Famintos de participação – da submissão à autoridade ao trabalho em rede

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Reclamamos de ter que participar, pois não queremos, naturalmente, abraçar mais responsabilidades, ou ainda, por puro oportunismo, apostando que outros farão o que nos cabe. Também não gostamos da ausência de uma cultura de participação, principalmente quando nos deixam “de fora” dos processos decisórios. Diante das coisas vis, queremos voz e vez! Mas, vai ver na hora “H”, quem realmente vem para a luta. Esses são alguns dos dilemas da participação…

1-Participação, o que é?

Espíritos encarnados, seres sociais que somos, temos fome de participação!

Participação é um dever e ao mesmo tempo, uma dádiva. É um processo de inclusão de todos ou de parte dos elementos de um grupo social na construção daquele grupo e suas atividades decorrentes. A participação é uma necessidade humana universal, que facilita a consciência crítica e agrega forças, presente em nossas vidas pelo prazer que nos proporciona, mas também pela sua funcionalidade, como forma eficaz e eficiente de se contrapor aos desafios e para multiplicar esforços (BORDENAVE, 1983).

Participar pressupõe autonomia dos atores e o seu envolvimento em todo o ciclo: do planejamento, passando pela execução, e chegando à avaliação, num ambiente que preze a interdependência e a confiança. Ou seja, numa cultura participativa, somos mais iguais, respeitamos a vontade de todos e a hierarquia dá lugar à sinergia, fortalecendo o aprendizado mútuo. Vê-se que é um desenho que demanda maturidade dos envolvidos!

A participação é um pressuposto da vida em sociedade e no arranjo da criação, ainda que existam a ordem e as leis, a nossa condição de co-criadores, de espíritos rumo à perfeição, nos permite essa interação como forma de experiência e crescimento, contrariando uma visão de obediência e contemplação como valor fundamental, dando ao trabalho a centralidade necessária. Um rompimento paradigmático, no qual importa o crescimento de todos e principalmente, o livre-arbítrio.

Participar é amar ao próximo, é ser proativo no bem, como ensinou Jesus na parábola do bom samaritano. É um primado da ação que não se conforma com o mal e que entende nosso papel na construção do reino de Deus, como corresponsáveis por tudo de bom e de ruim que está por aí. Na participação, somos responsáveis, sem muletas ou bodes expiatórios para direcionarmos nossas mazelas.

2-Participação na casa espírita

Leon Denis (2005) assevera que o “Espiritismo será aquilo que dele fizerem os homens”. Kardec, em Obras Póstumas (2005), fala, diante dos desafios do poder, que ao espiritismo não cabe a eleição de um representante ou a orientação diretiva de entidades desencarnadas. Consoante com a sua fé raciocinada, o maior legado, Kardec fala de uma direção colegiada, que interage com o movimento por meio de conferências, unificando e respeitando a autonomia das partes.

Desse modo, observa-se que a condução das tarefas espíritas envolve diretamente os seus integrantes, os espíritas, na construção de núcleos, de equipes que desenvolvam trabalhos, integrados numa mesma lógica, de forma matricial, fortes pela interação nessa rede e não pela existência de uma cabeça hierárquica, como bem disse o codificador. A participação é um valor harmonizado com a nossa doutrina!

Na casa espírita, então, o espírito colaborativo faz com que as personalidades se diluam, em equipes que se ajudem, no feixe de varas citados por Jesus, com grupos marcantes e não dirigentes fortes. Essa é uma visão de perenidade, de defesa contra o personalismo e as armadilhas do poder, resguardando o grupo e o trabalho, que tem que continuar.

Desse modo, em termos práticos, ao invés de escalar pessoas, abramos voluntariado nas tarefas, pois desconhecemos aqueles que acalentam o desejo de participar. Ouçamos a opinião, favoreçamos o diálogo e a interação. Mais que palestras, necessitamos de grupos de estudo para que as pessoas tomem parte da construção do conhecimento espírita, de forma participativa.

Não somos clientes atendidos por fornecedores. Não somos frequentadores separados por um fosso de trabalhadores. Somos, na casa espírita, uma rede de cooperação mútua, de cá e de lá, na edificação da tarefa do Cristo. E para isso, precisamos ser inclusivos, integradores, inclusive na linguagem (SAID, 2009) e imbuídos, realmente, do desejo de sermos democráticos e participativos, fugindo a subterfúgios de pseudoparticipação.

Isso não quer dizer que a casa espírita seja algo sem identidade ou direção, ou ainda, um albergue de toda ordem de práticas estranhas à doutrina. Significa apenas que, alicerçados na doutrina, devemos ter as nossas casas abertas a novos colaboradores, a novas opiniões e ainda, preparadas para o acolhimento e a integração de todos, no rompimento do personalismo, no diálogo franco, para a unificação de propósitos, na diversidade de entendimentos.

