O ESPÍRITA, A INTERDIÇÃO AO CORPO E O CARNAVAL

6730e47ed22bd11a1d9c40a03da8c455O espírita é, antes de tudo, uma pessoa, um ser humano, um “ser no mundo” que, como tal, vive o mundo e suas possibilidades conforme suas necessidades, carências e expectativas. Não perder essa dimensão humana de si mesmo é caminho de segurança para a própria felicidade, pois o contrário significaria viver uma ilusão, talvez a pior delas, que é a ilusão sobre si mesmo.

Sendo assim, é natural que o espírita, como pessoa que é, viva o mundo e no mundo, sem que isso signifique seu apequenamento evolutivo, se assim me posso expressar. Pensam de modo diferente, porém, aqueles que ainda estão marcados por um religiosismo atávico, idiossincrasia não só reencarnatória, mas também da atual existência, segundo o qual “experimentar as coisas do mundo” é pecado, é um erro, especialmente quando esse “experimentar” guarda relação com o corpo.

É que o corpo, para quem se pauta por um viés religioso-tradicional, é tratado como sinônimo de sujo, de animalidade. O corpo simboliza a matéria, densa e bruta, enquanto o que se sonha é o vaporoso, o diáfano, o espiritual. Daí porque os discursos religiosos costumam seguir na interdição ao corpo, a tudo aquilo que pareça exaltá-lo, experienciá-lo, considerando que isso é marca daqueles que se entregam a “desejos mundanos” e, por isso, ainda demais inferiorizados e distantes do ideal de perfeição a que se aspira.

Os espíritas, nada obstante o Espiritismo seja uma doutrina progressista e libertária, ainda seguem por esses caminhos. Na vivência espírita, o “corpo” não tem vez, sendo sempre barrado das mais variadas formas: na mediunidade, o “corpo” deve permanecer impassível, sem movimento, pois isso indicaria “indisciplina” para aplicar o passe, o “corpo” não pode ter atividade sexual no dia anterior, pois isso “macularia” os fluidos; diante de uma palestra que agrada, encanta, não se pode aplaudir (expressar “corporalmente” um estado de felicidade e contentamento), pois isso “desequilibra” o ambiente; se estamos em férias, não se deve curti-las em demasia, pois isso seria entregar-se ao jugo do “corpo”, numa espécie de ostracismo imerecido; se há uma festa, não se pode dançar (movimentar o “corpo” para aliviar as tensões e buscar satisfação, inclusive física), pois “dançar” é demonstração de necessidades menores…

O corpo, assim, segue sendo o grande vilão evolutivo, pois é sinônimo de “carne”, que é “fraca”, e se impõe a necessidade de fugir do seu império…

Discursos e posturas desse tipo desembocam em erro de percepção. Acredita-se que “negar o corpo”, que seria o mesmo que “negar os desejos”, seja a melhor forma de se espiritualizar. Entretanto, a negação só promove distanciamento, fuga e sofrimento, pois é o reconhecimento do corpo e, consequentemente, dos desejos, que torna o ser consciente de si mesmo, de suas necessidades, capaz de avaliar seu alcance, sua extensão e seu impacto. De tal tomada de consciência depende uma “clareza evolutiva”, característica de espíritos maduros, que garantem um estado de tranquilidade interior, marcado pela compreensão de possibilidades e limites que, por via de consequência, conduz à “vivência do mundo” e à “experiência do corpo” sem sentimento de culpa.

Tudo isso tem a ver com o carnaval. O Espiritismo não o condena, mas os espíritas, em sua maioria, sim, especialmente alguns espíritos que, ou viveram um despertar espiritual marcado pela percepção dos próprios excessos, ou tiveram experiências religiosas de plena “interdição ao corpo” (celibato, clausura, mortificações…). E usam da “interdição ao corpo” para disseminar um discurso de terror, de amedrontamento e de inferiorização, olhando-se para os possíveis e reais “excessos”, cometidos por alguns, como se fosse algo inevitável a quem vá “curtir o carnaval”, esquecidos de que a experiência da “educação pelo temor” não produz efeitos salutares, há muito fracassou.

Se pensarmos pela via do excesso, outras tantas festas abrem portas para tanto, como o Natal, as confraternizações de final de ano, as festas de aniversário, uma comemoração em família… E que dizer dos “excessos morais”, praticados sobretudo por aqueles que interditam o próprio corpo, mas se esbaldam em maledicência, orgulho, intrigas e julgamentos morais de todo tipo?

