco entendido e seguido.

André faz questão de se haver com a questão judaica, identificando as profundas raízes antissemitas na civilização ocidental, demonstrando em trechos belos e enérgicos, o quanto o nazismo não foi um fenômeno isolado e desconectado de antecedentes históricos muito presentes, desde quando os cristãos fizeram uma ruptura com a religião mãe, de onde saíram, o judaísmo.

Mas o autor não deixa de advertir os judeus contemporâneos de violências e fanatismos que alguns radicais também praticam, assim como os islâmicos, e conclama a todos, incluindo os espíritas, a uma atitude de diálogo fraterno, citando autores que já se dedicam a isso.

Apenas dois pequenos reparos, eu faria na obra. Faltou a inclusão de um dos maiores e mais populares estudiosos dos Evangelhos na atualidade, na lista bibliográfica de Marinho, Bart Ehrman, que inclusive tem traduzido para o português um livro quase homônimo ao seu: Quem Jesus foi, quem Jesus não foi.

Embora a obra de André não seja uma história do cristianismo, mas uma análise histórica da figura de Jesus, também não teria sido inútil pelo menos a citação mais detalhada do processo de sua deificação – história bem narrada em duas grandes obras, uma de Ehrman, Como Jesus se tornou Deuse a outra, mais antiga e genial, Quando Jesus se tornou Deus, de Richard E. Rubenstein, um judeu que se debruçou sobre o assunto, desvendando muitos dados históricos interessantes.

O segundo reparo que faço é em relação a algumas vezes que André Marinho afirma o seguinte: Jesus não era um anarquista colorido, Jesus não era nenhum anarquista vulgar… Eu, como anarquista, pergunto: o que é um anarquista colorido? A maneira como André coloca isso denota que tem receio de fazer do Jesus descrito um anarquista. Mas ele próprio o descreve com tamanha liberdade, tamanha capacidade de resistência às estruturas da época e às hierarquias religiosas, que sim, o Jesus mostrado em seu livro, está bastante libertário, bastante opositor de todo poder, como aliás, Jesus de fato era, mesmo antes de surgir o anarquismo como visão filosófica e política. Num sentido amplo, Jesus contestava, optava pelos excluídos, era crítico do sistema, mas claro que não o fazia com violência. Mesmo assim usou palavras duras contra os fariseus e o chicote enérgico da expulsão dos mercadores do templo. Tolstoi, que foi o formulador de um anarquismo cristão ou que compreendeu a mensagem de Jesus como uma mensagem libertária, propunha a luta não-violenta, a resistência pacífica e a desobediência civil, que foram assimiladas e praticadas por Gandhi e Martin Luther King (ambos citados por André Marinho). Então, dentro de um determinado aspecto do termo, podemos dizer sim que Jesus era um anarquista ou pelo menos alguém que inspirou alguns anarquistas do futuro. Mesmo que o autor não concorde com essa qualificação, não poderia apenas citá-la de passagem, sem uma melhor refutação.

De resto, um livro para se ler com prazer, com interesse e, em algumas passagens, com emoção. Jesus fica mais perto de nós.

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4 respostas para Quem foi Jesus? – um livro que nos fala dessa história