O “dono do centro”, que faz tudo, de forma centralizadora, imerso na clausura espírita, é tão grave quanto à postura superficial de apenas consumir as atividades da casa espírita, sem se envolver. É preciso ter rede! É preciso o fortalecimento de laços de ideal e de fraternidade, para que a casa seja um recanto de todos, uma comunidade voltada para o bem! Jesus falou em amarmos o próximo e não previu delegações ou terceirizações para essa tarefa.

Perdidos em casas gigantescas, burocratizadas, impessoais e empresariais, temos dificuldade de tomar parte e isso dificulta a nossa interação, a necessidade de romper esse paradigma da superficialidade. Participar é um dos princípios que regem a casa espírita e também a nossa vivência em sociedade. Jesus, na sua tarefa, prontamente se articulou em uma equipe, que jantou com ele na última ceia.

3-Quem tem medo da participação?

A participação, ainda que no discurso seja vista como um valor, como algo positivo, nos causa medo, por envolver a autonomia e o rompimento da estabilidade das tradições. A tradição é um albergue seguro, no continuísmo, na rotina, na regularidade. Lidar com as mudanças causa ansiedade e nos leva a nos escondermos do novo.

Participar é dar vozes a outros atores, a outras visões de mundo, e desse modo, rompem-se as ascendências da hierarquia e os silêncios da obediência. Na casa espírita, na sociedade, no trabalho, a participação somente se materializa pelo exercício democrático, e para isso, devemos colocá-la em prática, aceitando-a, com todos seus “poréns”.

Digo “poréns”, pois os processos participativos são naturalmente mais lentos, às vezes, permeados de conflitos e essa forma de decidir e atuar divide os poderes e ainda que se ganhe na diversidade das potencialidades, perde-se às vezes na velocidade, tão valorizada nos tempos modernos. Muitos enxergam uma oposição entre participação e eficiência, rendendo loas ao autoritarismo prático. Tenhamos em mente que o agir democrático não é fácil, envolve delegações, confiança e que nem tudo pode ser participativo plenamente, por questões de viabilidade, mas que isso não tira o primado da participação como princípio de respeito mútuo e de convivência social, no amadurecimento das partes envolvidas.

As revoluções tecnológicas que fazem da informação mais volátil e da transparência uma realidade, trazem um cenário que auxilia o fortalecimento desse ethos participativo. Entretanto, isso não é o suficiente para fazer da nossa existência mais colaborativa, na oportunização de espaço para as diversas vozes, autonomizando os atores.

Mais uma vez, nesse sentido, esbarramos nos velhos inimigos, o orgulho e o egoísmo, que nos atrapalham nessa relação com o outro. Somos orgulhosos e não queremos dividir o mérito da construção dos projetos. Somos egoístas e não repartimos a nossa visão de mundo. Preferimos focar em nós, regados pelo medo e pela desconfiança.

Desse modo, para uma vivência mais participativa, faz-se necessário que todos nós, espíritas, nos diversos papeis que desempenhamos dentro e fora da casa espírita, entendamos o contexto da rede na qual nos encontramos, para ver a participação como um dever que se converte em prazer, somando forças que operam coisas maravilhosas, daquelas que nós, espíritos encarnados, sabemos bem fazer quando irmanados no ideal do Cristo, operando em conjunto, de forma coordenada.

Marcus Vinicius de Azevedo Braga

Residindo atualmente na cidade do Rio de Janeiro, espírita desde 1990, Marcus Braga atua no movimento espírita predominantemente na área de evangelização espírita infantil e juvenil, sendo também expositor e articulista. É colaborador assíduo do jornal Correio Espírita (RJ)e da revista eletrônica O Consolador (PR), entre participações esporádicas em periódicos afins. É autor do livro “Alegria de Servir” (2001), publicado pela Federação Espírita Brasileira (FEB) e do livro “Você sabe quem viu Jesus nascer?”, pela Editora Virtual O Consolador (EVOC).

Referências bibliográficas:

BORDENAVE, Juan E. Díaz. O que é participação. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1983. (Coleção Primeiros Passos; 95).

DENIS, León. No invisível: Espiritismo e mediunidade. Trad. de Leopoldo Cirne. 23. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.

KARDEC, Allan. Obras póstumas. Traduzida da 1. ed. francesa por Guillon Ribeiro. 37. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.

SAID, Cezar Braga. Centro espírita: tendências e tendenciosidades. Curitiba: Editora Federação Espírita do Paraná, 2009.

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