Crianças mediúnicas – o que fazer?

Cute little girl on wheat field

Aproveitando o dia das crianças, escrevo hoje sobre um tema que algumas pessoas têm me pedido para desenvolver: a mediunidade na infância. É claro que é um assunto importante e que merece maior aprofundamento, não cabendo apenas num texto de blog. Mas farei alguns apontamentos aqui, para ajudar pais e mães desorientados.

Parto de minha própria experiência, das experiências narradas por médiuns como Yvonne Pereira e, claro, balizando-me em Kardec.

Desde que me conheço por gente, tive fenômenos mediúnicos: visões de Espíritos, lembranças de outras vidas, percepções diversas, medos noturnos. Mas minha mediunidade, como tantas outras, começou por uma ou várias obsessões. Obsessão na infância, sim. Isso é possível e existe. Eu ficava muitas vezes como que “tomada” pelos Espíritos, transfigurada às vezes, e agredia quem estivesse por perto, gritava, chorava.

Muita gente na família queria que eu fosse a psiquiatras e tomasse remédio. Mas meus pais, com grande empenho de minha mãe, resistiram bravamente e não apelaram para esse recurso. Como distinguir uma mediunidade em descontrole, de um surto psiquiátrico? Eu era absolutamente funcional no dia a dia. Na escola, nas relações, na família. Nada de diferente. Aliás, sempre muito ativa, participativa, alerta, presente. E depois que tinha esses momentos de explosão mediúnica, (que se davam apenas em casa) eu chorava muito desconcertada, por ter me descontrolado e às vezes não me lembrava do que tinha ocorrido. E como eu saía daquele estado? Com preces e passes de minha mãe. Nunca tomei nenhum remédio.

Levada por esse fenômeno, pois eu tinha consciência que perdia a consciência e não gostava nada disso, comecei a estudar espiritismo muito cedo – além do que aprendia em casa, comecei a ler de tudo. Já aos 11, quis ler obras do Chico Xavier, aos 14 já havia lido o Livro dos Médiuns inteiro, por mim mesma.

E o que se deu então é que comecei a saber controlar aquelas manifestações e aos 11, elas começaram a ser benignas com pequenos e singelos poemas psicografados. Aos 15, sob a orientação de Herculano Pires, comecei a trabalhar a psicofonia, já recebendo logo de cara – me lembro bem – três Espíritos em minha primeira reunião. Recordo-me do querido professor Herculano dizendo: “já basta para o primeiro dia”.

Desde a mais tenra idade, tinha exata noção da seriedade que essa relação com os Espíritos implicava. E quando comecei a psicografar e a trabalhar em sessões mediúnicas, logo tratei dessa tarefa com dedicação e responsabilidade.

O que quero dizer é que a criança, quando tem percepções mediúnicas, geralmente encara isso com naturalidade e respeito. É algo que já vem com ela. Isso não quer dizer que não haja sofrimento no processo, porque as percepções não são sempre as melhores (o filme O Sexto Sentido mostra bem isso ou D. Yvonne contando de suas peripécias mediúnicas na infância em Recordações da Mediunidade). Mas quando a mediunidade se apresenta assim, inata, contundente, não há como fugir e é preferível instrumentalizar a criança pouco a pouco para que ela saiba como lidar com isso, do que querer afastá-la à força ou desqualificar suas percepções. Mediunidade reprimida, desequilíbrio psíquico na certa, mais à frente.

A mediunidade é um caminho excelente de autoconhecimento. Aliás, para que ela se torne algo saudável e produtivo na vida de uma pessoa, há que se conhecer bem as próprias emoções e saber lidar com elas. Claro que isso é trabalho de uma vida ou de muitas, mas a mediunidade nos leva, ou deveria nos levar, por essa trilha. Para distinguir o que é nosso do que é dos Espíritos, para não sermos o tempo todo permeados por pensamentos e sentimentos intrusos, há que se aprender disciplina mental, controle emocional e a prática constante de elevação vibratória, para que o caldo não entorne. Então, quando se apresenta uma criança já com forte mediunidade, é preciso se cuidar muito bem dela, do que ingere de vibrações no ambiente, de suas emoções e tendências. Cuidar é acolher, orientar, amar e não reprimir, disciplinar a ferro e fogo…

Isso tudo estou dizendo de pessoas que vão desenvolver uma mediunidade ostensiva ao longo da vida, que Herculano Pires chama de mediunato – e se começam a apresentar sintomas na infância, certamente a mediunidade vai desabrochar na adolescência e primeira juventude. E aí reside um dos problemas do nosso movimento espírita atual, que não permite que adolescentes desenvolvam sua mediunidade, esquecendo-se de que Kardec trabalhou com meninas de 14, 16, 17 anos, para elaborar suas obras.

Há pessoas que não necessariamente desenvolverão uma mediunidade assim ampla, e mesmo assim apresentam fenômenos na infância, mais leves, menos frequentes, mais pontuais do que as que mencionei acima. Isso se deve ao fato de que a criança de fato está mais aberta ao plano espiritual. Afinal ela acabou de voltar de lá e ainda não mergulhou na chamada “vida produtiva”, que muitas vezes nos afasta de nossa natureza espiritual.

