Atracados no tempo

Meu amigo Allan Filho, palestrante, cantor e compositor de mão cheia, é autor de várias – e profundas – canções espíritas. Entre elas, “Mar da vida”, cuja letra transcrevo a seguir.

Ondas da vida carregam o barco, atracado no tempo, não quer navegar

Naufraga em si mesmo temendo os monstros que existem no mar

O monstro da morte consegue sozinho fazer com que barcos prefiram parar

Mas monstros não existem sequer nas mentiras contadas no mar.

Vai… Enfrenta as tormentas do além-mar

Iça as velas da coragem pra lutar e ir além, estrelas do bem vão te guiar.

Vai… Que o Cristo seja a luz em teu vogar

Que o risco não te impeça de tentar ganhar o mar

Com o instrumento que se chama amor.

Lembrei-me de “Mar da vida” quando ouvi de uma conhecida um comentário sobre pessoas que se recusam a mudar. Disse ela: “Tem gente que jogou a âncora da própria vida em alguma década do século passado e lá ficou, encalhada”. São os barcos atracados no tempo e que se recusam a navegar, conforme Allan muito bem ressalta.

Certa vez, durante uma palestra, eu disse que era de esquerda e expliquei o porquê: classe social, histórico de vida, carreira que escolhi, convivência com intelectuais e artistas etc. Ao final, Antonieta, a dirigente – uma senhora na casa dos 80 anos –, disse que era de direita e que respeitava minha posição, embora o tom de contrariedade dissesse o oposto. Meses depois, de volta ao mesmo centro espírita, fui abordado por Antonieta, que disse: “Você era muito novo àquela época (a da ditadura militar), não sabe direito o que aconteceu, não viu o que os terroristas quiseram fazer ao país…” Desconversei e fui dar atenção a outras pessoas. Tempos depois, fiquei sabendo que ela era viúva de um militar pró anos de chumbo. Deduzi, então, que aquela elegante e abastada senhora havia jogado a âncora de sua vida nos anos 60 ou 70 e lá ficara, talvez acomodada no conforto da polpuda pensão de viúva de milico, na preguiça de pensar que o mundo havia mudado, na raiva contumaz que muitos abonados têm dos governantes que tentam promover socialmente os menos favorecidos. Ou talvez tudo isso e muito mais, sabe-se lá. Só sei que, ao acessar as redes sociais dessa senhora, fiquei bobo de ver a quantidade de postagens exaltando o ex-presidente fã de torturador, propagando ódio, desinformação etc.

Igual comportamento, eu testemunhei em Eliseu, ferrenho defensor da extrema direita que espuma ódio quando ouve falar de Dilma (a quem se refere como terrorista), Lula e seguidores. Como ele, já na casa dos 70, sempre enche a boca para falar dos militares, eu acreditava que ele era um oficial de alta patente e já na caserna. Para minha surpresa, ele é egresso do Núcleo Preparatório dos Oficiais da Reserva (NPOR), unidade do Exército Brasileiro que forma oficiais temporários. Os jovens são treinados para atuar em situações estratégicas e podem servir por até oito anos. Lamentável ver o fetiche saudosista e reacionário de Eliseu em relação ao tempo em que ele foi do NPOR.

Assim como Antonieta, Eliseu é espírita. E ao contrário dela, que segue carreira solo, ele tem seguidores no centro espírita que frequenta. Nas palavras de um amigo progressista que faz parte da mesma instituição, Eliseu e seu grupinho “só se encontrarão com a modernidade nas próximas encarnações, pois fecham os olhos e detestam o conhecimento, a história e a vida como ela é”. Estão tão equivocados que acamparam na porta do quartel local pedindo intervenção militar e golpe após as eleições presidenciais de 2022. E fizeram pior: quando do falecimento do Papa Francisco, um deles se referiu ao Sumo Pontífice como comunista.

“Mar da vida” diz que “ondas da vida carregam o barco atracado no tempo”. Um barco que não quer navegar, tanto que está atracado. Mesmo assim, as ondas da vida o estão carregando. Como, se ele está atracado? Mas atracado no tempo, e o tempo não para. Esse barco pensa que parou, mas o tempo se encarrega de levá-lo de roldão, embora ele não se dê conta. O mundo muda, as peças no jogo de xadrez do pensamento humano também mudam. No entanto, muita gente – incluindo alguns espíritas, o que acho lamentável – insiste em se agarrar em conceitos superados e em falsos temores que a força das circunstâncias vem derrubando.

