Kardec, 213 anos depois…

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Kardec permanece o grande desconhecido, como dizia Herculano Pires, pois sua proposta foi tão original, que pouca gente o entendeu até hoje. Nem adversários, nem adeptos, compreendem o que ele fez e propôs e tão pouco percebem a grandeza moral que mostrou em toda a sua vida.

Uma pessoa séria, devotada à educação das crianças e, depois, à educação da humanidade, um pensador crítico, aberto, perquiridor.

O que nos interessa aqui comentar é que Kardec não considerava suas obras uma revelação fechada, para ser entendida e acatada como algo sagrado e imutável. Na medida em que propunha ser o Espiritismo uma forma de ciência, baseada na observação, então, estaria sempre aberto a novas descobertas e a outros contextos históricos e culturais.

O problema é que alguns que se apegam a essa visão do Espiritismo como um corpo flexível de ideias, muitas vezes querem enxertar nele coisas sem pé nem cabeça, opiniões pessoais e atrativos comerciais.

Outros se fecham numa interpretação sacralizada das obras de Kardec, chamando-as de pentateuco, como se fosse uma reedição do Velho Testamento, com todas as características de um texto inquestionável.

Nem uma coisa, nem outra.

O Espiritismo deve avançar, mas avançar significa adotar o método, o cuidado, a dimensão cultural e pedagógica que Kardec usou para lançar seus fundamentos.

Kardec justamente foi a personalidade escolhida para a sua missão, pelo seu rigor, pela sua racionalidade, pela sua modéstia pessoal, nem um pouco interessado em conquistar seguidores cegos e bajuladores.

Para entendermos, porém, o seu percurso, como chegou à formulação dos princípios básicos do Espiritismo, temos que ler e estudar Kardec de cabo a rabo, todos os livros, incluindo a Revista Espírita. Não adianta querer conhecer Kardec em cursos apostilados, onde não temos leitura direta e aprofundada de suas obras.

Deixe-me explicar melhor. Quando estudamos resumos ou apostilas, livros supostamente didáticos de espiritismo, dá-se o seguinte problema: passamos a adotar princípios espíritas como dogmas, como coisas prontas e acabadas. Quando lemos Kardec no original (incluindo a Revista Espírita), vamos acompanhando o seu método, como ele chegou a tal ou qual conclusão. Observamos seus argumentos, como ele trabalhava com hipóteses, para depois confirmá-las e como ele deixa algumas coisas em aberto mesmo.

Essas apostilas/livros de estudo, que correm as casas espíritas do Brasil não são Kardec por ele mesmo, mas Kardec por um determinado viés. E o que é pior, nas referências bibliográficas e nas citações, ainda aparecem trechos de médiuns brasileiros, que não passaram pelo crivo da crítica racional, como queria Kardec que todos os textos mediúnicos passassem.

Então, para recuperarmos o espírito de Kardec e não a letra engessada, leiamos Kardec diretamente.

Além disso, entendamos que mesmo com a solidez de uma pesquisa bem feita, há coisas em Kardec que são do contexto histórico de sua época, que precisam ser lidas assim.

O que considero a melhor e maior contribuição de Kardec para a história da espiritualidade no planeta Terra é que pela primeira vez, a revelação é submetida a critérios de pesquisa e avaliação racional, (aliás, ela própria entendida de maneira muito mais ampla do que só a revelação religiosa, como Kardec bem explica em seu indispensável capítulo da Gênesis, Caracteres da Revelação Espírita).

Entendendo-se o Espiritismo como Kardec o entendia, trata-se de um pensamento aberto, em permanente construção, universalista (porque considera que a verdade está em toda parte). Mas em toda parte, ela deve ser fruto da pesquisa, da razão e da experiência subjetiva de cada um.

É também uma proposta humanista, de confiança na capacidade do ser humano, de se governar a si mesmo, dispensando gurus, mestres… a mediunidade democratizada, a ética clara e evidente, a reencarnação como chave de entendimento dos seres humanos, de maneira essencialmente igualitária e não o contrário.

Um pensamento com contribuições importantíssimas, um mestre que não se fez de mestre, um filósofo que não se aferrou a sistemas e um pesquisador que aliou sempre sua busca a uma dimensão moral e crítica. Pena que tão pouca gente entendeu!

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5 respostas para Kardec, 213 anos depois…

  1. Adriana Jaeger disse:

    Bah, Dora, essa publicidade que aparece é só para mim? Comprometendo o texto super sério! Será que é a minha configuração? Primeiro apareceu um livro sobre profecia e depois um link para o seu “animal totem”! Chega a ficar uma ironia…bem, amei o texto! O aniversariante é esse grande homem, esse “livre-pensador” mesmo! Adorei! Mas se puder resolver essa publicidade aí na página….(rsrsrs!) Se não, a gente entende, tem coisas que faz parte e que a gente não tem como resolver…fica até meio Pedagogico… grande beijo!

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  2. Leonel Varanda disse:

    Prezada Sra. Dora Incontri, leio com muito interesse seus artigos pela clareza de seus pensamentos e fidelidade a princípios doutrinários que se apresentam como expressão da lógica e do bom senso. Particularmente, em relação a esse artigo, ressaltaríamos sua preocupação com a leitura direta das obras de Kardec, alias uma excelente proposta, tendo em vista a necessidade de dialogar com a verdade, expressa na bibliográfica Kardequiana. Não tenho pensamento dogmático, muito pelo contrário, acredito na progressividade da Doutrina, mas com o cuidado, a lógica, o bom senso e a característica de universalidade, como bem desenvolveu o Codificador na Introdução do Evangelho. Aproveito para dizer-lhe que concluímos um livreto doutrinário intitulado “O Espiritismo é Religião”, sendo que no capítulo intitulado Religiosidade Natural, compartilhamos muitos de seus pensamentos contido na obra Pedagogia Espírita, muito pela forma clássica e coerente como voce expõe suas ideias. O livreto é pequeno e representa, apenas, uma lembrança amiga sobre a questão da religiosidade espírita. Felicidades em seu trabalho que acompanho com muito interesse.
    Leonel Varanda

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  3. Pingback: Kardec, 213 anos depois… | ori3

  4. Sueli disse:

    Olá a todos. Sou espírita. Vejo as igrejas evangélicas dominarem o país, terem cada vez mais canais de rádio e TV. Vejo também a católica, que aqui no Brasil, devido a isso, estava se apagando, ressurgir com canais de TV também, bandas, padres cantores, etc, e também influenciados pelo novo papa e as comemorações de N. Sras. de Fátima e Aparecida, e o espiritismo cada vez mais tímido. Não que os espíritas também devam fazer espetáculos para aparecer, mas não há esforços efetivos nem na divulgação da doutrina nem na prática da caridade.
    Uma vez ouvi a jornalista Elizabeth Camarão, que é espírita, numa rádio famosa do Rio de Janeiro, dizer que tinha amigos espíritas que disseram a ela que eles não tem intenção de popularizar o espiritismo, e querem mantê-lo elitizado. O que os srs. pensam a respeito?

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