Então, da mesma forma, é preciso acolher uma visão ou outra, uma percepção, um medo a mais, uma emoção inexplicável… Acolher com naturalidade, com explicações breves e simples. Com preces, sempre.

Muito cuidado por outro lado, em não se achar que tudo é  coisa de espírito, obsessão, lembrança de vida passada e coisa que o valha. Nem repressão de manifestações espontâneas, nem estímulos e deslumbramentos místicos que possam induzir a criança a inventar coisas, para agradar os adultos ou chamar a atenção. Sempre o caminho do meio. Sempre o bom senso. Em seu livro Crianças e suas Vidas Passadas, a autora Carol Bowman, que é psicóloga, analisa muito bem como podemos distinguir uma fantasia da criança de uma lembrança legítima ou, diremos aqui, de uma percepção verdadeira. A fantasia muda-se a cada hora e a criança está alerta e sabe que está fazendo de conta. Na lembrança, ela está meio ausente do aqui e do agora, e repete as mesmas coisas, em diferentes ocasiões, sempre com muita consistência e muitos detalhes.

E é claro que para os pais saberem lidar com crianças mediúnicas, precisam estudar mediunidade, conhecer Kardec, terem prática no assunto.

Para terminar, não resisto de colocar aqui um trecho de Kardec, da Revista Espírita, de 1865, onde ele trata com a máxima graça e delicadeza de uma cena de mediunidade infantil, de ninguém menos que Gabriel Delanne, então com 9 anos de idade.

“Um dia, ele (o menino) se achava em casa de uma pessoa do seu conhecimento e brincava no páteo com sua priminha, de cinco anos, dois meninos, um de sete, outro de quatro anos. A senhora que morava no térreo os convidou a entrar em sua casa e lhes deu bombons. As crianças, como se pode imaginar, não se fizeram de rogadas.

A senhora perguntou ao filho do Sr. Delanne: como te chamas, meu filho?

— Eu me chamo Gabriel, senhora.

— Que faz teu pai?

— Senhora, meu pai é espírita.

— Não conheço esta profissão.

— Mas, senhora, não é uma profissão; meu pai não é pago para isto, ele o faz com desinteresse e para fazer o bem aos homens.

— Meu rapazinho, não sei o que queres dizer.

— Como! Jamais ouvistes falar das mesas girante?
— Então, meu amigo, bem gostaria que teu pai estivesse aqui para as fazer girar.
— É inútil, senhora, eu tenho, eu mesmo, o poder de as fazer girar. 

— Então, queres experimentar e me fazer ver como se procede?
— De boa vontade, senhora.
Dito isto, ele se senta ao pé da mesinha da sala e faz sentar os seus três camaradinhas; e eis os quatro gravemente pondo as mãos em cima. Gabriel fez uma evocação, em tom muito sério e com recolhimento. Apenas terminou, para grande estupefação da senhora e das crianças a mesa ergueu-se e bateu com força.

— Perguntai, senhora, quem vem responder pela mesa.
A vizinha interroga e a mesa soletra as palavras: teu pai. A senhora empalidece de emoção. E continua: então, meu pai, podes dizer se devo mandar a carta que acabo de escrever? — A mesa responde: Sim, sem dúvida. — Para me provar que és tu, meu bom pai, que estás aí, podias dizer há quantos estás morto? Logo a mesa bate oito pancadas bem acentuadas. Era justo o número de anos.

— Podias dizer teu nome e o da cidade onde morreste? — A mesa soletraos dois nomes.


As lágrimas jorraram dos olhos daquela senhora, que não pode mais continuar, aterrada por esta revelação e dominada pela emoção. (…) não é a primeira vez que a mediunidade se revela em crianças, na intimidade das famílias. Não é a realização daquela palavra profética: Vossos filhos e vossas filhas profetizarão (Atos, II, 17)?

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5 respostas para Crianças mediúnicas – o que fazer?

  1. Maria da Conceição do Nascimento Gomes disse:

    Boa tarde! Por que o movimento espírita não permite que crianças e adolescentes se desenvolvam mediunicamente? Bom, parece ser esta a questão colocada…Parabéns pelo texto,

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  2. Roseli Marques Shigematsu disse:

    Conhecendo um pouquinho mais Dora Incontri e a mediunidade infantil…de modo leve e natural como deve ser.Obrigada.Abraços.

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  3. IARA RODRIGUES PEREIRA LUZ' disse:

    Gostaria de sugestões de como orientar jovens, não espíritas, que se interessam pelas “brincadeiras” do copo, tesoura e etc.

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  4. Maria Alice disse:

    BOM, começei a ver espíritos com 10 anos. Hoje tenho 14 , n sei se só uma medium ou algo assim.. Nunca tentei invocar ninguém ou algo assim.. Um abraço.

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