O Mensageiro (The Vessel)

vessel1

O quão áridos e enigmáticos podem ser a vida e o coração humano? O quão difícil pode ser a convivência e como pequenos atos podem ser tão marcantes?

******* a leitura desse texto é mais interessante depois de assistir o filme ********

Metafórico, simbólico e psicologicamente denso, o filme “O mensageiro”, dirigido por Julio Quintana e disponível na Netflix, é daqueles que nos surpreende com detalhes e sentidos que passam desapercebidos, mesmo após assistirmos várias vezes, e revela a capacidade inesgotável da arte para tratar os temas humanos e sociais.

No enredo, uma vila é atingida por uma onda gigante, que destrói uma escola à beira-mar, matando dezenas de alunos e o professor. Depois desse trágico evento, que só existe pelo relato e pelo comportamento dos habitantes, houve um êxodo do local, e quem permaneceu – os parentes daqueles que morreram – vive em permanente luto. Exceto o padre e Leo, o personagem principal.

Um dia, Leo e um amigo caem bêbados no mar e se afogam. Os corpos de ambos são achados e, antes da cremação, Leo “ressuscita”, passando a ser visto pela comunidade como um enviado, alguém com poderes especiais. A ele é atribuída a cura de um cavalo, o retorno das pessoas à Igreja, o desejo de um casal ter outro filho, vencendo o luto pelo filho morto na tragédia, etc.

Sentindo-se confusamente inspirado, Leo resolve construir um barco. Não há uma indicação clara da finalidade desse barco, nem para o próprio personagem. Mas isso ilumina as pessoas de algum modo. É como se depositassem esperança em Leo e num barco que, de tão tosco, feito com pedaços de móveis velhos, visivelmente afundaria logo que entrasse no mar. O próprio telespectador é levado a crer que aquele amontoado de madeira poderia navegar, mostrando como a fé e a esperança, muitas vezes, podem ser tão empolgantes quanto falsas.

Essa fase muda quando ele falha em salvar a vida de uma mulher, momento em que a população retoma a sua condição inicial, de luto, desconfiada, desesperançada, e ateiam fogo no barco. Nessa tensão, Leo coloca o barco, mesmo avariado, no mar.

É aqui que o simbolismo do filme se revela de modo magistral. Leo acreditava que sua mãe preferia o seu irmão, Tigo, que morrera com a onda devastadora. Ela chegou a desenvolver um comportamento obsessivo-compulsivo e infantilizado como fuga a essa realidade, sendo cuidada por Leo como se criança fosse. Conta ele que, quando pequenos, ele e Tigo nadaram pelo mar até uma bóia onde havia um sino. Porém, a meio caminho entre a bóia e a praia já estavam exaustos. A mãe, ao vê-los em apuros, jogou-se no mar para salvá-los. Mas ela passou ao lado de Leo e foi em direção a Tigo, para salvar a este, o que marcou Leo profundamente.

Como previsível, o barco afunda. E, no momento de maior decepção, o verdadeiro milagre acontece. Leo novamente se vê a meio caminho entre a bóia e a praia. Sua mãe, que estava à beira-mar, no lugar de costume, sem qualquer conexão com a empreitada de Leo, percebe o perigo em que ele se encontrava, chama-o pelo nome e vai em busca dele. Finalmente, ela sai de sua catarse, reconhecendo-o como filho e aceitando-o como alguém merecedor de afeto e cuidado. E essa reconciliação pelo amor se comunica entre todos da vila e os inspira a retomar suas vidas após a tragédia.

Como já colocado, a linguagem do filme é essencialmente metafórica. Num primeiro momento, fica clara a crítica aos excessos do pensamento moderno e da concepção científica de mundo, que, desde Platão, defende que o melhor modo de nos relacionarmos com o mundo passa pela objetividade, racionalidade e pelo distanciamento. Questões afetivas ou sentimentos são, em regra, negativos na construção da identidade, e não entram na ordem da ciência ou na pauta da sociedade.