Mas como, se a doutrina espírita é progressista? É o temor dos monstros que existem no mar. Por isso, vemos muita gente que se diz espírita naufragar em si própria por ter medo de comunismo, kit gay, dissolução das famílias… No fundo, têm medo de um mundo novo e pleno de possibilidades que irá abraçar todas as gentes.

Há pessoas tão acostumadas às imperfeições e desgraças do mundo atual que preferem manter tudo do jeito que está, apesar de tudo de ruim que vivemos. É o medo do novo, mas o novo sempre vem. É inevitável, pois monstros não existem nem nas mentiras contadas no mar, apesar do monstro da morte que, talvez, em “Mar da vida”, não diga respeito apenas à morte do corpo físico, mas a pessoas que morrem por não quererem mudar ou superar carências, perdas diversas, fixação em assuntos pesados. Por isso, acabam naufragando na própria arrogância, chatice, empáfia e se transformam em verdadeiros zumbis que se recusam a sair do lugar e causam enfado ou até aversão nas pessoas de bom senso que com elas convivem.

Maria Lúcia, amiga da minha família, teve uma filha, no início da década de 1980, de um homem então separado que, segundo ela mesma conta, nunca deu muita atenção à menina. O tempo passou, a menina (a quem chamarei de Tatiana) virou mulher, e o tempo, pelo visto, não passou para as duas. Digo isso porque, há alguns anos, numa tarde de sábado, fui ao centro da cidade resolver uma série de demandas. Entre elas, cortar o cabelo. Só que tive o infortúnio de encontrar Maria Lúcia e, educadamente, lhe dar atenção. Ela desfiou um rosário de lamentações e carências acerca da filha, da própria situação afetiva, lamentou o fato de o pai da Tatiana ser omisso… Passaram-se 10, 20, 30, 40 minutos e eu lá, em pé, vendo uma mulher atracada na própria carência tomando meu tempo. E eu sem poder sair fora. Quando finalmente ela encerrou o assunto e se despediu, percebi que teria de adiar muito do que eu tinha ido fazer. Tempos depois, durante uma enchente (algo típico aqui na Região Serrana do RJ), Joana, uma amiga em comum, ficou ilhada justamente na rua onde Maria Lúcia mora. Como nossa triste personagem havia descido para comprar pão, encontrou Joana e a convidou para passar a noite lá, já que as águas não baixariam tão cedo. Joana foi obrigada a ouvir a mesma ladainha de lamúrias, acrescidas de choro. Quando o dia amanheceu, deu graças a Deus por voltar para casa. Faço ideia como deve ter sido essa noite regada a lamentos e chororôs de uma mulher que jogou a âncora da vida na própria carência e que, decerto, ninguém deve ter mais condições de aguentar. Afinal – e isso eu soube por amigos em comum – Maria Lúcia continua, até hoje, do mesmo jeito. 

Depois desse episódio, passei a prestar atenção nas histórias sobre pessoas que adoram falar sobre doenças, do quanto fulano ou sicrana sofreu no pós-operatório, de quantos pontos levou, de como os efeitos colaterais de um medicamento afetaram o metabolismo blá-blá-blá. Tudo com riqueza de detalhes e requintes de masoquismo que ninguém aguenta ouvir. E também daquelas pessoas que perderam um ente querido há anos e até hoje choram a perda e contam à exaustão como foram os momentos antes do desenlace. Barcos atracados no tempo, que vão sendo levados sem rumo pelas ondas da vida e acabam cansando a beleza de quem está à volta pelo simples fato de não estarem dispostas a navegar, isto é, desbravar outras formas de agir e reagir.  

Como diz a última estrofe de “Mar da vida”, velas precisam ser içadas se queremos levantar âncora para sairmos da inércia e superarmos o medo de pensar, questionar e contextualizar informações à luz dos conhecimentos que a ciências disponibilizam hoje em dia. E também se quisermos superar lutos, carências e nos abrirmos novamente para a vida, sempre tão plena de possibilidades e recomeços. Para tanto, o instrumento chamado amor por si próprio, pelo conhecimento, pelo progresso e pelo bem-estar da humanidade precisa ser ativado. É isso que fará o barco zarpar. Caso contrário, ele naufraga.

Marcelo Teixeira

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