A “carne” só é “fraca” para o espírito que é mais fraco do que ela. Para os que reconhecem as próprias fraquezas e as próprias virtudes, a carne (corpo) é um instrumento, um caminho de realização de si mesmo, dos próprios desejos, dos objetivos superiores da encarnação, buscando fugir dos excessos de todo tipo e “experienciando” a vida material em tudo aquilo de bom que ela tiver para oferecer, segundo gostos e preferências.

Particularmente, não curto o carnaval. Não gosto de multidões, embora goste de dançar, de ouvir músicas, de brincar e me divertir. No entanto, não é o gosto pelo carnaval que me define como espírito ou como espírita, não é o que indica em que “pé da evolução” eu me encontro.

O Espiritismo é uma filosofia libertadora, progressista, que nos restitui a nós mesmos, estimulando a autonomia e a busca da felicidade. Que cada um construa seu próprio caminho, que se reconheça como sujeito, e não mero objeto da evolução, e reconheça seus próprios limites e possibilidades.

E que não se esqueça dois aspectos muito importantes em todo esse contexto: responsabilidade e respeito. Somos responsáveis por tudo que fazemos, a nós mesmos e aos outros. Se agirmos sempre com respeito, pelo outro e por nós mesmos, que mal há em “viver”?

Pedro Camilo

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20 respostas para O ESPÍRITA, A INTERDIÇÃO AO CORPO E O CARNAVAL

  1. osman moreira jordao disse:

    O Espiritismo não tem suas próprias leis, pois ele é a lei universal que leva o espírito ao norte da felicidade. Para tanto ele tem oportunidade de tomar uma encarnação para provas e expiações, para vencer a si mesmo na lei de justiça, amor e caridade. O Carnaval é um momento importante, pois ele oferece boas oportunidades para a prática da sabedoria e do amor. Não só o Carnaval, mas todas as festas e lugares. O importante é não ferir a moral nem vacilar diante da ética. Brinque, não se embriague, não exagere nos prazeres do corpo e da alma. Será que temos mesmo consciência, juizo, para a disciplina? Cá tenho minhas dúvidas.

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  2. Angela disse:

    Perfeito! Enfim encontro um artigo com uma visão essencialmente ESPÍRITA!

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  3. Ana Lúcia Simões disse:

    Estou fazendo um estudo sobre o espírita e o Carnaval, e esse texto preencheu tudo o que eu buscava. Obrigada por nos brindar com esclarecimentos tão simples e rais para nossa vida de espíritos imortais.

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  4. Christiane franca disse:

    Gostaria q vc comentasse a relação q se eatabelece na visão de muitos espíritas, de q o carnaval atrai espiritos desejosos de vivenciar esse clima de liberdade desenfreada junto aos folioes. Acabei de ler um artigo q critica esse período q atrai falanges de espíritos ávidos por tentar absorver energias de encarnados q brincam, festejam, dançam, bebem, usam drogas, fazem sexo casual, etc tudo concedido pelo pacto velado do ” é carnaval … a gente pode ,…”

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  5. Ronan Rampini disse:

    Parabéns pelo texto,pelo site e pela postura esclarecedora e equilibrada.Torço para que, um dia , (de preferência o mais próximo possível) o movimento espírita consiga retornar a esses paradigmas libertadores e progressítas tão bem elucidados por toda essa equipe que, mais uma vez, está de parabéns.

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  6. marcuscesar disse:

    Como sempre , os membros do ABPE distribuem um show de transparência – e faz barulho para despertarmos ! É tudo o que nós, como incentivadores dos bons roteiros morais e comportamentais estamos tentando fazer – encontrar a humanidade e felicidade dentro de nós mesmos , como seres gregários e universais !

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  7. Rosangela Sierpin disse:

    Parabéns, pelo texto elucidativo. Acredito que esta é a verdadeira essência da Doutrina espírita,pois não devemos julgar as pessoas, e nem condenar suas ações, devemos absorver as leis naturais e buscar segui-las,pois sabemos que tudo o que fazemos, terá um retorno.

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  8. Carlos Augusto de Medeiros Filho disse:

    Concordo. Muito bem desenvolvido. Vejo o espiritismo como uma filosofia religiosa libertária e progressista.
    Fiz algumas pesquisas simples sobre aspectos sociais no espiritismo, dentro do racicínio do espírito “viver a dimensão humana”. Segue i link desses pequenos textos.
    http://cacamedeirosfilho.blogspot.com.br/2016/06/espiritismo-e-questoes-sociais.html?view=magazine

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  9. Gabriel Dalalio disse:

    Na vida, temos que agir, como se fôssemos viver várias e várias vidas. Mas devemos aproveitar a vida, como se ela fosse única.