  1. Apinas disse:

    Como alguém que disse “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” pode ser um anarquista? E o episódio da expulsão dos mercadores do templo narrado nos Evangelhos não pode ser tomada ipsis litteris, pois Jesus é um espírito puro…! Segue um texto do Irmão X (Humberto de Campos) na psicogradia de Chico Xavier:
    “Nas margens caladas do Jordão, não longe talvez do lugar sagrado, onde o Precursor batizou Jesus Cristo, divisei um homem sentado sobre uma pedra. De sua expressão fisionômica irradiava-se uma simpatia cativante. – Sabe quem é este? – murmurou alguém aos meus ouvidos. – Este é Judas. – Judas?!… – Sim. Os espíritos apreciam, às vezes, não obstante o progresso que já alcançaram, volver atrás, visitando os sítios onde se engrandeceram ou prevaricaram, sentindo-se momentaneamente transportados aos tempos idos. Então mergulham o pensamento no passado, regressando ao presente, dispostos ao heroísmo necessário do futuro. Judas costuma vir a Terra, nos dias em que se comemora a Paixão de Nosso Senhor, meditando nos seus atos de antanho… Aquela figura de homem magnetizava-me. Eu não estou ainda livre da curiosidade do repórter, mas entre as minhas maldades de pecador e a perfeição de Judas existia um abismo. O meu atrevimento, porém, e a santa humildade do seu coração ligaram-se para que eu o atravessasse, procurando ouvi-lo. – O senhor é, de fato, o ex-filho de Iscariotes? – perguntei. – Sim, sou Judas – respondeu aquele homem triste, enxugando uma lágrima nas dobras de sua longa túnica. Como o Jeremias, das Lamentações, contemplo às vezes esta Jerusalém arruinada, meditando no juízo dos homens transitórios… – E uma verdade tudo quanto reza o Novo Testamento com respeito à sua personalidade na tragédia da condenação de Jesus? – Em parte… Os escribas que redigiram os evangelhos não atenderam às circunstâncias e as tricas políticas que acima dos meus atos predominaram na nefanda crucificação. Pôncio Pilotos e o tetrarca da Galiléia, além dos seus interesses individuais na questão, tinham ainda a seu cargo salvaguardar os interesses do Estado romano, empenhado em satisfazer as aspirações religiosas dos anciãos judeus. Sempre a mesma história. O Sanedrim desejava o reino do céu pelejando por Jeová, a ferro e fogo; Roma queria o reino da Terra. Jesus estava entre essas forças antagônicas com a sua pureza imaculada. Ora, eu era um dos apaixonados pelas idéias socialistas do Mestre, porém o meu excessivo zelo pela doutrina me fez sacrificar o seu fundador. Acima dos corações, eu via a política, única arma com a qual poderia triunfar e Jesus não obteria nenhuma vitória. Com as suas teorias nunca poderia conquistar as rédeas do poder, já que, no seu manto e pobre, se sentia possuído de um santo horror à propriedade. Planejei então uma revolta surda como se projeta hoje em dia na Terra a queda de um chefe de Estado. O Mestre passaria a um plano secundário e eu arranjaria colaboradores para uma obra vasta e enérgica como a que fez mais tarde Constantino Primeiro, o Grande, depois de vencer Maxêncio às portas de Roma, o que, aliás, apenas serviu para desvirtuar o Cristianismo. Entregando, pois, o Mestre, a Caifás, não julguei que as coisas atingissem um fim tão lamentável e, ralado de remorsos, presumi que o suicídio era a única maneira de me redimir aos seus olhos. – E chegou a salvar-se pelo arrependimento? – Não. Não consegui. O remorso é uma força preliminar para os trabalhos reparadores. Depois da minha morte trágica, submergi-me em séculos de sofrimento expiatório da minha falta. Sofri horrores nas perseguições infligidas em Roma aos adeptos da doutrina de Jesus, e as minhas provas culminaram em uma fogueira inquisitorial(JOANA D’ARC), onde, imitando o Mestre, fui traído, vendido e usurpado. Vítima da felonia e da traição, deixei na Terra os derradeiros resquícios do meu crime, na Europa do século XV Desde esse dia, em que me entreguei por amor do Cristo a todos os tormentos e infâmias que me aviltavam, com resignação e piedade pelos meus verdugos, fechei o ciclo das minhas dolorosas reencarnações na Terra, sentindo na fronte o ósculo de perdão da minha própria consciência… – E está hoje meditando nos dias que se foram… – pensei com tristeza. – Sim… estou recapitulando os fatos como se passaram. E agora, irmanado com Ele, que se acha no seu luminoso Reino das Alturas que ainda não é deste mundo, sinto nestas estradas o sinal de seus divinos passos. Vejo-O ainda na cruz entregando a Deus o seu destino… Sinto a clamorosa injustiça dos companheiros que O abandonaram inteiramente e me vem uma recordação carinhosa das poucas mulheres que O ampararam no doloroso transe… Em todas as homenagens a Ele prestadas, eu sou sempre a figura repugnante do traidor… Olho complacentemente os que me acusam sem refletir se podem atirar a primeira pedra… Sobre o meu nome pesa a maldição milenária, como sobre estes sítios cheios de miséria e de infortúnio. Pessoalmente, porém, estou saciado de justiça, porque já fui absolvido pela minha consciência no tribunal dos suplícios redentores. Quanto ao Divino Mestre – continuou Judas com os seus prantos – infinita é a sua misericórdia e não só para comigo, porque, se recebi trinta moedas, vendendo-O aos seus algozes, há muitos séculos Ele está sendo criminosamente vendido no mundo a grosso e a retalho, por todos os preços, em todos os padrões do ouro amoedado… – E verdade – concluí – e os novos negociadores do Cristo não se enforcam depois de vendê-LO. Judas afastou-se tomando a direção do Santo Sepulcro e eu, confundido nas sombras invisíveis para o mundo, vi que no céu brilhavam algumas estrelas sobre as nuvens pardacentas e tristes, enquanto o Jordão rolava na sua quietude como um lençol de águas mortas, procurando um mar morto.”

    Mensagem psicografada por Francisco Cândido Xavier, pelo Espírito Humberto de Campos, contida no livro Memórias de Além Túmulo

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  2. Gerson Yamin disse:

    É apenas a opinião de um espírito. Será verdade? Passou pelo crivo Kardecista do CUEE, Controle Universal dos Ensinamento dos Espiritos, como recomendou Kardec?

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