O filme mostra como a dimensão afetiva e espiritual, mesmo que estética ou ritualística, é essencial em nossas vidas. Diante de um tsunami que levou entes queridos tão repentinamente, os que ficaram precisavam exorcizar os demônios da perda de algum modo, precisavam de um ritual de passagem. Léo é o bode expiatório da comunidade, e todo o seu sofrimento resulta, ao final, em redenção geral. Aliás, o paralelo com a narrativa cristã é evidente.

Porém, se nos atentarmos na densidade psicológica que marca o enredo, a vila, na verdade, é o coração de Leo. Como diz Victor Hugo, “o ser humano é um universo”, e o universo de Leo é aquele local pequeno, feio, sombrio e anônimo, e o caráter decadente das casas, os cenários de destruição, os móveis antigos e enferrujados, a desesperança e a tristeza que assolam o lugar revelam o mundo afetivo e existencial do personagem principal.

Aliás, é incrível a sutileza para retratar a intimidade das personagens. Soraya, mulher que ele gostava desde a infância, mas que se casara com o professor que também morrera no evento, é apegada aos livros do falecido marido, o que indica a presença dele em sua vida afetiva. E a água que jorra do encanamento e invade a casa dela representa o seu desejo por Leo, e os livros molhados mostram o começo dessa nova paixão.

A própria morte (por afogamento, relembrando a onda gigante) e ressurreição de Leo podem ser interpretadas como a sua vontade de ter morrido no lugar do irmão, ou mesmo como um suicídio fracassado, e os altos e baixos que ele enfrenta com os moradores locais são, na verdade, os altos e baixos que ele enfrenta consigo mesmo. A esperança, que surge e vai embora nos moradores, é do personagem. Logo, não é que as pessoas sejam distantes e estranhas. Ele se sente distante e estranho diante de um mundo distante e estranho, sem o amor da mãe, que preferia o irmão que morrera, e sem o amor de sua amada, que se casara com outro. No fundo, o luto da cidade era o luto de Leo.

Eis aí o ponto nodal. Por acontecimentos da vida, dos quais não temos qualquer domínio, Leo se viu novamente na mesma situação que outrora lhe trouxera tanto sofrimento. Ele não sabia dizer porque construíra um barco, mas que, ao final, acabou sendo essencial para pôr fim à sua expiação que era, sobretudo, afetivo-moral: ele precisava lidar com a rejeição da mãe.

Aqui, a filosofia espírita e Kardec aparecem de imediato. Se a expiação consiste em estar nas mesmas condições a que se submeteu a outrem, de sofrer o que se fez os outros sofrerem, é a reparação que efetivamente apaga os traços de uma falta, fazendo-se o bem a quem se fez o mal. O ponto alto da expiação foi ambos se encontrarem, de modo absolutamente imprevisível, nas mesmas condições que, antes, fora a causa da imensa dor de Leo, e a reparação foi a sua mãe finalmente ir ao seu encontro, acolhê-lo, lembrar-se de sua existência, tomá-lo como filho, amá-lo.

O barco ou a bóia eram ídolos, secundários. O milagre verdadeiro era algo impalpável, mas vivo: a reconciliação entre Leo e sua mãe. O milagre era o amor, que se comunicou e mudou as pessoas ao redor, que voltaram a encontrar tônus vital e sentido para a vida.

Leo era um mensageiro. A sua mensagem era a de que todos temos as nossas questões, que todos vivemos em nossas vilas afetivas, que todos precisamos lidar com variadas formas de tragédias pessoais, que todos depositamos a nossa fé e esperança em barcos e outros artefatos que possam nos dar paz de consciência e de espírito. Mas só a aceitação e o amor, sentidos num grau muito profundo, são capazes de nos reconciliar com um mundo muitas vezes árido, estranho, perverso e sem sentido.

Raphael Faé – editor do Jornal Crítica Espírita

 

Anúncios
Esse post foi publicado em Sem categoria. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s