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  10. Rosemeire Varjão disse:

    Perfeitooo!!!!
    Sou espírita a 29 anos e uma vez ouvi um palestrante descrever a visão que um médium teve de espíritos pulando atrás do trio elétrico com fisiomomia assustadora, com roupas rasgadas, sujos e infelizmente, depois de quase 30 anos ouço o mesmo discurso, que alguém observava o trio passar, quando pensou que terminou de passar os foliões viu um grupo de espíritos estropiados atrás pulando. A pessoa estaciona no tempo, tenta amedrontar os outros citando nomes de influência dentro da doutrina com essa afirmativa infeliz, não evolui com o espiritismo e sabemos que o espiritismo está (e precisa) evoluindo com a humanidade. Esse texto só fortalece o que penso e me dá inspiração para argumentação.
    Obrigada viu?!!!

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  11. Luciana disse:

    Parabéns, Pedro Camilo! !Excelentes colocações .

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  12. Adriana disse:

    Olá, Pedro Camilo. Há qto tempo não leio palavras tão assertivas e lúcidas! Parabéns, obrigada!

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  13. Silvia disse:

    “Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém “. Era só isso mesmo que eu tinha a dizer.

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  14. pmeirelesf disse:

    Que excelente texto! Finalmente uma visão livre desse atavismo católico que infelizmente é tão presente no movimento espírita brasileiro, tanto entre encarnados como desencarnados! 👏

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  15. Pedro Camilo disse:

    Aos amigos, agradeço as palavras de incentivo. Publiquei um outro texto sobre o assunto:

    Aquele abraço!

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  16. Ediléa Mattos disse:

    Parabéns pelo Belíssimo Texto, adorei sua colocação.
    Tenho uma Casa de Umbanda chamada CEUIM no Rio de Janeiro, temos nossas doutrinas, mas meu conselho para com meus filhos e irmãos no Santo, na época de Festas, como Carnaval, Natal, Ano Novo e outros, è EQUILÍBRIO, não somos santos por pertencermos a alguma religião, então vamos VIVER, e sermos Felizes da melhor maneira possível. Ediléa Mattos.

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  17. Fátima disse:

    Desejo salutar, respeito pelo corpo , nosso templo, disciplina no ” servir ” e amor. É o que aprendo como espírita. Como nos expressamos fisicamente cabe a consciência de cada um e independe de religião.

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  18. Maria de Fátima Vargas Corbari disse:

    Acho recomendável a leitura do livro de Divaldo Pereira Franco/Manoel Philomeno de Miranda, “Nas Fronteiras da Loucura”, para quem deseja saber mais sobre o Carnaval, e como a Espiritualidade Maior se prepara para esse período. Tenho certeza que todos saberão entender mais e se conduzir melhor nas festas. É importantíssima também a análise de MPM sobre o efeito das drogas. Boa leitura no Carnaval!!

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  19. Maurício C. Maciel disse:

    Centenas de pessoas devem ter opinado sobre este texto. Muito bom, muito provocativo para o despertar da consciência.
    O corpo físico, com todos os seus limites e necessidades, é ferramenta essencial para a evolução da nossa consciência, ou espírito, para nós que acreditamos em uma existência transcendente e eterna.
    Mas claro está que, uma vez sendo o corpo o nosso precioso veículo de manifestação, temos que exercer domínio consciente sobre nossos instintos e inclinações para os chamados excessos da carne. Ou o Mestre amado não nos teria dito “Vigiai e orai, para não cairdes em tentação. O espírito, com certeza, está preparado, mas a carne é fraca” (Mateus 26:41)
    Portanto, por mais espiritualizado que o ser humano seja, quando ele deliberadamente ele escolhe se misturar com os seu semelhantes adoradores de Baco, numa festa cujo nome já diz “O QUE VALE É A CARNE”, essa exposição o torna mais vulnerável do que nunca.
    Não há nenhum problema com a alegria do Carnaval, claro, mas que ali as tentações são praticamente intransponíveis, isso são. Alguém em sã consciência consegue ficar indiferente a tanta exposição de corpos tentadores, a tanto contato fisico e a toda aquela hipnose coletiva regada a músicas vibrantes e fartura de álcool?
    O corpo não é para ser desprezado nem maltratado, pois ele é nosso veiculo de transporte, trabalho, comunicação e prazer, mas se nós não assumirmos seu volante como bons motoristas, conhecedores das leis de “trânsito” e de respeito e solidariedade para com os demais motoristas, teremos um corpo desgovernado, entregue aos próprios instintos e sem noção do que seja dignidade humana e civilidade.
    É isso!

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