Túnicas e mendigos

Um dos livros espíritas de que mais gosto se chama “Memórias do Padre Germano”. Nele, a médium Amália Domingo Soler conta as peripécias de um padre progressista na Espanha da Idade Média. Germano incomodava tanto os maiorais da Igreja Católica que acharam por bem enviá-lo para um vilarejo num fim de mundo qualquer daquele país. Mesmo assim, ele não se abatia. Peitava os poderosos, ludibriava clérigos e madres superioras extremamente conservadores etc. E como cada capítulo conta uma estória diferente, o leitor nunca sabe o que espera pelo simpático e aguerrido pároco e seu fiel companheiro, o cachorro Sultão.

O episódio da vida de Padre Germano que mais mexe comigo é o de Clotilde, jovem de alma nobre que, infelizmente, não foi bem-sucedida em matéria de laços familiares. O pai, Duque de São Lázaro, a mãe e o irmão não valiam muita coisa. Tanto era assim que os três haviam tramado o assassinato do rei de Espanha. Mas eles não estavam sozinhos na ardilosa empreitada. Os Penitentes Negros faziam parte da tramoia. E quem eram eles? Aparentemente, um grupo de religiosos que gostavam de ajudar os mais necessitados em várias frentes de trabalho. Só que, nos bastidores, maquinavam golpes de estado, assassinatos de reis e rainhas, entre outras barbaridades. Poder, dinheiro e influência, eles tinham de sobra para tanto.

Ardilosos até o último fio de cabelo e com o intuito de se apossarem da fortuna do Duque de São Lázaro, os Penitentes Negros, na figura de seu chefão (a quem o livro se refere como Geral), denunciaram a artimanha ao rei que, enfurecido, mandou prender e matar o duque, esposa e filho. Sobrou Clotilde, que os Penitentes, cinicamente, prometeram ao soberano que iriam tutelar. Mentira! O objetivo deles era, assim que a poeira baixasse, dar cabo da menina e lhe surrupiar todo o patrimônio.

Germano soube de tudo isso pela ama de Clotilde e resolveu agir rapidamente. Convocou dois grandes e poderosos amigos, que, após semanas de investigações, descobriram o local onde ela era prisioneira e a libertaram. Em seguida, a jovem foi despachada para outro país, onde, amparada por amigos do nosso corajoso padre, estaria totalmente segura e apta para recomeçar a vida.

Quando soube que Clotilde não estava mais no cativeiro, o Geral, como era de se esperar, ficou possesso. Em sua mente, só uma pessoa seria capaz de tamanha audácia: Germano. Afinal, os dois haviam sido colegas de seminário e sempre conversavam sobre visões espirituais, vida além da morte e afins. Só que, com o passar dos anos, acabaram trilhando caminhos distintos e não era a primeira vez que Germano jogava água fria nos planos dos Penitentes Negros.  

Com a intenção de acabar com a vida do padre, o Geral o procura. Só que, sem nada temer e com a autoridade moral digna dos espíritos superiores, Germano, num diálogo extenso, profundo e memorável, coloca o Geral em seu devido lugar; e ele, vencido pela força do bem, vai embora, mas não sem antes pedir para voltar, a fim de continuar a conversar com nosso herói sobre as verdades além da morte. Vale a pena uma lida muito acurada não só no referido capítulo, mas em toda a obra!

A parte do diálogo que mais gosto é quando Germano diz para o Geral: “Quanto me compadeço de vós, pobres cegos que sois! Podeis fazer tanto bem… Sois tão poderosos… Dispondes, o vosso talante, dos monarcas, as minas de ouro vos oferecem vossos veios, muito se vos há dado e, apesar disso, sereis por muito tempo os mendigos dos séculos”.

No livro “Nos passos da vida terrestre”, o Espírito Camilo relata que estão de volta ao nosso planeta todos aqueles que, em existências anteriores, extorquiram, torturaram, roubaram, intimidaram, mataram… Estão de volta para se redimir ante as vidas que arruinaram ou ceifaram das mais variadas formas. E por que voltam? Porque a consciência está pesada e o coração, apertado. Além disso, a lembrança dos horrores que praticaram não os deixa em paz. Por isso, precisam retornar para refazer a jornada e aprender a trilhar o caminho do bem, de modo que o mal outrora feito deixe de ser aguilhão para se transformar em memória que não mais incomoda.

Seria leviano de minha parte e de qualquer espírita esclarecido afirmar categoricamente que todas e quaisquer agruras pelas quais as pessoas passam têm a ver com resgates de vidas passadas. Mas não deixa de ser interessante imaginar que percalços enfrentarão, em vidas futuras, os que, hoje em dia, se locupletam em causar toda sorte de infortúnios. Afinal, assim como qualquer um de nós, eles precisam acertar as contas com as próprias consciências se quiserem evoluir em paz.  

Como voltarão os que abusaram da força física e do poder político e econômico? Os que devastaram o meio ambiente? Os que fizeram questão de manter o povo na ignorância? Os que enriqueceram à custa de tráfico de drogas, animais silvestres e armas? Os que amealharam fortunas em cima da desgraça alheia? Os que mentiram, enganaram ou se deixaram enganar por conveniência?

Enfrentarão males psíquicos como transtorno bipolar, paralisia cerebral, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), autismo, esquizofrenia e depressão? Reencarnação em locais inóspitos em que se verão às voltas com problemas como doenças endêmicas e falta d’água? Experimentarão toda sorte de males físicos como câncer, insuficiência renal, cegueira e por aí vai? Virão saudáveis, mas, em contrapartida, enfrentarão o descrédito, a solidão, a antipatia dos próprios familiares e/ou a desconfiança da coletividade, mesmo que estejam com boas intenções? Difícil afirmar. Afinal, cada um de nós é um caso específico e a vida não é matemática.

Tudo isso me remete à Parábola do Festim das Bodas (Mateus, cap. 22, 1 a 14). Nela, Jesus conta que um rei (Deus), a fim de festejar o casamento do filho (o próprio Cristo), organiza um banquete (tudo que é oferecido para evoluirmos espiritualmente) e manda os servos (missionários como João Batista, Francisco de Assis e Gandhi) convidar o povo. Após várias peripécias com convidados que não quiseram ir, que esnobaram o convite e até mataram os mensageiros, o rei manda novos servos irem às ruas convidarem todos que encontrassem pelo caminho. E quem são estes que lotaram as bodas do filho do rei? São todas as pessoas que têm o coração aberto para assimilar os ensinamentos cristãos e lutar pela implantação de melhores condições de vida material, psíquica e espiritual na Terra.

 Durante a festa, o rei notou que um dos convidados de última hora estava sem a túnica nupcial (coração aberto, confiança em Deus e predisposição para servir), ou seja, não estava devidamente trajado para a ocasião. Foi, então, retirado do recinto. Este conviva representa as pessoas que estão inseridas nos movimentos religiosos, políticos, benemerentes e afins, mas não estão interessadas em aprimorar o caráter. Não são puros de intenções, mas de interesses mercantilistas.  Querem poder, riquezas e, para tanto, não hesitam em ultrajar a mensagem cristã. Há milhares por aí e, embora tenham sido convidados para as bodas, nelas não poderão ficar. Cedo ou tarde, sofrerão as consequências dos próprios desvios e irão, reencarnação após reencarnação, aprender a enxergar a vida por ângulos mais saudáveis.

Por isso, toda vez que releio o embate entre Germano e o Geral, me vêm à mente não só os tiranos, corruptos, hipócritas e salafrários que, todos os dias, inundam os noticiários. Penso também em mim e em todas as pessoas, com suas lutas particulares, altos e baixos, certezas e hesitações, acertos e erros… Todos nós, pelos caminhos e descaminhos do mundo, como mendigos dos séculos, tecendo a túnica nupcial fio a fio.

Continuemos a tecê-la, apesar dos muitos pesares que o mundo apresenta. É ela que nos permitirá tomar parte no banquete.

Marcelo Teixeira

BIBLIOGRAFIA:

  1. KARDEC, Allan – O Evangelho segundo o espiritismo, 123ª edição, 2004, Federação Espírita Brasileira (FEB), Brasília, DF.
  2. SOLER, Amália Domingo – Memórias do Padre Germano, 21ª edição, 1995, Federação Espírita Brasileira (FEB), Brasília, DF.

TEIXEIRA, José Raul – Nos passos da vida terrestre, 1ª edição, 2005, Editora Fráter, Niterói, RJ.

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